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Estar comigo é outra coisa

Eugène Delacroix – Saint Mary Magdalene at the Foot of the Cross . 1829.

A série bíblica do Renault Clio lembra o filme Jesus Cristo Superstar (1973), uma ópera-rock com música de Andrew Lloyd Weber. Destaco a canção I Don’t Know How To Love Him, interpretada por Yvonne Elliman. Gosto de misturar memórias, num encadeamento estranho com voltas que recusam repetir-se. Yvonne Elliman lembra-me a canção Both Sides Now (1969), de Joni Mitchell. “Does anybody here remember Joni Mitchell?” Frequentemente, as obras são cobertas por várias camadas de sedimentos. Como invejo quem desenterrou, das cinzas, a cidade de Pompeia e, dos escombros acumulados, a Domus Aurea. Quando escavo o mundo, descubro-me; quando me descubro, escavo o mundo. Uma mútua arqueologia. Quando estou comigo, apraz-me acreditar que não estou em má companhia.

Yvonne Elliman. I Don’t Know How To Love Him. Banda sonora de Jesus Cristo Superstar. 1973. Ao vivo.
Joni Mitchell. Both Sides Now. Clowds. 1969.

Páscoa

Artur Bual. Cristo. 1991

Artur Bual. Cristo. 1991

Admiro, como Miguel de Unanumo, os “homens mais carregados de sabedoria do que de ciência”.

“Certo pedante, vendo Sólon chorar a morte de um filho, disse-lhe: “Para que choras dessa maneira, se isso de nada serve?” E o sábio respondeu-lhe: “Precisamente porque para nada serve.” (…) O que de mais sagrado existe num templo é o facto de ser o lugar aonde se vai chorar em comum. Um Miserere, cantado em coro por uma multidão açoitada pelo destino, vale tanto como uma filosofia. Não basta curar a peste, há que saber chorá-la! Sim, importa saber chorá-la! E esta é, talvez, a suprema sabedoria.” (Unanumo, Miguel,1913, Do sentimento trágico da vida, Lisboa, Relógio d’água, 2007,p. 22).

Páscoa, paixão, sacrifício, expiação e redenção. Ocorre-me Lisa Gerrard.

Lisa Gerrard & Pieter Burke. Sacrifice. Duality. 1998.

O triunfo sobre a morte: San Martin de Artaíz

“Abençoado aquele que vai buscar água e traz vinho” (Albertino Gonçalves).

Dvein é um grupo criado em Barcelona pelos realizadores Teo Guillem e Carlos Pardo. No anúncio Sculpture (2013), para a Rdio, surge uma figura híbrida insólita: a cabeça é de uma mulher com duas faces, o tronco, um bricolage de objectos e os membros, tentáculos de polvo (Figura 1).

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01. Dvein. Sculpture. 2013

Composições híbridas combinando partes humanas, animais e técnicas surpreendem cada vez menos. Figuras semelhantes a esta existem há séculos. Atente-se, por exemplo nas quimeras das iluminuras ou nas gravuras pantagruélicas de Desprez (ver Criaturas Pantagruélicas 1). Das luzes do bestiário multimédia recuemos para as sombras do paganismo românico. As figuras bifrontes e trifrontes não são raras (ver Três faces e um pescoço; e As três faces de Cristo). Encontram-se, por exemplo, nos cachorros das igrejas românicas, como o “Janus” (Figura 2) na igreja de San Martin de Artaíz (séc. XII).

San Martin de Artaíz

02. Janus e São Martinho. Igreja de San Martin de Artaíz. Navarra. Séc. XII.

“El dios Jano me mira con miradas extrañas y diferentes. Según donde me coloque hay matices en ella. Mirada profunda y fija iluminada por la luz. Mirada de complicidad medio en sol medio en sombra.Los tres rostros del tiempo nos hablan del pasado, del presente y del futuro. Siempre en cambio. Siempre con matices. Siempre inmutable. Tres y uno. Dios pagano cristianizado. Tres rostros distintos. Tres rostros iguales. Tres personas distintas y un solo Dios verdadero, dice su credo.
Muy fuerte parece que fue la influencia romana en esta zona, pues por cinco veces a lo largo de los siglos XII, XIII y XIV, los representantes de la Iglesia Católica tuvieron que acudir a plasmar ante sus gentes esta figura y convencerles de que era la representación del Padre, del Hijo y del Espíritu Santo” (Simeón Hidalgo Valencia, Artaíz – Luz Equinoccial: http://simeonhidalgo.over-blog.com/tag/artaiz/2).

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03. Igreja de São Martinho de Tours. Ardanaz. Izagonda. Navarra. Trifronte. Séc. XIV

Há formas de representar o tempo que resistem ao tempo. É o caso da imagem de Janus. Reinterpretada ou não, perdura há milénios. O mesmo sucede, ao nível cósmico, com a imagem do falo, nada discreto na Igreja de San Martin de Artaíz (Figura 4). Costuma espreitar, impudico e sem disfarce, nos lugares mais inesperados, especialmente nas gárgulas e nos cachorros das igrejas medievais.

Partimos da escultura dos Dvein, de Barcelona, e arribámos, quixotescamente, à Igreja de San Martin de Artaíz, em Navarra (Figura 6). Encontrámos mais do que procurávamos: um Janus, mas também um falo e uma mulher adúltera a parir uma criança (Figura 5). E, por artes de uma sociologia vadia, a visita ainda mal começou. Façamos caminho caminhando , com um andar incerto , cientes de que “nada se detém por nós” (Blaise Pascal, Pensamentos, 1669).

“Todo pasa y todo queda,
pero lo nuestro es pasar,
pasar haciendo caminos,
caminos sobre el mar.”
Antonio Machado, Caminante no hay camino, 1912. Excerto.

