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O nariz de Cleópatra: o presente no passado

Não fosse a Dra. Aida Mata convidar-me para uma comunicação sobre a memória num encontro no Mosteiro de Tibães, este texto nunca teria sido escrito. Pouco se perdia!

Não vou falar do que me ensinaram, mas do que aprendi com a experiência. Na verdade, vou contar histórias.

Há trinta anos, costumava, durante as férias, entrevistar pessoas de idade. Tive, por exemplo, o prazer de entrevistar o tio M. Tinha, então, 99 anos e a mulher, 101. Contou um episódio da sua juventude: a organização da procissão do Enterro do Senhor. Uma canseira! Andou tanto a cavalo (estamos no início do século XX) que ganhou feridas no rabo. A procissão sai, com o caixão, de uma capela particular, circunda o cruzeiro e entra no largo com entroncamento para a igreja, onde aguarda uma multidão. Ouve-se um estrondo. O caixão abre e o pregador assoma aos gritos: “Que fizeste, levitas? Mataste o vosso irmão…”

No ano seguinte, domingo de Páscoa, passo pela casa do tio M. O ambiente é de consternação. O tio M. está prostrado com os olhos postos no teto. Sem reconsiderar, sento-me na cama, pego-lhe na mão e segredo-lhe ao ouvido: “Tio M., lembra-se da procissão do Enterro do Senhor?” O tio M. ergue-se, encosta-se à cabeceira e recita, em voz alta, o sermão da procissão do Enterro do Senhor. Qual não foi o espanto geral! Despedi-me sem demoras.

O poder da memória é incomensurável. Individual ou colectiva, a memória é uma potência mobilizadora no presente. É no presente que vive e surte efeito. E alastra-se ao futuro. « O futuro pertence àquele que tem a memória mais longa » (atribuído a Friedrich Nietzsche).

Tenho uma predilecção pelas entrevistas de grupo. Conversar com velhotes, num pátio com ramada, sentados à volta de uma mesa imaginária, gratifica o sociólogo. As entrevistas individuais tendem a ser mais axiais e mais pré-construídas. A vida desfia-se numa “ilusão biográfica” (Bourdieu Pierre. L’illusion biographique. In: Actes de la recherche en sciences sociales. Vol. 62-63, juin 1986). Importa que a palavra saia dos eixos da cristalização identitária. Isto é difícil de explicar, mas fácil de entender para quem recolhe relatos de vida. As entrevistas de grupo conjugam concentração e descentramento. Atardam-se em ambientes, processos, redes e interacções, numa espécie de deambulação de memórias e afectos. As entrevistas de grupo proporcionam, nos momentos felizes, uma “deslocação” no espaço e no tempo. Memória puxa memória, desejo acende desejo, gesto convida gesto, e eis o advento da alquimia: com o corpo no presente, mergulha-se no passado. Um retorno aberto, vivido e partilhado.

Miguel Torga descreve o fenómeno:

“Estávamos em Paris, o criado que nos servia falava francês, na ementa não figurava bacalhau, e o vinho era um Bordeaux qualquer. Mas nenhuma destas razões impediram que se realizasse o milagre que o nosso anfitrião certamente esperava. Depois das primeiras garfadas, a conversa tomou tal rumo e tal calor, que daí a nada tudo se passava como se o restaurante fosse uma tasca da Alta e vivêssemos nela uma hora coimbrã. Insensivelmente, todos se deixaram arrastar pela onda saudosista. O próprio Navarro, o mais relutante à tentação, acabou por não lhe resistir, a contar também, a evocar, a meter carvão na fornalha. Os episódios sucediam-se, cada qual o mais pitoresco ou irreverente, as guitarras gemiam, os rouxinóis cantavam, o luar radiografava o Choupal” (TORGA, Miguel, A Criação do Mundo, Coimbra, 1991, p. 296).

