Anúncio português vintage 4. Quanto mais cópias, menos originais
Folha a folha, apaga-se a floresta. O anúncio “Cópias”, do Observatório do Ambiente, não precisa nem mais tempo, nem mais imagens. “Quanto mais cópias, menos originais. Não desperdice papel”. Neste aspeto, bem-vindo o digital. [Carregar na imagem para aceder ao vídeo]

A cópia, a série e a ovelha negra
Eu me contradigo? Pois muito bem, eu me contradigo. Sou amplo, contenho multidões (Walt Whitman).
Eu me duplico? Pois muito bem, eu me duplico. Sou amplo, contenho massas. A reflexividade não é pós-moderna. Mas tanta reflexividade, quem sabe? “Eu é um outro” (Arthur Rimbaud). Numa galeria de espelhos, eu sou vários outros iguais a mim. Um desfile de cópias como no Golconda de René Magritte. Mas ressalve-se: ainda existem ovelhas negras. O vídeo de Vladimir Cauchemar não as esquece.
Vladimir Cauchemar. Aulos. Direcção: Alice Kunisue. Ed Banger records. 2017.
O milagre da multiplicação dos manuscritos
Só um anúncio como este Brother Dominic, da Xerox, consegue interromper um trabalho que me traz absorto. Aprende-se que um bom desempenho pode ser uma maldição. Pedem mais, pedem o impossível. Pobre irmão Dominic! O que vale é que Deus criou, entretanto, a fotocopiadora, de preferência Xerox. Entre o irmão Dominic e a Xerox, não há lugar para Gutenberg, o ourives. O manuscrito, o mosteiro, a sobrecarga e a globalização, tudo boas escolhas. As intertextualidade, também.O anúncio retoma um clássico da Xerox dos anos setenta. Em boa hora. Seguem o anúncio actual e o primitivo.
Marca: Xerox. Título: Brother Dominic. Agência: Y&R (New York). Direcção: James Rouse. Estados Unidos, Janeiro 2017.
Marca: Xerox. Título: Monk. Agência: Harper & Steers. Estados Unidos, 1977.
A Cruz de Ferro
Em tempos de clouds e megabases, existem cópias de filmes que se perdem irreparavelmente. Há cerca de dois anos, a Câmara Municipal de Melgaço pretendeu projetar o filme A Cruz de Ferro (1968). Realizado por Jorge Brum do Canto, o filme foi rodado e estreado em Castro Laboreiro. A ideia era replicar a estreia: no mesmo local, com lençóis a servir de ecrã… Infelizmente, não se encontrou uma única cópia utilizável. Nem sequer na Cinemateca. O filme A Cruz de Ferro é mais um pássaro Dodo!
[Post scriptum: encontrou-se, entretanto, uma cópia em bom estado. Ver: https://www.youtube.com/watch?v=28HstNqSgb8].
O vídeo Film is Fragile, do British Film Institute, aborda, precisamente, a necessidade urgente de preservar as cópias dos filmes. O resultado condiz com a reputação da produtora The Mill.
Anunciante: British Film Institut. Título: Film is Fragile. Produção: The Mill. Reino Unido, Outubro de 2015.
O triunfo das salsichas
“Vê-se que a história é uma galeria de quadros com poucas obras originais e muitas cópias” (Alexis de Tocqueville, O Antigo Regime e a Revolução. 1856)
As salsichas, se não estão a caminho de Hollywood, vingam, pelo menos, em Cannes. Moles e flexíveis, de animais marinhos a fãs de raves, as salsichas têm mil rostos.
Deparar com anúncios publicitários parecidos é uma surpresa corrente. No anúncio, surrealista, da BestDay (Sausage, 2015), uma salsicha gigante encalhada na praia é resgatada por um grupo de pessoas. Algumas sequências lembram, porém, o anúncio português Whale (Optimus, 2004): http://tendimag.com/2012/01/03/a-tribo-da-baleia/.
Marca: BestDay.com. Título: Sausage. Agência: McCann Mexico. Direcção: Gonzalo Oliveró. México, Junho 2015.
Os anúncios La Saucisse (Orangina, 2000) e Rave Party (Vizzavi, início dos anos 2000) parecem sósias. Os anúncios publicitários adoptam, assim, a citação sem aspas. De qualquer modo, um anúncio (Rave Party) que convoca a voz e a música dos filmes de Jacques Tati aproxima-se de uma citação que frisa a originalidade eterna.
Marca: Orangina. Título: La Saucisse. Direcção: Alain Lambert. França, 2000.
Marca: Vizzavi. Título: Rave Party. Produção: Wanda. Direcção: Pierre Coffin. França, início dos anos 2000.
Ideias quase tuas
Gosto de ideias. De vadios e vadias. Não gosto que as atrelem a um poste de vaidade. Não me interessam as ideias de trazer ao peito. Engomadas. As ideias gostam de se amachucar. Não gosto de ideias sólidas. Prefiro vê-las esguias, a fintar catálogos, formulários, protocolos, dicionários e citações. Gosto de ideias que dançam com o erro na corda bamba. Gosto de ideias que valem mais que o dono. Gosto das minhas ideias, sobretudo quando são quase tuas. Não gosto de ideias roubadas. Quem rouba ideias não as tem.
Este anúncio argentino estreia amanhã. Podes vê-lo hoje.
Marca: TEDxRíodelaPlata. Título: Ideas quasi tuyas. Agência: Ponce. Direção: Rosca. Argentina, Setembro 2014.