Galeria de imagens da Igreja de San Martín de Artaíz. Séc. XII. Navarra.

Viemos à Igreja de San Martin de Artaíz para apreciar uma figura com três faces. Esperava-nos, também, um falo, mais uma mulher adúltera, imagens, apesar de tudo, correntes. Por que não observar o resto? No resto, pode morar a surpresa.

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20. Cristo no limbo resgata Adão. Igreja de San Martin de Artaíz

Encaremos, pois, o resto, sem perder de vista nem o conjunto nem os pormenores, com um olhar estrábico caro a Edgar Morin (Comune en France, 1967) e o jeito desprendido do flâneur, que anda sem ter que chegar. Curiosamente, a flânerie adquiriu um novo impulso com a Internet. Mas os novos flâneurs não são os retratados por Charles Baudelaire, Georg Simmel e Walter Benjamin. Pouco ou nada blasés, já não andam nas avenidas mas nos ecrãs. Permitam-me um parêntesis para parodiar dois diálogos: primeiro, o do homem pré-digital, em seguida, o do homem digital.

Homem pré-digital:

  • Onde vais?
  • Vou ali.
  • Que vais fazer?
  • Vou esticar as pernas.

Homem digital:

  • Onde vais?
  • Vou ali.
  • Que vais fazer?
  • Vou dar uma volta ao mundo.

O dandy do nosso tempo não sobe nem desce as avenidas, abre e fecha páginas na Internet.

22. Igreja de São Salvador em Chora. Istambul

21. Igreja de São Salvador em Chora. Istambul

Compensa dar a volta à igreja de San Martin de Artaíz. Nas cenas da Bíblia, esculpidas nos espaços entre os cachorros, destaca-se o episódio da descida de Cristo ao Inferno (Figura 20). A escultura mostra Cristo a resgatar, com uma mão, Adão da boca do inferno; com a outra calca um caveira com o bastão encimado por uma cruz . Eis um “facto imprevisto, anómalo e estratégico” (Robert K. Merton).

23. Discípulo de Hieronymus Bosch. Cristo no limbo, ca. 1550

22. Discípulo de Hieronymus Bosch. Cristo no limbo, ca. 1550

Para além da Igreja de San Martin de Artaíz, existem imagens de Cristo semelhantes noutros lugares? Percorremos, na Internet, uma centena de pinturas e esculturas dedicadas à descida de Cristo ao inferno. Em algumas, o bastão está ausente (Figura 21). Nas demais, o bastão ora é meramente simbólico (Figura 23), ora desempenha duas funções: ajudar a arrombar a porta do inferno (Figura 22); ou dominar o demónio aprisionado (Figura 26). Em nenhum caso, o bastão calca uma caveira. Uma pintura peruana do século XVIII é aquela que mais se aproxima : Cristo pisa, não apenas o diabo, mas também um esqueleto, ou seja, a morte (Figura 24).

Andrea Boniauto. Descent of Christ. Limbo, 1365-1368.

23. Andrea Boniauto. Descent of Christ. Limbo, 1365-1368.

Entre a crucificação e a ressurreição, Cristo força as portas do inferno e liberta os santos, começando por Adão e Eva. Os demónios, ou estão acorrentados aos pés de Cristo, ou estão presos nos destroços da porta ou se mantêm à distância (Figura 23). Em algumas imagens, raras, Cristo subjuga o diabo com o bastão (Figura 26).

24. Cristo Descendo ao Inferno. Peru. Séc. XVIII.

24. Cristo Descendo ao Inferno. Peru. Séc. XVIII.

The Harrowing of Hell. Bibliothèque nationale de France, detail of f.370r. Augustine, De Civitate Dei. 1370-1380

25. A descida ao inferno. BNF. Augustine, De Civitate Dei. 1370-1380

Na descida ao inferno, Cristo vence o diabo, as trevas e a morte. Vence a morte pela sua ressurreição e pela ressurreição dos santos: ”Os sepulcros se abriram, e os corpos de muitos santos que tinham morrido foram ressuscitados” (Evangelho de São Mateus, 27: 52). Na Igreja de San Martin de Artaíz, está esculpido o triunfo de Cristo sobre a morte, tal como rezam as escrituras. Não registei nenhuma imagem equivalente. Presumo que existem, mas raras. É preciso desencantá-las. De tanto abordar o triunfo da morte, é um consolo escrever, por uma vez, acerca do triunfo sobre a morte.

Harrowing of Hell. England, c 1240.

26. Harrowing of Hell. England, c 1240.

Termina a travessia. Passamos do híbrido de duas faces dos Dvein para o “Janus” de três frontes da Igreja de San Martin de Artaíz; observamos as esculturas da igreja priveligiando a descida de Cristo ao inferno; para comparação, pesquisamos imagens congéneres, na Internet. O olhar entrega-se à alternância de planos, ora micro, o pormenor, ora macro, o panorama. Pelo caminho acontece a aprendizagem e, eventualmente, a descoberta. Neste mundo, convém sempre invocar alguém para se ser alguma coisa. Assim sendo, acendo uma vela a Paul S. Feyerabend, falecido em 1994 (Against Method: Outline of an Anarchistic Theory of Knowledge.1975).

Galeria de imagens: a descida de Cristo ao inferno.

