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Discos pedidos

 

Temos uma Europa de cidadãos, não temos uma Europa dos cidadãos. As decisões nunca moraram tão longe, nem se concentraram tanto. Esperava-se que a União Europeia aproximasse os povos, afinal separa-os. Abertura ao exterior, clausura interna. Nunca senti Portugal tão longe da Itália. Os italianos deixaram de compor música? De fazer filmes? De escrever livros? Ressalvando a moda, o “Vaticano” e o programa Erasmus, instalou-se uma ignorância recíproca. Recordo que no programa de discos pedidos Quando o Telefone Toca, do Rádio Clube Português, ainda no tempo de Salazar, as canções italianas figuravam entre as mais concorridas. Era o programa preferido de minha tia, que, volvido meio século, vai reouvir Non Ho L’eta (1964), de Gigliola Cinquetti, Non Son Degno di Te (1965), de Gianni Morandi; ou L’Arca di Noe (1969), de Sergio Endrigo. Entre os filmes anunciados nas casas de cinema era habitual constar um ou outro italiano. Nos livros publicados pelo Círculo dos Leitores, criado em 1971, os autores italianos destacavam-se. O que aconteceu? Um colapso da arte ou um colapso do gosto? A jangada de pedra ibérica está a afastar-se da jangada de mármore italiana? A não ser colapso da arte nem do gosto, será um problema de comunicação associável à arquitectura europeia? Uma comunidade plural que pretende falar a uma só voz corre o risco de ficar afónica.

Gigliola Cinquetti, Non Ho L’eta. Original 1964.

Gianni Morandi, Non Son Degno di Te: =riginal 1965.

Sergio Endrigo, L’Arca di Noe. Original 1969.

 

Sisifite

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Virgiliu Narcis, A Sisif Life

Sisifite. Acabei de inventar a palavra. É uma inflamação associada ao trabalho inútil e interminável. Estou com uma sisifite aguda. Até me sinto grego. Sísifo era grego, não era? O provocador dos deuses e o burlão da morte. Os deuses são tramados, e caprichosos, quer morem no Olimpo, quer sejam os donos do euro. Sísifos há muitos. O mal é epidémico. Empurram um pedregulho monte acima, uns por ofensa aos deuses, outros por amor extremoso.

Porque perco tempo com este tipo de piadas? Porque me apetece. E porque acredito que uma piada como esta vale mais do que um voto para o Parlamento Europeu. E, no entanto, fui votar. Fomos, não fomos? Assinalou alguma das pessoas que lideram a Comunidade Europeia?

Truemax Academy. Sysiphus. 2011.

Tecnocracia assertiva

Pais fumadores vão ter cadastro

Governo quer mudar lei do tabaco. Cadastrar os pais que fumam é uma das decisões mais polémicas.

No próximo ano, os hábitos tabagisticos dos pais devem passar a ficar registados por escrito no Serviço Nacional de Saúde e no boletim infantil das crianças. Saber se os pais fumam em casa, no carro e quantos cigarros por dia são algumas das questões que vão ser colocadas, numa nova orientação defendida por vários especialistas em saúde pública.

Segundo o semanário Expresso, outros médicos consideram estas propostas muito radicais por responsabilizarem os pais pelas doenças dos filhos. A par do cadastro, diz o jornal, o Governo decidiu que as campanhas publicitárias sobre os ‘perigos’ de fumar em casa ou no carro vão ser muito mais assertivas (Diários de Notícias, 23.11.13).

Há masoquistas que ajudam quem os persegue. O governo da República prepara-se para cadastrar os pais fumadores no Serviço Nacional de Saúde. Uma medida profilática que só peca por tardia! Sobretudo quando, em Portugal, a mortalidade infantil aumentou de 2,5 em 2010 para 3,1 em 2011. Cadastrar é pouco! Obriguem-se os pais fumadores a andar com uma beata luminosa ao peito! Houve casos semelhantes na história da humanidade. Estigma por estigma… O mais ajustado seria exterminá-los! Em câmaras de fumo… Os fumadores são os suicidas mais ineficazes, mais lentos, mais estúpidos, mais incómodos e mais caros de que há memória.

A Comunidade Europeia é o primeiro espaço de cidadania em que a tecnocracia substituiu a política. Portugal integra a Comunidade Europeia, em bicos de pés e com a corda ao pescoço, bom aluno entre os piores. Importa contribuir com euros e com ideias. Junto um anúncio de sensibilização Plain Packaging, do Cancer Research UK. Falha inadvertidamente o alvo: visa as tabaqueiras e as embalagens em vez dos pais fumadores. Nem tudo pode ser perfeito. A cada um os seus santos e os seus demónios. Invade-me uma melancolia às avessas: voltam os velhos espectros…

Anunciante: Cancer Research UK. Título: Packaging. Agência: BBDO. Direção: Rob Chiu. UK, Novembro 2013.

Virando o bico ao prego

Quando escrevi que “os fumadores são os suicidas mais ineficazes, mais lentos, mais estúpidos, mais incómodos e mais caros de que há memória” não estava a ser irónico. Poucas decisões são mais estúpidas do que começar ou continuar a fumar. Pouco se ganha e perde-se imenso. Trata-se de um suicídio lento com um fim provavelmente doloroso. Um fumador sente-se a morrer aos poucos. Vai perdendo faculdades e somando problemas. Nas nossas sociedades, o fumo de cigarro tornou-se efetivamente incómodo. Biológica, psicológica e socialmente. Comporta riscos de saúde pública. O primeiro cigarro começa, muitas vezes, como um ritual de adesão a uma tribo de pares. Neste momento, afasta as pessoas. Dificulta a interação social. É repelente, centrífugo. Em casa, no trabalho e na rua. Incómodo transversal, cola-se como uma segunda pele. Trata-se de um hábito caro, que empobrece o fumador, a família, a sociedade e o Estado. O fumador é uma miniatura contemporânea do imperador Nero: à sua escala, queima riqueza e esfuma saúde.

Não sei por que escrevinhei este parágrafo. Toda a gente sabe! Escrever o que toda a gente sabe é tontice ou vaidade. Detesto desperdiçar letras. Se calhar, trata-se de um variante de penitência. Só tamanho acto de contrição pode demover a família do propósito de comprar uma grua para me pendurar a fumar nas alturas.