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Maçã electrónica. A publicidade é uma arma

A Apple é um gigante com apetite gigantesco. O que é polémico e gera conflitos. Por exemplo, a “revolta dos 30%” da Epic Games, empresa exímia em lucros, tão chinesa como se fosse chinesa. Em causa está a partilha dos lucros. O anúncio Nineteen Eighty-Fortnite é uma reacção à reacção da Apple: Epic Games has defied the App Store Monopoly. In retaliation, Apple is blocking Fortnite from a billion devices. Visit https://fn.gg/freefortnite and join the fight to stop 2020 from becoming “1984”. Uma paródia de um dos anúncios mais icónicos da Apple: 1984 (ver https://tendimag.com/2017/10/30/o-martelo-da-revolta/). Trata-se de uma boa paródia passível de lograr os efeitos desejados: denegrir e combater a Apple recorrendo aos seus próprios argumentos. A paródia como estilo pode ser hilariante, crítica, popular e, por vezes, criativa. Não costuma ser muito subtil. A publicidade, à semelhança da cantiga de José Mário Branco, é uma arma.

Marca: Epic Games / Fortnite. Título: Nineteen Eighty-Fortnite. Agosto 2020.
José Mário Branco. A cantiga é uma arma. Ao vivo. Paris, 1973. Dir. Dominique Dante.

Violência fraterna

Car one

Tudo espanta os olhos de criança. No anúncio Hermanos, da Car One, uma empresa de carros usados, assiste-se a uma escalada de violência, com ressonâncias bíblicas: “Abel” e “Caim” partilham, para o bem e para o mal, o mesmo quarto. Há quem sustente que o convívio duradouro de seres humanos num espaço exíguo pode gerar mal-estar e violência. Não são os seres humanos animais territoriais que necessitam de uma “muralha de honra” (Émile Durkheim) e de um “espaço vital” (Friedrich Ratzel)? Sem essa “distância pessoal” (Edward T. Hall), os riscos de violência são incalculáveis. Com poucas letras se descreve uma teoria de triste memória.

Peter Paul Rubens. Cain slaying Abel. 1609.

Peter Paul Rubens. Cain slaying Abel. 1609.

Na publicidade, o segmento automóvel consta entre aqueles que mais convocam a violência. A violência, mais as duas primas: a sexualidade e a morte. A violência cativa, “prende”. Parte dos grandes espectáculos da humanidade são espectáculos de violência, a começar pelas execuções públicas e a terminar nos atentados terroristas. As cenas mais hilariantes dos filmes mudos, e não só, são cenas de violência, mormente, gratuita.

Parte da violência quotidiana rola sobre rodas. Ao volante e nos demais assentos viajam vulcões adormecidos de agressividade. Até o pacifista mais ecuménico sente que com o pé no acelerador consegue derrubar a Muralha da China. O automóvel ergue-se, ao mesmo tempo, como uma cavalgadura e uma armadura (ver Bestas ao Volante: http://www.jn.pt/domingo/interior/bestas-ao-volante-983646.html). Realidade, ficção ou sonho, a violência activa o olhar, a alma e o corpo (Derrick de Kerckhove).

Quer vencer uma batalha e conquistar espaço vital? Compre um automóvel na Car One.

Marca: Car One. Título: Hermanos. Agência: Leo Burnett Argentina. Direcção: Javier Usandivaras / Miguel Usandivaras. Argentina, Junho 2017.

Regresso à Cruz de Ferro

CruzdeFerro (1)

Desencantei, finalmente, uma cópia do filme A Cruz de Ferro (Brum do Canto, 1968) rodado em Castro Laboreiro (ver https://tendimag.com/2015/10/23/a-cruz-de-ferro/). Retrata o conflito entre duas aldeias por causa de um namoro e, por arrasto, da água. Agradeço este reencontro com A Cruz de Ferro, passado meio século, ao Valter Alves, um estudioso das gentes de Melgaço, cujo blogue recomendo: http://entreominhoeaserra.blogspot.pt/. O filme completo está acessível no seguinte endereço: https://www.youtube.com/watch?v=28HstNqSgb8. Segue um excerto. Privada de água, a população, na maioria mulheres, decide construir um engenho de rodas articuladas capaz de elevar a água do rio até à aldeia (vídeo 1). Uma demonstração da potência popular, sobre-humana, cara ao Estado Novo, patente, também, no episódio da reconstrução, “durante três dias e três noites”, da Praça de Touros de Guimarães, no ano de 1947 (vídeo 2).