O Cruzeiro do Senhor do Galo em Barcelos (revisão)

01. Cruzeiro do Galo. Barcelos. Face anterior.

01. Cruzeiro do Galo. Barcelos. Face anterior

Vale a pena visitar o Cruzeiro do Galo, em Barcelos. Outrora localizado perto da forca, agora situado no Museu Arqueológico da cidade, é uma obra única, de traço popular, porventura do início do séc. XVIII. Um exemplo ímpar da arte de contar com poucas imagens difíceis de esculpir: o galego “enforcado”, São Tiago a ampará-lo e o galo, combativo e matinal, a iluminar as trevas; no topo, Cristo na cruz. No lado oposto, São Bento (?), Nossa Senhora (?), o sol e a lua. Impressiona a centralidade da morte: o “enforcado”, o galo renascido e Cristo crucificado. Tudo gira em torno do galo, símbolo associado ao sol nascente e à ressurreição:

“O galo é também um emblema de Cristo, como a águia e o cordeiro. Mas assume especial relevo o seu simbolismo solar: luz e ressurreição” (Jean Chevalier & Alain Gheerbrant, 1982, Dictionnaire des symboles, Paris, Robert Laffont/Jupiter, p. 282).

Impressiona, também, a elevada cristalização simbólica: Cristo, Nossa Senhora, São Bento e São Tiago, as figura sagradas mais influentes no noroeste peninsular, o galo, o sol e a lua e, naturalmente, a forca. Uma carga simbólica difícil de igualar.

02. Cruzeiro do Galo. Barcelos. Face posterior.

02. Cruzeiro do Galo. Barcelos. Face posterior

Amaral Ribeiro, na sua Notícia sobre a Villa de Barcelos, de 1867, descreve, de forma sistemática, a iconografia do Cruzeiro do Galo:

“Na face anterior da coluna tem lavrada em relevo a figura de um homem pendente de uma corda bamba, amarrada ao pescoço; por baixo, outra figura com a cabeça e com a mão esquerda na atitude de suster as plantas dos pés do homem que pende do laço e tendo na mão direita um bordão com a cabaça, pelo que denota ser Santiago. Na face posterior, tem em cima, a um canto, a figura do sol, e no outro a da lua; ocupa o centro uma figura que parece ser Nossa Senhora; por baixo, outra que se assemelha a São Bento por ter na mão direita um cajado e na esquerda um livro aberto. Em cima da coluna, como vai dito, assenta uma cruz com peanha. A cruz, de um e outro lado, tem esculpida a imagem de Cristo crucificado. A peanha, em cima da cabeça do justiçado, apresenta a figura de um galo; na outra face, divisam-se os traços de um dragão” (Ribeiro Amaral, 1867, citado em http://www.summagallicana.it/lessico/b/Barcelos.htm).

 

A Lenda do Galo não é simples, mas pode resumir-se em poucas palavras.

Dois galegos, pai e filho, dirigem-se em peregrinação a Santiago de Compostela. Entram numa estalagem. A dona conhecida pela sua beleza encara com o jovem galego. Procura, em vão, reter os clientes. Mal retomam viagem, a guarda aprisiona o mancebo. A estalajadeira escondeu talheres de prata na sacola do galego e denunciou o roubo. O jovem galego foi condenado à forca. O pai acode ao juiz que lhe diz que só acredita na inocência do condenado se o galo assado começar a cantar. Dito e feito. O galo cantou como nunca. Mas chegara a hora de executar a sentença. O pai e o juiz não chegam a tempo, mas… a corda estava frouxa; São Tiago amparava o condenado, vivo, pelas plantas dos pés. Com Nossa Senhora e S. Bento prontos a ajudar.

05. Cruzeiro do Galo. Face anterior. S. Tiago ampara o enforcado

Cruzeiro do Galo. Face anterior. S. Tiago ampara o enforcado

“Segundo a tradição popular o galego regressou uns anos mais tarde a Barcelos, onde esculpiu o Cruzeiro do Senhor do Galo, monumento datado do início do século XVIII” (O Galo Lendário. Calçada da Miquinhas: http://calcadadamiquinhas.blogspot.pt/2012/04/).

Numa lenda popular, o diabo costuma ter lugar cativo. Neste caso, veste as saias da estalajadeira, a instigadora da crise. À justiça não se pode querer mal por ser aquilo que é: cega. Os galegos são as vítimas. São Tiago resgata o peregrino. O protagonista é o galo.

06. Cruzeiro do Galo. Face anterior. Galo e Cristo crucificado

06. Cruzeiro do Galo. Face anterior. Galo e Cristo crucificado

A Lenda do Galo de Barcelos é percorrida por dois eixos, ou movimentos: o eixo do bem, desde a chegada dos peregrinos a Barcelos até ao regresso do galego para a construção de um ex-voto enorme, o Cruzeiro do Galo; e o eixo do mal, que vai desde encantamento da estalajadeira até à forca. Este segundo eixo interrompe ou suspende o primeiro eixo. O terceiro eixo, o da justiça, é coadjuvante. Opera uma inversão: o mal inicial converte-se no bem final.

07. Cruzeiro do Galo. Face posterior. Imagem de Nossa Senhora

07. Cruzeiro do Galo. Face posterior. Imagem de Nossa Senhora

A intervenção do galo, embora curta, coloca-o no centro da lenda. Vigilante e protector, o galo ergue-se nos cataventos e nas torres das igrejas. Rocha Peixoto, em 1899, caracteriza o galo nos seguintes termos:

“Na impressão que as aves exercem destaca-se a que produz esta [o galo], visivelmente pelos costumes dominadores e másculos. Altivo e majestoso, vigilante e cúpido, todo o povo o celebra, em contos, em superstições, em cantares:
Este galo é malvado,
Desonrador das galinhas
Inda bem não amanhece,
Já anda pelas curtinhas. (…)
Foi ele quem afirmou a divindade de Jesus quando os apóstolos, à mesa, duvidavam; é ele quem se antecipa a anunciar as alvoradas:
Canta o galo, abre a luz.
E grande é o seu poder sobre as entidades maléficas das trevas, já celebrado nos hinos da Igreja e nos cantos populares, antigo e extenso na simbólica grega, por exemplo, no Avesta em que o canto do galo obriga os demónios a fugir, desperta a aurora e faz erguer os homens” (Rocha Peixoto, 1990 [1899], Etnografia Portuguesa. Indústrias populares. As olarias de Prado, in Etnografia Portuguesa, Lisboa, Publicações Dom Quixote, 1990, pp. 89-132, p. 115).

