Uma Flor num Inferno

“Chanson pour Anna”, do Daniel Guichard, é flor que, como a camélia, teima em reaparecer no inverno, estação que não nos larga. É dedicada a Anne Frank, uma flor num inferno. Acrescente-se “Reste”, uma canção de despedida, seguida por “Prends-moi dans tes bras”, um pedido de refúgio, e teremos três belos poemas que se encadeiam. Recoloco “Mon Vieux” e “La Tendresse”. Fazem também parte do meu jardim de inverno.
Imagem: Frank, dezembro de 1941
Ternura

Dois computadores avariados. O fixo e o portátil. Uma orfandade eletrónica? Nem por isso. Existe vida para além do ecrã. A música, por exemplo. E sentimentos frescos. A ternura, por exemplo. Segue La Tendresse, de Daniel Guichard.
Serge Lama. A quem não ama o suficiente

A França é o meu segundo País. Proporcionou-se assim. Aprendi a gostar da “chanson française”: La vie en rose, Les feuilles mortes, Ne me quitte pas… A “canção francesa” distingue-se pela melodia e, sobretudo, pela qualidade poética. Quando as letras não são de Verlaine, Aragon ou Prévert, são os próprios cantores poetas (Léo Ferré, Georges Brassens, Serge Gainsbourg). Serge Lama pertence a esta tradição. Escolhi três canções: Je voudrais tant que tu sois là (1977); Les ballons rouges (1967); e Je suis malade (1973). A primeira é interpretada pelo próprio Serge Lama. Nas seguintes optei pelas versões de Daniel Guichard e Lara Fabian. Sem desprimor para Serge Lama, Daniel Guichard e Lara Fabian emprestam-lhes mais raiva e dor.
De saída
Estamos de saída. “Partem velhos e novos”. “Este parte, aquele parte, e todos, todos se vão”. Para o estrangeiro ou para o purgatório. O mundo não é um baloiço, é um trampolim. Estas duas canções francesas falam da partida. Dos velhos e dos amigos, sem esquecer os que ficam. Duas excelentes prestações ao vivo de Daniel Guichard (Mon vieux, um cover de Jean Ferrat, 1962) e Jean-Jacques Goldman (Puisque tu pars, 1987). Pressinto que não vão gostar. Sempre que se proporciona, insisto em colocar um “tesourinho deprimente” italiano, francês, espanhol ou português. Neste capítulo, não coincido com o Estado Português. O meu mundo é latino e a minha língua não se esgota na tradução. Não é uma “língua à vinagrete”.
Para aceder aos vídeos, carregar nas imagens.
Daniel Guichard, Mon Vieux, original de Jean Ferrat, 1962.
Jean-Jacques Goldman, Puisque tu pars, 1987.
Ternura
É uma ternura este anúncio da Allan Gray, uma empresa de investimentos financeiros. O rapaz é um anjo da guarda incansável. Tamanha dedicação encerra, porém, um fundo especulativo: a filha sai à mãe. “Always look for potential, and than have the patience to wait for it!” Para aceder ao anúncio, carregar na imagem ou neste endereço: http://www.culturepub.fr/videos/allan-gray-patience?hd=1.
Marca: Allan Gray. Título: Patience. Agência: King James. Direção: Keith Rose. África do Sul, 2008.
A palavra ternura lembra algumas canções ditas francesas. Por exemplo, “la tendresse” de Bourvil (1963) ou de Jacques Brel (1959). É também o título de uma canção de Daniel Guichard (1972). Muito conhecida dos portugueses? Palpita-me que pouco. O que enternece… Portugal já foi o país da rosa-dos-ventos; agora, é um país cataventos, cada vez com mais urgências e cada vez com menos memória.
Daniel Guichard. La Tendresse. 1972.



