Viagem ao Interior do Coração

Para quem se deita às tantas da madrugada, hoje levantei-me cedo. Das nove em ponta às catorze bem badaladas, o meu desempenho cardíaco foi examinado. Jejuado, cateterizado, injetado, radioativo, sensorizado, tomografado, esforçado e eletrogramado, regressei vigiado, sem saber, contudo, em que estado.
Imagem. Dead Can Dance. Aion, 1990
Bem atendido, mas repassado, em casa, apeteceu-me entorpecer com música soprada com uma ponta de ironia. Os Doors? Léo Ferré? Não, os Dead Can Dance…
O vento e o barro
O vento tudo leva, mas endurece o barro (frase obtusa)

“Em Novembro de 2022, Lisa Gerrard e Jules Maxwell (…) irão apresentar ao vivo, pela primeira vez, o seu aclamado álbum Burn. Os sete espetáculos terão todos lugar em Portugal”. No Porto, dia 23, às 21 horas, na Casa da Música. Em Braga, dia 29, às 21:30, no Theatro Circo. Neste dia, à tarde, tenho outro evento a que não posso faltar. Seguem as duas últimas faixas do álbum Burn.
A dança das máscaras

Conversa parva:
No mês de Agosto, há trinta anos, estava a banhos numa praia a sul da Zambujeira. Obrigava-me a uma boa caminhada. Um dia, um velhote, com um garrafão de água, ultrapassa-nos numa descida. Na subida, é a nossa vez de o ultrapassar. Digo-lhe: “a subir custa mais”. “Ná senhor ná! Fui atleta”, e desata a correr rampa acima. Não é fácil prever quando se despoleta a mola humana! Numa máscara cabe o infinito.
As máscaras gostam de música e de dança. Com música dos Dead Can Dance, os vídeos seguintes conjugam máscaras, música e dança.
Sugiro uma visita à fotogaleria “Como as sociedades se reinventam para a distância social da covid-19” do jornal Público: https://www.publico.pt/2020/08/07/fotogaleria/sociedades-reinventam-pandemia-covid19-402133
Dead Can Dance e Pina Bausch
A Isabel enviou-me este vídeo: Song of the Stars, com Dead Can Dance e Pina Bausch. Um cocktail fantástico para o início de Setembro, o mês onde tudo começa verdadeiramente (“c’est em Septembre que tout commence pour de vrai”, Gilbert Bécaud, C’est en Septembre, 1978).
Dead Can Dance / Pina Bausch. Song of the stars.
A dança dos carneiros
O anúncio Commence Operation Boomerang, para o Australia Day Lamb 2016, é uma paródia descomedida de filmes e séries de aventuras. Os australianos radicados no estrangeiro são “ajudados” a regressar à Pátria para comemorar o dia do carneiro. Até a princesa da Dinamarca, australiana, não escapa ao apelo. Várias vedetas integram o elenco do anúncio: Lee Lin Chin, Stephen Moore, Mitch Johnson, Sam Kekovich e, naturalmente, o MasterChef George Calombaris. Tanto espalhafato suscitou polémica, sendo a iniciativa contestada pelos aborígenes, pelos vegetarianos e pelos defensores dos animais.
Tudo me serve de pretexto para dizer um disparate. Conhece a expressão “carneiros de Panurge”? É internacionalmente proverbial. No Quart Livre, de François Rabelais, Panurge, companheiro de Pantagruel, desentende-se, a bordo de um barco, com o dono do rebanho de carneiros em carga. Diplomático, Panurge presta-se a comprar um carneiro. Após um interminável regateio, mal adquire o carneiro, atira-o ao mar. Todos os carneiros, sem excepção, seguem. Na tentativa de segurar o rebanho, o dono e os pastores também caíram à água. Em suma, estamos perante carneiros de Panurge quando, enquanto seguidores compulsivos, para onde vai um, vão todos.
Na Austrália, não há só carneiros. O país foi o berço dos Dead Can Dance, formação marcada por uma sonoridade própria e pela voz de Lisa Gerrard. O grupo tem, entre outras, uma costela medieval e renascentista. Yulunga é uma canção do álbum Into the Labyrinth, editado em 1993.
Voz extrema
Há vozes que impressionam. Tendem para o limite. Lisa Gerrard, australiana, contralto, membro dos Dead Can Dance. Klaus Nomi, contra-tenor alemão, vítima da sida em 1983, exímio a combinar o trágico e o grotesco. Ambos tendem para o limite, mas em sentido contrário. Fantásticos!
Lisa Gerrard / Dead Can Dance. Sanvean. Toward the Within. 1994.
Klaus Nomi. Der Nussbaum. Ses 20 plus belles chansons.1994.