Importa relevar dois traços da simbologia do galo.

O galo, tal como o cão, é um animal psicopompo (guia das almas; junção do grego pyché, alma, e pompos, guia). O galo procede à mediação entre bipolaridades: o dia e a noite, o céu e a terra, o bem e o mal. No caso do cruzeiro do Senhor do Galo, destacam-se duas bipolaridades: a vida e a morte e a verdade e a mentira. As gravuras medievais das ars moriendi evidenciam o papel do galo como animal psicopompo. O galo aparece empoleirado no quarto dos moribundos, algumas vezes na própria cabeceira da cama (ver O Galo e a Morte: https://tendimag.com/2016/10/19/o-galo-e-a-morte/). A particularidade de o galo ser um símbolo psicopompo manifesta-se útil para a interpretação da lenda e do cruzeiro do galo.

08. Cruzeiro do Galo. Face posterior. Imagem de São Bento

08. Cruzeiro do Galo. Face posterior. Imagem de São Bento

Contemplamos, até ao momento, o lado anterior do cruzeiro. É tendência predominante nos diversos textos a que tive acesso. Na parte posterior, identifica-se S. Bento e Nossa Senhora, o sol e a lua, mais um presumível dragão. Mas, qual é o papel de S. Bento? E de Nossa Senhora?…

O sol e a lua expressam o poder de Cristo sobre o mundo. E são ofuscados pelo brilho de Nossa Senhora. Na mesma lógica, os quatro elementos e as quatro estações de Giuseppe Arcimboldo representam o poder do imperador sobre o espaço e sobre o tempo, logo sobre o mundo. Simplificando, e sem relevar que o sol e a lua são símbolos alquimistas retomados pela maçonaria, o sol e a lua conferem uma dimensão cósmica ao evento. A interpretação é plausível, o que não obsta a outras conjecturas e derivações. O galo é, por excelência, um símbolo solar. Anuncia a luz do dia. Mas quando canta, a noite ainda não desapareceu.

09. Cruzeiro do Galo. Nossa Senhora, o sol e a lua

09. Cruzeiro do Galo. Nossa Senhora, o sol e a lua

Para Rocha Peixoto, “grande é o poder do galo sobre as entidades maléficas das trevas”. Existem crenças e rituais que convocam a componente nocturna do galo. No imaginário, as demarcações não são rígidas. O mundo não se apresenta a preto e branco. Comporta travessias e paradoxos. O mundo é contradictorial, na acepção de Gilbert Durand (1979, Figures mythiques et visages de l’oeuvre: De la mythocritique à la mythanalyse, Paris, Berg International). Os contrários não se anulam, nem se ultrapassam, coexistem, dando margem à ambiguidade e à ambivalência. Símbolo solar, o galo também pode ser lunar. Na mitologia grega, o galo estava consagrado aos deuses solares, mas também às deusas lunares. “O galo está ao lado de Leto, grávida de Zeus, quando ela dá à luz Apolo e Artemis. Também é, igualmente, consagrado, a Zeus, a Apolo, a Leto e a Artemis, ou seja, aos deuses solares e às deusas lunares (Chevalier, Jean, Dir, 1986, Diccionario de los Símbolos, Barcelona, Editorial Herder, p. 521).

10- Meister E. S., Ars moriendi. Circa 1450.

10- Meister E. S., Ars moriendi. Circa 1450g

O dragão costuma oferecer-se como uma imagem do mal, do diabo que se insinua na lenda do Galo. E Nossa Senhora e São Bento, que significam? São Bento é exorcista; combate o diabo. Nossa Senhora também nos livra do mal. Ambos nos protegem dos demónios. Por outro lado, Nossa Senhora e São Bento são as figuras sagradas mais veneradas na região. A esta luz, o cruzeiro do Senhor do Galo lembra uma gravura das Ars Moriendi: na hora da morte, o moribundo é rodeado por figuras divinas e demoníacas, que lutam pela salvação ou pela condenação de sua alma (ver o Galo e a Morte: https://tendimag.com/2016/10/19/o-galo-e-a-morte/).

11. Galo de Barcelos

11. Galo de Barcelos

Uma última pergunta: que ligação existe entre o cruzeiro do Senhor do Galo e o famoso galo cerâmico de Barcelos? Aparentemente, pouca, se não nenhuma. Estima-se que a construção do cruzeiro do Galo remonta aos inícios do século XVIII. O galo de Barcelos, com a estilização e os atributos actuais, data de meados do século XX. Desde finais do século XIX, existem exemplares, imagens e referências a galos da olaria de Barcelos, mas ainda são “protogalos”, segundo a expressão de João Manuel Mimoso (Uma História Natural do Galo de Barcelos: http://www.inverso.pt/barcelos/galo/textos/historia.htm). Estes “protogalos” não passaram despercebidos ao Estado Novo e aos “comissários” dedicados ao estudo, estilização e promoção das artes e tradições populares. Por iniciativa de António Ferro e Leitão de Barros, e participação de Artur Maciel e Manoel Couto Viana (impulsionador do traje à vianesa), foram oferecidos, num congresso internacional, no Estoril, em Setembro de 1931, galos de cerâmica. A seu tempo e a seu modo, o SPN/SNI também se interessou pelo “protogalo”de Barcelos. “Por ocasião da Exposição do Mundo Português, se produziram milhares de peças, entre reproduções do figurado antigo, e novidades por ele mais ou menos inspiradas” (Mimoso, João Manuel, Uma História Natural do Galo de Barcelos: http://www.inverso.pt/barcelos/galo/textos/historia.htm). O Galo de Barcelos corporiza um daqueles ovos de Colombo que o Estado Novo prezava: o local como caso particular do nacional.