Viver o presente no passado é experienciar o passado como se fosse presente. Mas este “milagre” não acontece por geração espontânea. Requer, além da “cumplicidade dos astros”, arte, saber e jeito.

O entrevistador pergunta: “E das modas, gostavam das modas?”

Por entre palavras, imagens e emoções, a tia B recorda uns sapatos que levou ao baile junto à capela dos Bouços. Eram tão bonitos! E os seus 86 anos envaidecem-se. Os outros dois velhotes pegam ao palio: “Eram mesmo bonitos! ”. Atingir este nível de pormenor e insignificância é bom sinal, é sinal que a entrevista não desmerece. Quando a conversa envereda por este rumo, conquistamos o acesso ao presente do passado. Mas a técnica não é fácil. Perguntar se gostavam das modas não é o mesmo que perguntar como eram as modas. São chaves distintas: a primeira convoca um relator e a segunda, um actor. Por seu turno, a palavra “modas”, em vez de “danças”, remete empaticamente para o passado, para aquele passado. A aproximação das línguas, mesmo que utópica, é um aconchego para a comunicação. A dança da memória tem muitos passos e improvisos.

Há cerca de dez anos, participei na criação do Espaço Memória e Fronteira (inaugurado em 2007), em Melgaço. O senhor L foi “lugar-tenente” de um dos maiores contrabandistas da região. Granjeava a reputação de não ter igual a atravessar o rio Minho numa batela (embarcação típica). Numa das nossas conversas, propôs-se fazer uma reconstituição da passagem de contrabando no rio Minho. Tinha cerca de 80 anos!

  1. Aproximou a batela da margem do rio (fotografia 1);
  2. Cortou ramos de árvores para os colocar na batela (fotografia 2);
  3. Retirou a água que estava no interior da batela;
  4. Colocou a carga na batela (fotografia 2);
  5. Acena em direcção à outra margem (fotografia 3);
  6. Atravessa o rio (fotografias 4 e 5).

Travessia de contrabando no rio Minho. Reconstituição.

Não é apenas nos casos de polícia que a reconstituição propicia informação relevante. Desconhecíamos o recurso aos ramos de árvore para protecção da carga. Tão pouco sabíamos dos acenos para a outra margem. “A experiência he madre das cousas” (Duarte Pacheco Pereira, Esmeraldo de Situ Orbis, 1506). Antes da passagem do contrabando, um “batedor” insinuava-se na outra margem para vigiar os passos da Guarda Civil. Cumpria-lhe assinalar se a passagem era segura.

A reconstituição foi um momento de aprendizagem. A batela descansa, agora, no Espaço Memória e Fronteira, junto a uma fotografia com a travessia do rio Minho. Os ramos na batela constituem uma curiosidade inesperada para os visitantes.

Espaço Memória e Fronteira

Espaço Memória e Fronteiro. Melgaço.

A nossa relação com o passado é problemática e polémica. “Se o nariz de Cleópatra tivesse sido mais curto, toda a face da terra teria mudado” (Blaise Pascal, Pensamentos, 1670). Em poucas palavras, Pascal toca na ferida da contingência histórica. Na mesma linha, Ernst Bloch (Thomas Müntzer, Teólogo da Revolução, 1921) alerta: se é verdade que a história está cheia de impossíveis realizados, não está menos cheia de possíveis não realizados. Contemplar o presente no passado é captar a história enquanto se faz. No início dos anos sessenta, Portugal envolveu-se na Guerra do Ultramar, mas, na altura, existiam alternativas. Bastava ceder às pressões internacionais. Como seria, hoje, Portugal sem a “herança” da Guerra Colonial?

Nós insistimos em descarnar o passado, extraindo-lhe a incerteza do momento presente. Para muitos, a história é uma extensa peregrinação rumo à contemporaneidade. Como se a história não fosse trágica. Assim se servem os banquetes e as migalhas do nosso entendimento.

