Tecnocracia e (in)consistência política
No momento preciso em que as notas de dez e vinte euros caíam nas minhas mãos, tive a sensação física de que a tecnocracia de Bruxelas tomava o poder, e que o simples gesto de pegar nessas notas assinava o meu consentimento (Alain-Gérard Slama, Chroniques des peurs ordinaires : Journal de l’année 2002, 2003).
Um último apontamento sobre o “ideal tipo” de tecnocracia, assunto que, por sinal, pouco me entusiasma.

A ação tecnocrata preza, por princípio, o consenso entre os decisores. Importa que os objetivos e os métodos sejam incontroversos. A ausência de consenso interno insinua-se como uma pedra na engrenagem. Por isso os tecnocratas dispensam tanto tempo, energia e recursos em negociações preparatórias de “decisões conjuntas”. Não é descabido conjeturar que a dificuldade em alcançar consensos justifica a dualidade e a inconsistência das políticas tecnocráticas.
Extremam-se, por exemplo, as medidas para salvar o próximo do consumo do tabaco ativo ou passivo. Este empenho esmorece, porém, quando estão em causa outros vícios e dependências, não menos adversos à “saúde” individual e coletiva, tais como a droga, o álcool ou o jogo. É desconcertante este desconcerto!
A mecânica da felicidade
Tudo muda: “todo o mundo é composto de mudança”. Todo o mundo? Não. Por consenso, o automóvel Mitsubishi é uma excepção. Como admite Luís de Camões: “E afora este mudar-se cada dia, / Outra mudança faz de mor espanto / Que não se muda já como soía”. Deve ser esta espantosa estabilidade automóvel, à prova do toque de Midas, a mecânica da felicidade.
Marca: Mitsubishi. Título: Midas. Agência: África. Direção: ALASKA. Brasil, Maio 2014.
Mudam-se os Tempos, Mudam-se as Vontades
Mudam-se os tempos, mudam-se as vontades, d
Muda-se o ser, muda-se a confiança:
Todo o mundo é composto de mudança,
Tomando sempre novas qualidades.
Continuamente vemos novidades,
Diferentes em tudo da esperança:
Do mal ficam as mágoas na lembrança,
E do bem (se algum houve) as saudades.
O tempo cobre o chão de verde manto,
Que já coberto foi de neve fria,
E em mim converte em choro o doce canto.
E afora este mudar-se cada dia,
Outra mudança faz de mor espanto,
Que não se muda já como soía.
Luís Vaz de Camões
Consensualizar
Este anúncio russo proporciona uma lição sobre como ultrapassar rupturas e instaurar consensos. Nada mais simples: aplanar e cimentar diferenças e vontades. Sociedades ajustadas e consensualizadas são fantasmas disfóricos que assombram a ficção científica. Costumam ser terríveis quando se tornam realidade.
Marca: OBI Russia. Título: No job is too big. Agência: BBDO Moscow. Direção: Leo Gabriadze. Rússia, Junho 2013.