 

O facto de um fenómeno emergir dois séculos depois de outro não é obstáculo à sua ligação. Apenas não nasceram juntos. Para haver relação, basta, por exemplo, que o segundo se inspire no primeiro. A maioria da informação a que acedi não aponta no sentido de uma conexão. Sobressaem, contudo, obras célebres que sustentam o contrário (por exemplo, Lima, Fernando de Castro Pires de, 1965, A Lenda do Senhor do Galo de Barcelos e o Milagre do Enforcado, Fundação Nacional para a Alegria no Trabalho). Trata-se de um assunto polémico e confuso.

São vários os supostos criadores originais do Galo de Barcelos. Domingos Côto, o “pai” mais “consensual” do Galo de Barcelos, dessacraliza o acto fundador:

“Estava eu aqui sentado, a jantar, e reparei num galo, de asas abertas, pimpão, a arrastar a asa à galinha, e vai daí disse ao meu irmão: vou fazer um galo a namorar a galinha. Pus-me ao trabalho e a gente virou p’ra isto que aí vê” (citado em “O Galo Lendário”: http://calcadadamiquinhas.blogspot.pt/2012/04/).

Mas para toda a afirmativa, existe sempre outra afirmativa:

“Procurei junto dos familiares do “pai” do Galo de Barcelos cimentar a questão em causa. Todos afirmam que foi Domingos Côto que fez o primeiro galo de barro e que o fez inspirado na lenda do Galo de Barcelos. Dos familiares desse oleiro, destaca-se um: Júlia Côta, neta de Domingos Côto, e insigne artesã (…) Quando lhe perguntei por que razão é que o avô começara a fazer os galos e donde é que lhe veio a ideia, Júlia Cota respondeu convicta sem hesitação: “Olhe! Foi a partir da Lenda do Galo que o meu avô começou a fazer galos” (“Galo de Barcelos”: http://www.galegossmaria.maisbarcelos.pt/?vpath=/inicio/ogalodebarcelos/).

Carlos Alberto Ferreira de Almeida sublinha o momento em que começou a vingar a narrativa que associa o galo cerâmico ao galo da lenda:

14. Galo de Barceleos. Cleção do Museu de Arte Popular, em Lisboa.

14. Galo de Barcelos. Colecção do Museu de Arte Popular, em Lisboa

“A lenda que o cruzeiro do Senhor do Galo, entretanto também chamado de Barcelos, nos ilustra não parou na sua capacidade de originar fenómenos culturais. A lenda do cruzeiro do Senhor do Galo era de há muito conhecida. Objectivamente e até 1963, ela não teve nada a ver, nem geográfica, nem cronológica, nem mentalmente, com a figura do galo cerâmico que o turismo lançara e tanto desenvolveu. Naquele ano, F. Pires de Lima publica um livro sobre A Lenda do Galo de Barcelos e o Milagre do Enforcado (Lisboa, 1963) a que se seguiu uma conferência local, onde o autor ensaiou o estudo comparativo dessa narrativa e afirmou a possibilidade de ter havido uma relação entre o galo da lenda e o da cerâmica. Poderá parecer, mas, até esse momento, não havia qualquer ligação. Mas tanto bastou para que pessoas locais o passassem a acreditar e os agentes e guias de turismo o divulguem mais. E o galo que era já um númen da cidade de Barcelos e tinha uma ascendência muito curta e até envergonhada por ser um simples fenómeno de quadro da feira de Barcelos e do turismo ficou com uma apetecida origem religiosa. E assim nasceu um mito (ALMEIDA, Carlos, 1990, Barcelos. Cidades e Vilas de Portugal, Lisboa, Presença, pp. 99-100).

O testemunho de Carlos Basto recolhido por Elisabete Muga Rodrigues (2008, O galo de Barcelos. Do Mito, do Símbolo e do ícone, dissertação para a obtenção do grau de mestre, Universidade Lusíada, Lisboa, p. 32) aponta no mesmo sentido: “que esta união entre Lenda e Galo terá acontecido no meio de uma conversa entre este e Simplício de Sousa ao qual Pires de Lima também assistia. Carlos Basto terá achado a ideia ridícula e assegurado que a Lenda e o Galo não tinham qualquer relação ou fundamento histórico, mas Simplício de Sousa (forte impulsionador das primeiras feiras de artesanato realizadas em Barcelos) terá afirmado que, independentemente de não ter fundamento histórico, havia muito interesse turístico”.

 

Para que dois fenómenos culturais se associem, não é necessária uma relação objectiva, basta que se ergam pontes entre ambos. Basta uma “autoridade” assegurar que a ligação existe e haver quem acredite. A ligação passa a existir e torna-se viva. Os interesses comandam, as comunidades imaginam-se, as tradições reinventam-se e as identidades são como o barro, moldam-se.

