Oremos

“O PÚBLICO sabe que a excepção de manter as escolas abertas, caso o Governo avance para um novo confinamento geral, se deve a dois factores: a importância do ensino presencial no processo de aprendizagem; e a conclusão de que os alunos obedecem melhor às regras sanitárias e estão mais protegidos de contaminações dentro das escolas – uma certeza que é fundamentada com a baixa incidência de casos de covid-19 nos estabelecimentos de ensino” (https://www.publico.pt/2021/01/08/politica/noticia/regresso-confinamento-geral-mantera-escolas-abertas-1945463).
Alguém pode dizer a este ignorante qual é a “incidência de casos de covid-19 nos estabelecimentos de ensino” em Portugal? Tantos por 100 000… Presumo que existe quem saiba. Dispenso os pormenores da polémica da escolha do procurador europeu nacional na Procuradoria da União Europeia. Receio nunca me encontrar com esse senhor. O mesmo não garanto em relação à Covid-19. Informem-me, por favor, sobre importâncias importantes. Dispenso os intermináveis tangos palacianos. Sejam políticos, que ser político é missão nobre!
Apraz-me saber que os “alunos (…) estão mais protegidos de contaminações dentro das escolas”. Mais protegidos do que na Irlanda, na Alemanha ou na Holanda, que fecham as escolas, embora alcancem incidências de infetados próximas de Portugal: respetivamente, 455,6; 319; 757,9; e 517 por 100 000 habitantes (https://www.ecdc.europa.eu/en/covid-19/country-overviews). Serão as escolas portuguesas especialmente protetoras? Será a sociedade portuguesa mais mórbida, mais ameaçadora? Talvez seja um milagre. Oremos.

Nove meses

O José Neves enviou-me o anúncio 9 meses, da Volkswagen. Interpretar é jogar o jogo. Um coro trágico recita notícias pandémicas. Um automóvel segue o seu destino. O coro silencia-se e o automóvel estaciona junto a um hospital. Sai um casal. O homem ajuda a mulher grávida. O ambiente ambarino, “o âmbar de um tempo humano e divino” (https://tendimag.com/2017/06/28/despasmar-o-prazer/), é complementado pela tranquilidade do azul celeste. Apesar das ameaças, o Volkswagen transporta, seguro e sereno, a vida. O anúncio é marcado pelo sentido de oportunidade: nove meses de gravidez, nove meses de pandemia. Recorre a dualidades clássicas: a morte e a vida: a ameaça e a proteção. Não obstante o momento trágico, o anúncio emana esperança: “apesar de todo, la luz siempre encontra el caminho”.
A pandemia como comunicação

No início da pandemia, o discurso político e a comunicação social quiseram-se parcimoniosos. Hoje, a situação é distinta. A informação manifesta-se inesgotável, redundante e, por vezes, delirante. Para além de contexto, a pandemia tornou-se pretexto para outros fins. No anúncio Kerstcadeau, da holandesa Kruidvat, uma criança incentiva o “Pai Natal” a utilizar máscara; por seu turno, o anúncio Covidman, da tailandesa Thai Health Promotion Foundation, alerta que a obsessão com a Covid-19 pode ofuscar a consciência de outros riscos, tais como os acidentes rodoviários.
Ontem, fui submetido a uma cirurgia. Habitualmente, não vejo televisão. Mas, agora, proporciona-se. Pasmo com tamanha sobre-excitação! A diversidade de assuntos foi de férias e não se sabe quando regressa. Neste momento, bastam dois: a violência no aeroporto e a pandemia. Quem comece de manhã e acabe à noite, fica a saber o mesmo, mais do mesmo. Tudo comentado até à náusea. Por especialistas de tudo e por especialistas de nada, mais os testemunhos que dizem o que já se sabe e os jornalistas que registam e veiculam o que também já se sabe. Estou com vontade de sair da convalescença.
A nova normalidade

Aprecio o estilo de comunicação da Fundação Tailandesa para a Promoção da Saúde (Thai Health Promotion Foundation). Uma pedagogia franca, impactante e grotesca, adversa aos comportamentos de risco, estúpidos e perigosos, contrários à “nova normalidade”.
A propósito do Covid-19, foi publicado, no dia 27 de novembro, o primeiro volume, Reflexões, da obra coletiva A Universidade do Minho em tempos de pandemia, editada por Manuela Martins e Eloy Rodrigues (pdf acessível no seguinte endereço: https://doi.org/10.21814/uminho.ed.23). Participo com um pequeno texto (“COVID-19: o mensageiro da nova morte”, acessível em: https://doi.org/10.21814/uminho.ed.23.5).
Surtos

