Cristo estrábico

Continuo perdido na procissão de imagens de Cristo que me tira do meu conforto. Uma autêntica peregrinação que me desvia para os lugares mais desencontrados. Por exemplo, o Brasil, menos pelo Cristo Redentor do Corcovado (figura 2) e mais pelo Cristo zarolho do Santuário do Bom Jesus de Matosinhos, em Congonhas do Campo, esculpido por António Francisco Lisboa (1738-1814), o Aleijadinho (figura 1).

Trata-se de uma imagem particularmente notável e singular, porque comporta um misto de dois tipos de temas de Cristo: O Cristo Triunfante (Christus Triunfans) e o Cristo resignado (Chistus Patiens). O seu olho esquerdo fita em frente, fixo no infinito, ao jeito do Cristo triunfante, enquanto que o olho direito olha mais para baixo, tendendo a perder-se no solo, ao jeito das primeiras versões do Cristo resignado. Sobre esta combinação, e sobre o olhar de Cristo em geral, recomento o excelente artigo de Alexandre Ragazzi: “De olhos abertos, de olhos fechados: passado e presente da iconografia do Cristo crucificado”. MODOS. Revista de História da Arte. Campinas, v.4, n.2, p. 144-161, mai. 2020. Disponível em: https://www.publionline.iar.unicamp.br/index.php/mod/article/view/4324).

Asseveram-se raras as figuras ambivalentes de Cristo. Encontra-se uma polivalente em Portugal, no Museu Grão Vasco, em Viseu: um cristo articulado, datado de meados do séc. XII até ao 1.º quartel do séc. XIII (ver figura 3). “Esta escultura de madeira em tamanho natural (…) tem a particularidade de ser articulada no pescoço, braços – ombros, cotovelos e pulsos –, joelhos, quadril esquerdo e dois pés (…) Com esta configuração, a escultura pode ser adaptada tanto a uma configuração estática de um Cristo na Cruz , com os braços e pernas esticados, quanto a cabeça levantada e voltada para a frente ; e da Deposição da Cruz , bem como a Deposição na Tumba,outras iconografias igualmente poderosas no mobiliário litúrgico das igrejas da Península Ibérica, Itália, França e Alemanha, desde o século X, com especial incidência nos séculos XII e XIII, prosseguidas pelos séculos seguintes, até à Contra-Reforma em algumas regiões” (Carla Varela Fernandes: PATHOS – os corpos de Cristo na Cruz. Retórica do Sofrimento na Escultura em Madeira Encontrada em Portugal, Séculos XII-XIV. Alguns exemplos. Revista RIHA 0078 | 28 de novembro de 2013. Disponível em: https://journals.ub.uni-heidelberg.de/index.php/rihajournal/article/view/69842/67265).
Seria muita distração visitar as imagens de Cristo no Brasil e não recordar a canção Jesus Cristo, do Roberto Carlos, editada em 1970.
Desporto redentor
Caro Eduardo!
“A religião na publicidade” é um tema promissor. Desafia-nos a saber o que aprendemos. Sem âncoras, navegamos de revelação em revelação. Aspiramos à salvação e guiamo-nos pela fé. A publicidade promove revelação e salvação pela fé. No anúncio brasileiro Sport unites all, da XXL, cintila a chama da religião? O “chamamento”? Repito-me, mas não desgosto da repetição. Se tudo pode ser dito, pouco merece ser repetido.
Este anúncio abre num registo diabólico (de discórdia). Somos confrontados com uma provação (a carteira), um possível eleito (o menino) e uma separação (o menino, a polícia e o motociclista). No momento da epifania, Ronaldinho, motociclista e dono da carteira, dá-se a ver, revela-se. O ritmo do filme abranda e os rostos iluminam-se. A postura de Ronaldinho Gaúcho, de braços abertos, replica a imagem inicial do Cristo Rei. Não há acaso na boa publicidade. Ronaldinho aparece como salvador e unificador. O novo registo simbólico (de união) culmina com a celebração de um golo de futebol, comunhão de vencedores, na glória, e vencidos, no purgatório.
O anúncio não é nada disto. Mas os anúncios valem cada vez mais por aquilo que não são.
Como vês, há leituras sem sombra de proveito. Um abraço.
P.S. É possível que na publicidade seja menos importante o que lá está do que o que lá se encontra. Gosto do português!
Marca: XXL All Sports United. Título: Sport unites all. Direcção: Mans Marlind & Stein Bjorn. Brasil, Julho de 2016.
Pequenos nadas
A carta inconclusiva
Que pena tenho eu de ti,
Por não assistires,
Ao que eu assisti!
Uma pena de pavão,
Voava de mão em mão.
Era de um recluso que cumpria
Uma pena de prisão!
Apesar de inocente,
A pena tinha de ser cumprida.
Escrevia à sua amada,
A melhor carta da sua vida!
Faltava escrever o último dizer,
Mas o tinteiro, tinta não tinha e…
Dinheiro não havia para o tinteiro
Satisfazer…
(Cândida Passos, ilustração de Celeste Semanas, A carta inconclusiva! (excerto), Poetizar as Efemérides, Braga, 2015).
Por causa de um tinteiro, entornam-se vidas. “Pour un rien du tout”. “A vida é feita de pequenos nadas” (Sérgio Godinho: https://www.youtube.com/watch?v=YP9Rc3KIz9g). As grandes obras, como as grandes estátuas, dependem, por vezes, de insignificâncias. Pelo menos, é o que insinuam estes anúncios.
Uma pastilha elástica Hollywood causa semelhante efeito à Estátua da Liberdade (serão calores) que ela não hesita em descobrir-se e dar um mergulho no rio Hudson. No caso do Cristo Redentor, a situação é distinta. No interior, mora um homem incumbido de manter o monumento limpo, graças a um pano de cozinha e CIF.
Marca: Hollywood, Título: Statue of liberty. Agência: BETC euro RSCG. Direcção: Les Frères Poiraud. França, 1999.
Marca: CIF. Título: Christ the Redeemer. Agência: Borghi / Lowed (São Paulo). Brasil, 2014.


