Restaurado

Missão cumprida. À seguinte! A conversa “A Arte do Restauro: Alcance e Dilemas” (Conhecer o Mosteiro de Tibães. Curso: Restauro, Sala das Cavalariças do Mosteiro de Tibães, 14/10/2023) correu melhor do que temia atendendo à insuficiente preparação (ando a espremer os minutos). Senti-me em casa, na grata companhia da Margarida Coelho e da Aida Mata. O Mosteiro de Tibães tem sido um abrigo. A título individual ou com os cursos de sociologia da Universidade do Minho, designadamente o mestrado em Comunicação, Arte e Cultura, cujos alunos tiveram a gentileza de comparecer. Para além de várias comunicações, recordo o seminário O Trágico e o Grotesco no Mundo Contemporâneo (2005), a exposição Vertigens do Barroco: em Jerónimo Baía e na Atualidade (2007), os Encontros de Sociologia (2018 e 2019) e as aulas em contexto, anuais, sobre a Educação pelos Sentidos no Mosteiro. Regresso, portanto, como quem nunca se despediu, feliz pelo reencontro, à vontade e satisfação que são, à partida, meio caminho andado para cativar o público, que não deixou cadeiras vazias.

Cumpria-me abrir dispondo de uma hora. Sem cuidar, excedi-me. Quando perguntei pelo tempo de que dispunha, afinal, já o tinha ultrapassado. Soy muy raro, como dizem os espanhóis: palrador em público, calado em privado. Afortunadamente, a audiência não aparentou acusar o abuso. O estilo ajudou. Descontraído e despretensioso, a namorar por vezes a confidência. Com uma enxurrada de diapositivos à mistura (38 imagens de pinturas e esculturas), atraentes e surpreendentes. Conquistam cada vez maior protagonismo. Intervalam a soporífera monotonia da oralidade. Aprendi como docente com os alunos que a concentração e a atenção pedem momentos de distração e descompressão.
Acrescem como amortecedores da massagem a arte e o motivo da comunicação. Com a idade, fui degenerando. A aposentação e o afastamento da universidade agravaram a tendência. Dispenso cada vez mais o coro das generalidades e das grandes teorias. Prefiro o concreto e o particular: o caso. Conto historinhas, de preferência extraídas da minha própria experiência. Partilho assim testemunhos únicos. Promovo, efetivamente, partilha, originalidade e imprevisibilidade.

O teórico e o nomotético emergem do concreto e do particular, com uma espessura quase corporal. Nas antípodas do modelo da aula académica, salto, saboreando, de assunto em assunto. E divirto-me, sobrepondo o prazer ao saber. Inspiro-me mais no Perrault e no La Fontaine do que no Descartes ou no Kant. Encadeio episódios que sugerem, quando muito, uma ou outra elação proverbial.
Assumir que o discurso voa baixo, que não se pretende teórico, não implica que a teoria esteja ausente. Semelhante quimera não é possível! “Está no sangue”. Se existe algo que a universidade inculca são teorias. Exposto uma vida, quase meio século, não há modo de escapar ao veneno. Por outro lado, proporciona-me imenso gozo sentir os pequenos pormenores, palavras soltas, a beliscar ou a fazer cócegas às teorias.

Ainda de ressaca, este memorando de escrita automática, amaneirado quanto baste, já vai demasiado longo. Estou cansado. Proponho-me publicar uma ou outra historinha da conversa sobre o restauro. Por enquanto, não disponho de tempo. Sexta, volto a ter espetáculo. Em Melgaço, no Serão dos Medos, de que sou o animador. Aguardam-me duas conferências e uma conversa coletiva “socioterapêutica” em torno das premonições e dos prenúncios de morte. De motivo em motivo, sem repetir, vou(-me) entretendo.
Estou a ouvir a banda sonora do filme Into The Wild, de 2007. Mas, não obstante me embalar a voz escorreita do Eddie Vedder, opto pela irreverência do Klaus Nomi. Seguem três canções inéditas no Tendências do Imaginário que já contempla uma dezena deste contratenor excecional que, precocemente falecido em 1983, foi uma das primeiras vítimas conhecidas da SIDA: Lighting Strikes; Wasting My Time; e Simple Man.
Conhecer o Mosteiro de Tibães. Curso: A Recuperação
É já amanhã!

Pós-Graduação em Património Cultural Imaterial

Encontra-se aberto o concurso para admissão de candidatos à frequência do Curso de Pós-Graduação em Património Cultural e Imaterial, na Escola Superior de Educação do Politécnico do Porto, em cuja docência terei o gosto de colaborar. O respetivo Edital está acessível no seguinte endereço: https://www.ese.ipp.pt/cursos/editais/copy_of_Edital.Pos.Graduacao.Patrimonio.Cultural.Imaterial.2023_signed.pdf.
Para mais informação sobre o curso, carregar no seguinte endereço: https://www.ipp.pt/ensino/cursos/pos-graduacao/ese/907.
Ésquilo, o abutre e a tartaruga


Ando absorvido, acelerado e fragmentado. Excessivo na recuperação do tempo perdido, sinto-me a ultrapassar o ponto previsto pelo princípio de Peter. Quinta, 15, entrevista aos Porto Canal sobre os Farrangalheiros de Castro Laboreiro; sábado, 18, a conferência “Vestir os Nus”, no Museu D. Diogo de Sousa; ontem, 24, arguição da dissertação, excelente, de Sílvio Messias dedicada à figura do palhaço; hoje e amanhã, últimos retoques no capítulo “Castro Laboreiro: Acessibilidade e migrações até aos anos 1930”; na próxima semana, duas atividades previstas no âmbito do Fórum Cidadania: Pela Erradicação da Pobreza (BRAGA) de que sou membro; na quinta, 2 de março, gravação de entrevista sobre o nu na sociedade atual para o programa da A Voz do Cidadão, da RTP, a emitir sábado, 4 de março, às 14 horas; no sábado, de manhã, às 10 horas, aula “A arte do restauro: Alcance e dilemas”, no mosteiro de Tibães (ver programa anexo).

Mais tartarugas me vão cair, certamente, na cabeça. Poucas folgas para o Tendências do Imaginário e o Margens. A agenda lembra demasiado o ritmo e as variações de algumas composições espanholas. Sem a formosura das intérpretes Ana Vidovic e Alexandra Whittingham. Não me resta outra solução senão abrandar e fazer escolhas. Como se costuma dizer, já não tenho estofo nem pedalada para tanto.
A propósito da “queda de tartarugas na careca”, Jean-Martin Rabot, uma autêntica enciclopédia dos óbitos de celebridades, relata este derradeiro episódio de Ésquilo, completamente calvo, na ilha da Sicília.
Algumas aves quando pretendem quebrar um objeto duro, agarram-no, sobem alto e deixam-no cair. Um abutre pegou uma tartaruga e lançou-a contra o que lhe pareceu uma pedra a brilhar no solo. Era a cabeça de Ésquilo que caiu fulminado.