Segue “a mais antiga e mais completa versão escrita da Lenda do Senhor do Galo” (Domingos J. Pereira, Nova Memória Histórica da Villa de Barcelos, ampliada, manuscrita, 1877). Está acessível na página do projeto maisBarcelos: http://www.galegossmaria.maisbarcelos.pt/?vpath=/inicio/ogalodebarcelos/

Lenda do Senhor do Galo

“Por aqueles sítios, à beira da estrada velha, talvez no mesmo sítio do Senhor do Galo, havia uma estalagem muito concorrida pelos viandantes que se desfaziam em elogios sobre a formosura, sem igual, da sua dona, moça gentil, cuja fama de beleza se estendia por muitas léguas, mas em desabono de quem nada havia que dizer. Fez o diabo (e quem senão ele!) que em certo dia acertou de entrar na estalagem um peregrino, por sinal galego, que, acompanhado de um galhardo mancebo, seu filho, ia cheio de fé cumprir um voto a S. Tiago. Ver a estalajadeira ao mancebo e ficar enfeitiçada com ele, foi o momento, posto que o filho do galego não fosse acometido da mesma paixão que levou aquela até aos pontos que o leitor vai ver. Quando ela se convenceu de que os viandantes não contavam demorar-se mais que o tempo necessário para tomar algum repouso, empregou todos os recursos que lho sugeriu a sua imaginação de mulher para persuadir o peregrino da conveniência de demorar-se alguns dias. Quando conheceu que era impossível vencer a teimosia do galego em continuar seu caminho, empregou todos os esforços para conseguir do filho que ali ficasse até ao regresso do pai, e quando a obstinação desta foi seguida pela indiferença do moço, a estalajadeira formou um plano, genuinamente diabólico, que pôs em acção, logo de seguida.

Pagaram os peregrinos as despesas, despediram-se da vendeira, que longe de manifestar pesar, aparentou rosto risonho e sorriso de mau agouro e sem se demorar mais, continuaram aqueles santos varões sua piedosa jornada. Não haviam progredido muito nesta quando, num cotovelo de caminho, apareceu um bando de aguazis que dirigindo-se ao mancebo lhe disseram:

– Em nome d’El-rei, estás preso.”

Atónitos, pai e filho, com dificuldade conseguiram perguntar, balbuciantes, o que significava aquilo e, por isso, calcula-se como ficariam ao ouvir qualificar o moço de ladrão e o que mais é, quando dentro da sacola lhe retiraram uns talheres de prata, corpo do delito que a estalajadeira denunciara à justiça.

O peregrino prosseguiu imperturbável a sua visita a Santiago, depois de abraçar o filho que, conduzido à cadeia, não tardou a ser condenado à pena da forca, segundo a legislação então em vigor.

Nesse dia e na mesma hora em que deveria ser executada a sentença valeu-se o galego pai da sua peregrinação e, cheio de pesar com a notícia do que se passava, foi procurar o juiz, em ocasião que estava comendo, a fim de o convencer da inocência do filho. Desejando o magistrado que ele não o importunasse, pedindo-lhe pelo filho, declarou-lhe que para o acreditar inocente seria preciso que cantasse o galo assado que tinha na mesa e ia trinchar. Dizer isto, pôs-se de pé o galo, sacudir a salsa e começar a cantar foi um abrir e fechar de olhos.

Levantou-se o juiz aterrado, olhou o relógio, era precisamente a hora da execução. Correu, seguido pelo pai ao sítio do suplício e a grande distância um e outro viram que chegavam tarde!… O réu via-se dependurado da viga fatal… Pouco porém importava tudo isto. S. Tiago pegava no filho à vista do pai, amparando com a cabeça e mãos os pés do enforcado.

… eis a tradição, transmitida ao longo dos anos, que deu origem ao cruzeiro do Senhor do Galo.”

(Domingos J. Pereira, Nova Memória Histórica da Villa de Barcelos, ampliada, manuscrita, 1877)

 

O triunfo sobre a morte

13.2  Igreja de San Martin de Artaíz.

Descida de Cristo ao inferno. Igreja de San Martin de Artaíz. Séc. XII.

No artigo precedente, visitámos a Igreja de São Martinho, em Artaíz, Navarra, para apreciar uma figura com três faces. Cumprido o objetivo, seria curial retomar o fio de rumo. Mas o olhar vadio adora desviar-se. Deleita-se a abarcar o conjunto e atarda-se nos pormenores, seguindo uma cinestesia cara a Blaise Pascal (Pensamentos, 1670) e a Edgar Morin (Comune en France, 1967). Já que estamos na Igreja, convém aproveitar. O olhar vadio é oportunista, ávido de “factos imprevistos, anómalos e estratégicos” (Robert K. Merton, Social Theory and Social Structure, 1949). É flâneur (Charles Baudelaire, Georg Simmel, Walter Benjamin). Deambula até se perder, sem lograr resultados transaccionáveis.

04. Saint Savior. Chora Church. Istanbul. 1310-1321

Saint Savior. Chora Church. Istanbul. 1310-1321.

Compensa dar a volta à igreja. O cachorro com a mulher pecadora a parir uma criança é figura recorrente. O falo ainda mais. Encontramo-lo onde menos se espera. Nas cenas da Bíblia esculpidas nos espaços entre os cachorros, cativa, sobremodo, a atenção o episódio da descida de Cristo ao Inferno. A escultura mostra Cristo a resgatar, com uma mão, Adão da boca do inferno; com a outra segura o bastão com a cruz, assente numa caveira. Eis um “facto imprevisto, anómalo e estratégico”.

08. Christ in Limbo, follower of Hieronymous Bosch, Flemish, c. 1550

Christ in Limbo, follower of Hieronymous Bosch, Flemish, c. 1550.