Na Internet, não há sinopse que não sublinhe que o filme O Grande Ditador, de Charles Chaplin (1940) “saiu um ano antes da entrada dos Estados Unidos na Segunda Guerra Mundial (1941)”. Que nos diz este apontamento sobre o filme? Não seria mais ajustado informar que o filme se estreou um ano após o início da Segunda Guerra Mundial? Isto é tique, isto é vício. Vício de ler a história de frente para trás. Incapacidade de ancorar no tempo, de sondar os horizontes do passado.

Compreender o passado é difícil. Compreender-nos a nós próprios, também. Há muitas formas de lidar com o passado: ignorar; dissecar; conservar; restaurar; revitalizar; desvirtuar… Está em voga carnavalização da memória. Proliferam iniciativas que arremedam o passado para gáudio do presente. A todos os níveis, com todos os pretextos e para todos os públicos. Canibalizar, perdão, carnavalizar a memória é timbre do nosso tempo. Uma presentificação festiva.

Para uma sociologia do polvo

A reportagem Sabe porque no Norte do País o polvo é o prato da Consoada, de Ricardo J. Rodrigues (Notícias Magazine. 08-12-2017), é uma espécie de sociologia do polvo, notável pela ideia e pelo modo. Tive o gosto de participar. Para aceder, carregar na imagem.

O polvo ainda é o prato tradicional da noite de Consoada junto à fronteira com a Galiza. Um ato de resistência contra o tempo.. Fotografia de Gonçalo Delgado.

O polvo ainda é o prato tradicional da noite de Consoada junto à fronteira com a Galiza. Um ato de resistência contra o tempo. Fotografia de Gonçalo Delgado.

Trabalhadores do contrabando

victor-coyote-tio-budo

Victor Coyote, Tio Budo. 2014.

Casa de ferreiro, espeto de pau! Só agora, graças ao José Pinto, dos Arcos de Valdevez, e a Valter Alves, responsável pelo blogue Melgaço, entre o Minho e a Serra, me dei conta de que o documentário galego Traballadores do Contrabando está, há mais de um ano, disponível no YouTube. Trata-se de uma obra notável sobre o contrabando nas margens do rio Minho. Tem a assinatura de Victor Aparício Abundancia, responsável pela realização e pelo argumento. Tive o prazer de participar nesta iniciativa. Cabe-me fazer a transição entre as diversas partes do documentário.

Traballadores do contrabando. Realização e argumento: Victor Aparício Abundancia. Produção: Alen Films e Televisión de Galicia. 2006.

Victor Aparício Abundância também é conhecido por Victor Coyote. Figura multifacetada, fundou a banda Los Coyotes, em Madrid, em 1980. Acrescento as canções Estraño Corte de Pelo, lançada em 1982, e Yo, Que Creo en el Diablo, de 2004. Victor Coyote também desenha e escreve. Por exemplo, Cruce de Perras y Otros Relatos de los 80, Visual Books, 2006; ou Tio Budo, Fulgencio Pimentel e hijos, 2014.

Foi um prazer conhecer Victor Coyote. Ainda bem que há mundo.

Los Coyotes. Estraño Corte de Pelo. Estraño Corte de Pelo. 1982.

Victor Coyote. Yo, Que Creo en el Diablo. A Qué Vien Ahora Silbar?. 2004.

Humanidade

O Salto 2

O papel da dor, das decepções e dos pensamentos sombrios não é de nos amargar, de nos fazer perder o nosso valor e a nossa dignidade, mas de nos amadurecer e de nos purificar (Hermann Hesse, Peter Camenzind, 1904).

Tendemos a associar o miserável e o doloroso ao desumano. Não é evidente! A emigração clandestina para França representou uma provação física e moral enorme, o que não impediu gestos de solidariedade e humanidade assinaláveis. Os primeiros tempos em terra alheia foram, frequentemente, marcados pelo desânimo. Nem por isso a humanidade desertou os contentores dos estaleiros (chantiers), os hotéis superlotados ou os bairros da lata (https://tendimag.com/2011/09/07/tina-a-menina-do-bairro-de-lata-de-paris/).