Vídeo 1. A Cruz de Ferro. Realizador: Brum do Canto. Portugal. 1968. Excerto: 01.32.20 – 01.41.40.

Vídeo 2. Reconstrução da Praça de Touros de Guimarães (1947).

Camaradas da bola. Sociologia sem palavras 19.

Mordillo. Futebol.

Mordillo. Futebol.

“Tal como a conhecemos, a identificação clubística assenta em praticamente tudo menos em bases classistas. A maior parte das equipas denota filiações de índole territorial ou organizacional, tais como cidades (Porto), bairros (Benfica), países (seleções), empresas (o Sochaux, ligado à Peugeot; em tempos, a C.U.F.) ou associações (Académica). Nenhum destes referentes alude a divisões de classes. Pelo contrário, diluem-nas. Agregam os residentes ou os membros das organizações em clubes, independentemente da sua pertença de classe. Nesta linha, o futebol não só se rege por lógicas não classistas, como pode até contribuir para esbater as fronteiras de classe lançando pontes de convívio, comunhão e solidariedade entre os adeptos. Vendo bem, todos torcem e gritam, em uníssono, pelos mesmos emblemas e bandeiras. Um episódio do filme O Leão da Estrela (1947) ilustra a preceito esta capacidade integradora do futebol. O namorado da empregada queixosa dirige-se a casa do patrão para pedir satisfações. Encontram-se na sala de estar e a situação azeda, mas, já em vias de facto, o patrão descobre que o “antagonista” ostenta o emblema do leão na lapela. O que se configurava como um conflito laboral termina numa confraternização leonina, prelúdio de uma cooperação e de uma amizade duradouras. O futebol desempenha aqui um papel político de cimento de identidades para além das divisões de classe. Ergue-se, portanto, como um fator de pacificação social. O futebol contribui, deste modo, para unir grupos e pessoas que outras realidades tendem a separar” (Albertino Gonçalves, O desporto do nosso contentamento, Boletim Cultural de Melgaço, nº1, 2002, pp. 127-161; revisto).

Mais palavras para quê? O melhor é visionar o episódio do filme.

Sociologia sem palavras 19. Futebol e estratificação social. Arthur Duarte. O Leão da Estrela. 1947. Excerto.

Hoje sou grego!

Desenho de Leal da Câmara. Miau, nº 13, de 14 de Abril de 1916.

Desenho de Leal da Câmara. Miau, nº 13, de 14 de Abril de 1916.

Este desenho de Leal da Câmara, de 1916, garante que os homens não se medem aos palmos. Se calhar, medem-se aos euros. Volvido um século, o gigante não precisa de se expor. Basta adestrar uns tantos lusitanos para dar cabo do Zé Povinho. Estou doente há vários dias. Daí esta disposição daninha. Quando adoeço fico sem unto para as botas dos maiorais. Acresce não tolerar aos políticos que me façam sentir vergonha por ser português. Hoje, sou grego!

Fricção

Jan checoUma amiga enviou-me esta curta-metragem, Dimensions of Dialogue, do realizador surrealista checo Jan Svankmajer. As primeiras imagens lembram figuras de Arcimboldo em movimento. O imaginário é, porém, distinto. Na obra de Arcimboldo, predominam as “relações complementares”: os quatro elementos e as quatro estações do ano conjugam-se, na sua diversidade, para significar o poder unificador do imperador sobre o tempo e sobre o espaço, ou seja, sobre o mundo. Os quadros de Arcimboldo ou se completam ou permanecem singulares, como é o caso do Bibliotecário, de Flora ou do Cozinheiro. Em contrapartida, na curta-metragem de Jan Svankmajer, as relações são “simétricas” (Bateson, Gregory, Naven, 1936). As figuras agridem-se, devoram-se umas às outras. A própria semelhança, a mesmidade, é diabólica: atrai, separa e destrói.

Jan Svankmajer. Dimensions of Dialogue, Checoslováquia (República Checa), 1982.

Exclusividade

É assim mesmo, não é? A perda de exclusividade paga-se com raios e coriscos.

Marca: Harvey Nichols. Título: Avoid a Same Dress Disaster. Agência: Adam & Eve DDB. Reino Unido, Dezembro 2012.