Será que existem imagens semelhantes? Percorremos, na Internet, cerca de uma centena de pinturas e esculturas dedicadas à descida de Cristo ao inferno. Em boa parte, o bastão está ausente. Nas outras, o bastão ora é meramente simbólico, ora desempenha duas funções: ajudar a arrombar a porta do inferno; ou subjugar o demónio aprisionado. Em nenhum caso, o bastão se apoia numa caveira.

05. Andrea Boniauto. Descent of Christ. Limbo, 1365-1368.

Andrea Boniauto. Descent of Christ. Limbo, 1365-1368.

Entre a crucificação e a ressurreição, Cristo abre as portas do inferno e liberta os santos, começando por Adão e Eva. Quanto aos demónios, ou estão acorrentados aos pés de Cristo, ou estão presos nos destroços da porta ou se mantêm à distância. Em algumas imagens, raras, Cristo subjuga o diabo com o bastão.

06. The Harrowing of Hell. Bibliothèque nationale de France, detail of f.370r. Augustine, De Civitate Dei. 1370.1380.

The Harrowing of Hell. Bibliothèque nationale de France, detail of f.370r. Augustine, De Civitate Dei. 1370.1380.

Na descida ao inferno, Cristo vence o diabo, as trevas e a morte. Vence a morte pela sua ressurreição e pela ressurreição dos santos: ”Os sepulcros se abriram, e os corpos de muitos santos que tinham morrido foram ressuscitados” (Evangelho de São Mateus, 27: 52). Na Igreja de São Martinho de Artaíz, está esculpido o triunfo de Cristo sobre a morte, tal como rezam as escrituras. Não registei nenhuma imagem equivalente. Presume-se que existem, mas raras. É preciso desencantá-las. Muito tenho escrito sobre o triunfo da morte. É compensador escrever, nem que seja por uma vez, sobre o triunfo sobre a morte.

10. Harrowing of Hell. England, c 1240.

Harrowing of Hell. England, c 1240.

Termina mais uma travessia. Saltou-se do híbrido de duas faces dos Dvein (pormenor) para o “Janus” da Igreja de São Martinho de Artaíz (pormenor); observaram-se as esculturas da igreja (panorama) retendo a cena com a descida de Cristo ao inferno (pormenor); para comparação com imagens congéneres, alargou-se o olhar à Internet (panorama). O olhar vadio entrega-se à deriva de movimentos e à alternância de planos, ora micro, o pormenor, ora macro, o panorama. Pelo caminho acontece a aprendizagem e a descoberta. Neste mundo, é preciso invocar alguém para ser alguma coisa. Uma vela pelo Paul S. Feyerabend (Against Method: Outline of an Anarchistic Theory of Knowledge.1975)!

Galeria de imagens: a descida de Cristo ao inferno.

O gosto de gostar

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É mais gostoso gostar do que ser gostado. Afeiçoei-me com o tempo a esta ideia. Não deixa de ser uma paráfrase de um pensamento de Jesus Cristo: “Há maior felicidade em dar do que em receber” (Atos dos Apóstolos 20:35).

Na Segunda Epístola aos Coríntios (9:6), Jesus Cristo lembra: “Aquele que semeia pouco também colherá pouco, e aquele que semear com fartura também colherá fartamente”. Insinua-se, agora, a ideia de investimento: semear para colher. Uma dádiva interessada. Ao contrário do primeiro pensamento, este último poderia constar do livro O Caminho da Riqueza, de Benjamin Franklin (1757). Os homens movem-se pelo interesse, incluindo os estúpidos.

Marca: John Lewis. Título: The Journey. Agência: Adam & Eve DDB (London). Direcção: Dougal Wilson. Reino Unido, 2012.

Sociologia sem palavras 20. Religião e Infância

Marcelino EspanholLadislao Vajda (1906-1965), realizador húngaro, dirigiu filmes em Portugal (por exemplo, “O Diabo são elas”, 1945, e “Três espelhos”, 1947) e em Espanha, onde filmou “Marcelino Pan y Vino” (1955), um dos seus maiores sucessos, ao nível do público e da crítica. Marcelino, abandonado ainda bebé pela mãe, é criado num mosteiro. Neste excerto, Marcelino escapa à vigilância dos frades para se dirigir a uma arrecadação no sótão onde se encontra uma imagem de Cristo crucificado.

Ladislao Vajda. Marcelino Pan y Vino. 1955. Excerto.

A Fuga dos Demónios

01 Cristo exorciza um jovem possuído por um demónio. Très Riches Heures du Duc de Berry, Séc. XV.

01 Cristo exorciza um jovem possuído por um demónio. Très Riches Heures du Duc de Berry, Séc. XV.

Há uns anos, fiz uma comunicação sobre São Bento, no Mosteiro de Tibães. Djævleuddrivelse.Sublinhei que São Bento era exigente: por um lado, as promessas, como se sabe, são para cumprir, por outro lado, tem fama de expulsar os demónios à paulada e à chapada. As pessoas ouviram, e deram-me um desconto.
No imaginário medieval, os demónios eram expulsos pela boca. Pareciam morcegos ou répteis voadores envoltos em fumo.

02 Julgamento de uma bruxa. 1598.

02 Julgamento de uma bruxa. 1598.

03 Jesus expulsa um demónio de um homem mudo. (De T. Troels Lund. A vida quotidiana na região nórdica VI, p 30).

03 Jesus expulsa um demónio de um homem mudo. (De T. Troels Lund. A vida quotidiana na região nórdica VI, p 30).

Entre os santos exorcistas, dois sobressaem: São Bento e São Francisco. São Bento não era meigo com os endemoninhados. Arreava-lhes umas bofetadas (figura 4) e umas pauladas (figuras 5 e 6).