Emigrante a fazer a barba um estaleiro (chantier)

Emigrante a fazer a barba num estaleiro (chantier). Espaço Memória e Fronteira. Melgaço.

É, no entanto, nas ruas da cidade que mais paira a sombra do desencontro e da solidão O emigrante deambula por todo o lado, mas pouco ou nada reconhece; olha para toda a gente, ninguém o vê. Um estranhamento desamparado. Christian de Chalonge filma este sentimento de invisibilidade no filme O Salto (1967).

Uma pausa no trabalho. Diário de um emigrante. Notícia no jornal regional. Painel do Espaço Memória e Fronteira. Melgaço.

Uma pausa no trabalho. Diário de um emigrante. Notícia de jornal regional. Painel do Espaço Memória e Fronteira. Melgaço.

Não se pense, porém, que a dignidade humana prefere os corredores atapetados do poder aos caminhos enlameados do bairro de lata. A humanidade é uma dádiva. Sem dono, nem lugar cativo, não se decreta, nem se negoceia, acontece.

Vale a pena visitar o Espaço Memória e Fronteira, museu da emigração e do contrabando, em Melgaço.

Elas ficam e partem. O papel das mulheres na emigração

As palavras deviam ser como os cigarros
Fumar uma de cada vez

Passadoras de Homens e Outras Aventureiras é uma reportagem de Ana Cristina Pereira (Texto), Adriano Miranda (Fotografia) e Mariana Correia Pinto (Vídeo) sobre o papel das mulheres na emigração dos anos sessenta, editada no Público de 13 de Abril de 2014. Para aceder carregar na imagem ou no seguinte endereço http://www.publico.pt/portugal/noticia/passadoras-de-homens-e-outras-aventureiras-1631504.

Rio Minho, em Melgaço.Parque Nacional da Peneda-Gerês

Mulheres da Raia: O Contrabando no feminino

Mulheres da Raia 2 jpg

Tenho um carinho especial pelo documentário Mulleres da Raia. Revela uma sensibilidade humana e estética rara. Tem sequências que são autênticas pérolas. Por exemplo, quando a mulher da imagem seguinte conta o motivo por que aprendeu a ler. Uma investigação social com câmara de filmar e mulheres de ambos os lados. Tive a honra de apresentar Mulleres da Raia em Monção e Melgaço. Recentemente, moderei uma mesa redonda com quatro mulheres que integram o documentário. Um momento feliz! Recomendo vivamente este documentário. No que me respeita, vou revê-lo com interesse e prazer no dia 9 de Abril, às 19 horas, no Auditório do Instituto de Educação, com a presença da realizadora Diana Gonçalves. Uma iniciativa do curso de mestrado em Comunicação, Arte e Cultura.

Mulleres da Raia - Women from the border. Film still III. Por Diana Gonçalves.

Mulleres da Raia – Women from the border. Film still III. Por Diana Gonçalves.

Margens em trânsito

O processo criativo é um rizoma que se furta ao escalpelo da razão. Em que caravela navega a realidade? Onde pára o cais do sonho? Em que momento a criatura se apodera do criador? Os elementos e os mundos, o sólido e o líquido, a terra e o mar, são margens de contrabando, como em A Pequena Sereia, de Anderson, A Menina e o Mar, de Sophia de Mello Breyner, ou a Silka, de Ilse Losa. A agitação das águas é prenúncio de mergulho, e o mergulho, de “renascer das águas”. Nesta ondulação de estranha luminosidade, vagueiam silhuetas indecisas, ao sabor do orientalismo barroco da música electrónica dos Air. Este vídeo musical, Painted Love, foi produzido exclusivamente para a campanha “How Far Would You Go For Love”, da Cartier.

Cartier / Air. Painted Love by Air. Marcel (Publicis). Waverly. França, 2011.