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A fibra do guerreiro

O filósofo grego Filóstrato (séculos II-III d.C) escreve no Tratado sobre a ginástica:

“Estes antigos atletas tomavam banho nos rios e nas fontes, dormiam no duro, uns sobre peles, outros sobre ervas que cortavam nas pradarias. Os seus alimentos consistiam em maza e em pão mal cozido e não fermentado; alimentavam-se ainda de carne de boi, de touro, de bode e de antílope. Untavam-se com óleo de azeitonas vulgares ou de outras espécies de azeitonas; permaneciam assim resguardados de doenças e retardavam a devastação da velhice. Alguns participaram nos confrontos durante oito olimpíadas, outros durante nove, e tornaram-se hábeis no manuseamento de armas pesadas. Batiam-se como se fossem donos de uma fortaleza, e não se mostravam inferiores nesta espécie de combates; eram julgados dignos do prémio da valentia e de troféus; faziam da guerra um exercício para a ginástica, e da ginástica um exercício para a guerra” (Philostrate, Traité sur la gymnastique, Paris, Librairie de Firmin Didot Frères, Fils et Cie, 1858).

Norbert Elias fala em etos guerreiro (Elias Norbert. Sport et violence. In: Actes de la recherche en sciences sociales. Vol. 2, n°6, décembre 1976, p. 8; pdf anexo). Mas, agora como dantes, nem todos os desportos pressupõem disposições guerreiras.

“Em suma, desta breve comparação entre as características dos desportos mais populares e dos desportos mais novo-burgueses ressalta uma oposição paradigmática entre ascese (áskësis) e estese (æsthësis). Enquanto que muitas das práticas mais típicas dos desportos populares parecem movidas por um éthos guerreiro as dos desportos novo-burgueses remetem mais para o éthos do mestre ou do artista (Gonçalves, Albertino, Imagens e Clivagens, Porto, Afrontamento, 1996, p. 114); pdf anexo).

O anúncio The only way is through, da Under Armour, é uma ilustração concisa do etos guerreiro: esforça-te, castiga-te, resiste, treina, concentra-te, supera-te, enfrenta e vence. Under armour. Mas, ao contrário das olimpíadas da antiguidade, não podes, em princípio, nem estropiar nem matar o adversário.

Marca: Under Armour. Título: The only way is through. Estados Unidos, Janeiro 2020.

Poluição plástica

Contra a poluição, só temos palavras?

Desflorestação, extinção de espécies, maus tratos a animais, derrame de crude, desertificação, alterações climáticas, aquecimento global, degelo, poluição do ar, efeito estufa, acidentes nucleares, proliferação de plásticos nos oceanos, eis alguns dos problemas que nos apoquentam. Na esfera pública, os temas ecológicos sucedem-se ao estilo de natação mariposa. Ora emergem, ora submergem. Ora uns, ora outros. A poluição plástica dos oceanos é um tema emergente que tem inspirado anúncios notáveis. Por exemplo, os anúncios The Plastic Ocean (2018) e Pollution de Avril (2019), da associação Sea Shepherd.

Anunciante: Sea Shepherd. Título: The Plastic Ocean. Agência: Fred & Farid (New York). Estados-Unidos, Abril 2018.
Anunciante: Sea Shepherd. Título: Pollution de Avril. Agência: Azilis. Direcção: When We Were Kids. França, Abril 2019.

Potência

Volvic. La force du volcan.

Quando a música é boa, e o resto não desmerece, vale a pena experimentar. No novo anúncio da Volvic e no trailer do videojogo Assassin’s Creed, repete-se a música de Woodkid. E a mesma propensão para o mito, senão para o arquétipo. Do conjunto, desprende-se uma sensação de potência. Existe uma estética da potência? Tem milénios… Um anúncio, um trailer, um videoclip. Três forças da natureza humana.

Marca: Volvic. Título: La Force du Volcan. Agência: Young & Rubicam Paris. Direção: Johnny Green. Europa, Outubro 2014.

Assassin’s Creed: Revelations – Official E3 Trailer. Ubisoft Montréal. Junho 2011.

Lamborghini. O Touro Superdesportivo

Lamborghini AventadorPara além da qualidade dos gráficos e dos efeitos especiais, este anúncio da Lamborghini comporta um desafio interessante: Como dedicar um anúncio a um automóvel desportivo sob o signo do touro? O símbolo da marca, desde sempre. Têm-se feito muitos anúncios com cavalos. Com felinos, também. Mas com touros… Potência, bravura e frontalidade. Eis o triângulo das virtudes taurinas. Com quase três minutos, o vídeo lembra, aqui e além, o tempo e o compasso próprios do Sergio Leone. O mundo é uma arena de titãs, tectónicos ou não. A potência do touro desportivo não só se vê como, graças à banda sonora, se ouve, numa cadência mecânica. O Lamborghini Aventador não recua, nem hesita. Nenhum obstáculo o demove. Segue em frente. Mesmo quando o mundo se desmorona. O embate final é notável. Confrontado com as forças da escuridão, ao jeito do Senhor dos Anéis, o carro pára, “escava o solo” e arranca desenfreado, guiado pelo destino. Vitorioso, empoeirado, parece ainda mais robusto e mais potente. Como acontece nos anime e nos videojogos, o vencedor parece ter absorvido a energia do adversário, uma energia diabólica. Não admira que o Lamborghini Aventador também seja conhecido como “o veneno”. A cadência e a estética deste anúncio bebem na mística dionisíaca do touro e dos rituais tauromáquicos. Sublinhe-se, por último, que o Lamborghini começa solitário e solitário acaba, sem sombra de presença humana.

Marca: Lamborghini. Título: Lamborghini “Aventador”. Agência: Philipp und Keuntje, Hamburg. Direção: Ole Peters. Alemanha, Abril 2011.

Anúncios de Tim Burton

Tim Burton. Timex com.concepts. 2000

Tim Burton. Timex com.concepts. 2000

Muitos realizadores de cinema não resistiram a um pé de dança na publicidade. Tim Burton não é excepção. Dirigiu uma campanha (I-control Watch) para a Timex. Desta campanha, retemos um anúncio televisivo e um póster. Pode aceder à restante produção neste endereço: http://www.timburtoncollective.com/timex.html. O anúncio Mannequin (2000) propõe uma cena de combate, associável ao Matrix ou ao Batman, em que os maus são maus, os relógios são armas e a mulher é uma mulher.

Marca: Timex. Título: Mannequin. Agência: Fallon Minneapolis. Direção: Tim Burton. EUA, 2000.