04 Sébastien Leclerc. São Bento cura com uma bofetada um religioso possuído pelo demónio., 1637-1714

04 Sébastien Leclerc. São Bento cura com uma bofetada um religioso possuído pelo demónio., 1637-1714

05  Spinello Aretino, O Santo Liberta um monge possuído.  Sacristia da Basílica San Miniato al Monte. Florença.  1387

05 Spinello Aretino, São Bento liberta um monge possuído. Sacristia da Basílica San Miniato al Monte. Florença. 1387

06 Spinello Aretino, O Santo Liberta um monge possuído. Pormenor.

06 Spinello Aretino. São Bento Liberta um monge possuído. Pormenor.

Mil anos depois, São Francisco retoma o exorcismo colectivo característico de São Bartolomeu. Cidade onde este santo entrasse, não demorava demónio (figura 8).

07 Giotto Arezzo.  Lenda de São Francisco. Exorcismo dos Demónios em Arezzo Entre 1297 e 1299

07 Giotto Arezzo. Lenda de São Francisco. Exorcismo dos Demónios em Arezzo. Entre 1297 e 1299.

Não é só o demónio que sai pela boca, a alma também. No último sopro, a alma liberta-se do corpo. Incapazes de captar o momento da morte, muitos pintores optaram por figurar a alma a despedir-se do corpo. Engendraram diversas soluções: na figura 9, a alma transita sob a forma de uma criança que é acolhida por um anjo.

08 The Angel of Death, taking the soul, in the form of a child, from a dying man. From Reiter's Mortilogus, printed by Oegelin and Nadler, Augsburg, 1508.

08 The Angel of Death, taking the soul, in the form of a child, from a dying man. From Reiter’s Mortilogus, printed by Oegelin and Nadler, Augsburg, 1508.

Pela boca quase tudo entra e pela boca nunca se sabe o que pode sair. Alguma razão tinha François Rabelais ao sugerir que a boca é a parte mais cósmica do corpo humano. A este propósito, ouvi falar de um país que alberga demónios tão graúdos que não há boca nem orifício por onde consigam passar. Só de cesariana.

Três faces e um pescoço

Para além do Cristo da Trindade (https://tendimag.com/2014/04/10/as-tres-faces-de-cristo/), cabeças com três faces aparecem em máscaras pré-colombianas, mexicanas, africanas, venezianas e orientais, em esculturas de shiva e na arte contemporânea. Há quem represente o tempo com três faces: o passado, o presente e o futuro (ver galeria). Esta pequena digressão à volta do mundo serve para encalhar na capa do primeiro cd dos Goldfrapp: dois rostos femininos laterais simétricos; na parte frontal, o capricho dos cabelos esboça a carranca de um monstro. É difícil escolher uma música do álbum Felt Mountain (2000). Segue a faixa Utopia, com a capa.

Goldfrapp. Utopia. Felt Mountain. 2000

As Três Faces de Cristo

Produzi, há tempos, um protodocumentário intitulado As Duas Faces, Imagens de Cristo (https://tendimag.com/2011/12/11/as-duas-faces-imagens-de-cristo-2/). Hoje, não vão ser duas mas três as faces de Cristo.

Antonio di Atri. Trinidade com três faces. Ca. 1400

Antonio di Atri. Trinidade com três faces. Ca. 1400

Para representar a Trindade, alguns artistas retratam Cristo com três faces: uma frontal e duas laterais. A imagem mais antiga que conheço remonta a cerca de 1410: o fresco Trinità con tre volti, no Duomo de Atri (Itália) assinado por Antonio Martini de Atri.

Impressionante é também o Cristo Com Três Faces. A Trindade, da Escola Holandesa, pintado cerca de 1500.

Christ with Three Faces. The Trinity.1500, Netherlandish School. Complete

Cristo com Três Faces. A Trindade. 1500. Escola Holandesa.

Cristo com Três Faces. A Trindade. Ca. 1500. Escola Holandesa.

Cristo com Três Faces. A Trindade. Ca. 1500. Escola Holandesa.

Resulta estranho o quadro Trinity Jesus (cerca de 1610) exposto em Schloss Hellbrunn, num castelo do séc. XVII situado em Salzburg. Um Cristo com três caras e quatro olhos, nem mais, nem menos!

Jesus como Trindade. Museum of Folk Life and Folk Art, Schloss Hellbrunn. Ca. 1610.

Jesus como Trindade. Museum of Folk Life and Folk Art. Schloss Hellbrunn. Ca. 1610.

Esta representação da Trindade é bastante rara. A Igreja optou por outras soluções. Nem toda a Igreja tolerou sempre esta imagem de Cristo com três faces, com particular incidência no cristianismo colonial, da América Latina.

Trindade Trifacial. 1750-1770. Museo de  Arte de Lima

Trindade Trifacial. 1750-1770. Museo de Arte de Lima

À semelhança do que aconteceu com o nu durante a Reforma e a Contra-reforma, algumas imagens do Cristo com três faces foram retocadas e outras destruídas (ver https://tendimag.com/2012/11/13/vestir-os-nus/). Pintaram-se, por exemplo, cabelos sobre as faces laterais. O Cristo que domina a pintura Símbolo de la Trinidad (Ca. 1685), de Gregorio Vásquez de Arce y Ceballos, exposta no Museo Colonial de Bogotá,  foi retocado de modo a encobrir as duas faces laterais. A imagem original, trifacial, só recentemente foi redescoberta, sendo restaurada em 1980.

Gregorio Vásquez de Arce y Ceballos. Símbolo de la Trinidad. Museo Colonial de Bogotá. Ca. 1685.

Gregorio Vásquez de Arce y Ceballos. Símbolo de la Trinidad. Museo Colonial de Bogotá. Ca. 1685.