“O Secretário Adjunto de Estado e da Saúde, António Lacerda Sales, anunciou na habitual conferência de imprensa para dar conta da evolução da pandemia, que estão identificados 477 surtos em escolas em todo o país, mas este número reflete a situação em todo o território. Um comunicado do Ministério da Saúde indica que nos estabelecimentos de ensino se registavam 68 surtos a 16 de novembro
Portugal tem 68 surtos ativos de infeção em escolas pelo novo coronavírus, de acordo com um comunicado emitido pelo Ministério da Saúde e que corrige a informação prestada esta sexta-feira pelo secretário de Estado da Saúde, que indicou haver 477 surtos ativos em estabelecimentos de ensino quando este número se refere ao total que se verifica no país.
“Os surtos identificados” a 16 de novembro, esclarece a nota do Ministério, “distribuem-se da seguinte forma: 3 na ARS Norte, 11 na ARS Centro, 50 na ARS LVT, 2 na ARS Alentejo e 2 na ARS Algarve, no total de 68 em todo o Continente”” (https://expresso.pt/sociedade/2020-11-20-Covid-19.-Ministerio-corrige-o-secretario-de-Estado-da-Saude-ha-68-surtos-de-infecao-ativos-em-escolas).
Falta ou descoordenação da informação? Divergência de critérios? Ou desaparecimento fugaz de mais de quatrocentos surtos?
Saber, através do Ministério da Saúde, que existem 68 surtos de infeção nas escolas ou saber pela FENPROF, que existiam, a 11 de Novembro, 695 estabelecimentos de ensino com casos de Covid-19 pouco me elucida. O caso mudaria de figura se fossem as escolas as infetadas em vez dos alunos, dos professores ou dos auxiliares. Não se trata, porém, de reparar telhados mas de proteger vidas humanas.
Tropecei, imprudentemente, na palavra “surto”. A partir de que quantitativo começa um surto? Recorri ao glossário do Plano Nacional de Preparação e Resposta à Doença por novocoronavírus (COVID-19), de 2020:
“Surto – Ocorrência de um número de casos de uma doença, superior ao que seria considerado expectável, numa determinada população durante um período de tempo bem definido” (https://covid19.min-saude.pt/wp-content/uploads/2020/03/Plano-de-Conting%C3%AAncia-Novo-Coronavirus_Covid-19.pdf).
Estou esclarecido! Quando contam 68 surtos não sei o alcance. O que gostaria de saber era uma estatística simples e escorreita. Quantos alunos foram infetados com a Covid-19 desde o início das aulas até à presente data? Qual é a curva da evolução das infeções? Qual é a percentagem na respetiva população? E os professores? E os auxiliares?Trata-se de vidas humanas, independentemente de qualquer agregação.
Assim embalados, estes números suscitam suspeitas. Mas estou convicto de que não existe motivo para suspeição. Apenas opções estatísticas! . Aguardava, há uns dias, publicação oficial sobre a Covid-19 nas escolas. Essa informação acabou por ser facultada. Fiquei a saber um pouco mais que nada.
Sem máscara

No meu tempo de criança, os livros eram raros. Circulavam de casa em casa. Os crimes do Máscara Negra era um livro, em vários volumes, de grande sucesso (Richmont, Oscar. 1926. Lisboa: Typ. Henrique Torres). Trazia a aldeia aterrorizada. Era costume ler-se pela noite dentro. Uma amiga da família vivia numa casa em que as escadas do interior tinham um alçapão entre o primeiro e o segundo piso. A leitura dos crimes do Máscara Negra assustou-a de tal modo que, em fuga, deu com a cabeça no alçapão.
O anúncio norte-americano You’re Freaking us out, da One Medical, é uma paródia dos filmes de terror. A ameaça não é, agora, o Máscara Negra mas a Desmascarada.
Cuvídeo

Não estranhe! Pode-se ter razão por linhas travessas. Quantas campanhas não mobilizaram a retaguarda! Contra a Covid, o Cuvídeo. Dê prazer ao rabo. Sente-se no sofá, e salve o próximo. O Channel 4, uma rede de televisão britânica vocacionada para a utilidade pública, apelava, em Abril de 2020, a uma nova modalidade voluntária de confinamento. O grotesco e o sério de mãos dadas.
This is an important public safety announcement, for your arse. If you have buttocks, put them on the sofa. The longer they stay there, the quicker we’ll get through this (Channel 4).


