Tag Archive | clássico

Sobre rodas

Bertha Benz. Motorwagen.

Em 2018, por altura do Dia Internacional da Mulher, a Mercedes-Benz dos Estados-Unidos lançou um anúncio intitulado “First Driver” dedicado a Bertha Benz, mulher do inventor e empresário do primeiro automóvel (ver vídeo 1). Este ano, por altura do Dia Internacional da Mulher, a Mercedes-Benz alemã lança um anúncio intitulado “The journey that change everything” dedicado, também, a Bertha Benz. Para o próximo ano, por altura do Dia Internacional da Mulher, não estranhará se a Mercedez-Benz lançar um anúncio intitulado “Visita à família em quatro rodas”, dedicado, mais uma vez, a Bertha Benz. A consumar-se esta eventualidade, consolida-se uma saga internacional com Bertha Benz como protagonista.

Marca: Mercedes-Benz. Título: The First Driver. Agência: R/GA. Estados Unidos, Agosto 2018.

Os dois anúncios partilham a mesma protagonista e a mesma história: a viagem de cerca de 60Km em automóvel até à residência da mãe. Ela própria cuidou que o evento justificasse uma grande cobertura mediática e publicitária. Bertha Benz, uma mulher notável, é uma referência para a marca Mercedes-Benz, bem como para a emancipação da mulher. Nestes anúncios, Bertha Benz é uma dupla embaixadora.

Marca: Mercedes-Benz. Título: The Journey That Changed Everything. Agência: antoni garage. Direcção: Sebastian Strasser. Alemanha, Março 2019.

Os dois anúncios são semelhantes no conteúdo, mas bastante distintos no estilo. First Driver, a preto e branco, acusa um pendor clássico. The journey that change everything comporta, a começar pelo título, uma propensão barroca, por vezes, grotesca. A acção é exuberante e sobram as personagens feias, porcas e más. Esta diversidade no estilo intriga. Poucos anos atrás, a Mercedes-Benz primava por cultivar uma imagem robusta, ver previsível. Recentemente, a saída de um novo anúncio gera expectativa. Não se consegue adivinhar, à partida, qual é o estilo, o conteúdo e o público-alvo. A publicidade da Mercedes-Benz parece ter adoptado uma estratégia de comunicação poliédrica e polifónica.

Duas gotas

Ford dos gotas

“Duas gotas iguais como duas gotas de água. A gravidade empurra-as para o vazio. Uma escolhe ser uma linha reta para chegar primeiro. A outra desvia-se para desenhar a mais perfeita das linhas. Duas gotas que nunca foram iguais como uma gota de água”.

“Kinetic Design, a nova corrente de desenho da Ford, desenha a linha dos seus automóveis a partir do movimento.”

A curva e o movimento, o traço do barroco na publicidade automóvel

Marca: Ford. Título: Dos gotas. Agência: JWT Argentina. Direcção: Pucho Mentasti. Argentina, 2009.

Corpos sólidos

Hans Surén 1

Hans Surén 1

Hans Surén 2

Hans Surén 2

“Tornar os corpos robustos não é, num Estado racista, assunto dos indivíduos, nem uma questão que respeita em primeiro lugar aos pais (…), é uma necessidade da conservação do povo que representa e protege o Estado (…) Um jovem que o desporto e a ginástica tornaram duro como o ferro sofre menos que o indivíduo caseiro, exclusivamente nutrido com alimentação intelectual, a necessidade de satisfações sensuais (…) Deve, após a jornada de trabalho, cimentar o seu jovem corpo e endurecê-lo para que a vida, um dia ou outro, não o encontre demasiado amolecido (…) O futuro jovem alemão deve ser esbelto e alongado, ágil como uma lebre, resistente como o couro e duro como o aço de Krupp. Nós devemos transformá-lo num homem novo a fim de evitar que ele não sucumba à degenerescência geral” (Hitler, Adolf, Mein Kampf, ed. de 1934).

Hans Surén 3

Hans Surén 3

Na opinião de um seguidor do Tendências do Imaginário, o meu pensamento não é mau mas é demasiado rápido. Tem razão. Por entre síncopes e atalhos, alusões cifradas e teorias sem teóricos, uma pessoa perde-se. Em suma, uma escrita pouco amigável, com os neurónios a tropeçar uns nos outros. Por exemplo, no último artigo, a pretexto da qualidade de vida, insinua-se, sem preparo nem reparo, a frase “e os corpos coreografados da propaganda nazi”, com direito a uma fotografia de Hans Surén (https://tendimag.com/2015/04/18/qualidade-de-vida/). Por quê tanta frase curta cravejada com lembretes erráticos? Não sei. Talvez por receio que as ideias fujam!

Hans Surén 4

Hans Surén 4

Hans Surén (1885-1972) publicou, em 1924, o livro Mensch un Sonne (Os Homens e o Sol), com fotografias de nus masculinos e femininos. Era então promotor da NacktKultur e do naturismo. O livro atingiu 68 edições (250 000 exemplares) no primeiro ano de edição.

Arno Breker. Eos. 1939.

Arno Breker. Eos. 1939.

Surén aderiu ao partido nazi em 1933, adaptando, sucessivamente, o seu livro à ideologia do Terceiro Reich. Para a recolha de imagens (galeria 1), recorremos à edição de 1936, mais permeada pela estética nazi e pelo ideal ariano. Deparamo-nos com corpos nus, vigorosos, saudáveis, individuais e coletivos, autênticas alegorias da potência da raça.

Hans Surén não era, porém, fotógrafo do regime, pelo menos ao mesmo título que Arno Breker (1900-1991) e Leni Riefenstahl (1902-2003), respetivamente, o escultor e a cineasta prediletos de Adolf Hitler. Arno Breker também se dedica à escultura de corpos nus, atléticos, musculados, saudáveis, simétricos e disciplinados. “Uma materialização da ideologia nazi”.

Adolf Hitler,  Albert Speer e Arno Breker (à direita) em Paris (1942)

Adolf Hitler, Albert Speer e Arno Breker (à direita) em Paris (1942)

O governo disponibilizou-lhe três ateliers onde trabalhavam dezenas de pessoas, entre as quais prisioneiros deportados. Tornou-se célebre a fotografia em Paris, datada de 1942, com Adolf Hitler e Albert Speer, arquiteto do regime. Nesse ano decorreu na Orangerie uma exposição com a sua obra.

Arno Breker: Esculturas no pátio da chancelaria em Berlim.

Arno Breker: Esculturas no pátio da chancelaria em Berlim.

Arno Breker 2

Arno Breker 2

“A partir do mês de fevereiro de 1939, o visitante da nova chancelaria do Reich, em Berlim, é recebido, no pátio de honra, por duas estátuas de Arno Breker, simetricamente dispostas de um e do outro lado da escadaria central: uma, brandindo uma tocha, representa o Partido, a outra, armada com um gládio, a Whermacht. A força do espírito e da espada, transportada por torsos voluntariosos e músculos salientes, impõe-se, deste modo, a qualquer hóspede, nomeadamente estrangeiro, do Führer. A nova Alemanha dá-se a ver sob uma luz despojada e viril, ao mesmo tempo ascética e atlética, do nu do guerreiro” (Chapoutot, Johann, Le nu guerrier nazi. Art d’État et archétype de la race, Bulletin nº 24, Automne 2006, Université Paris I – Panthéon Sorbonne, http://www.univ-paris1.fr/autres-structures-de-recherche/ipr/les-revues/bulletin/tous-les-bulletins/bulletin-n-24-art-et-relations-internationales/johann-chapoutot-le-nu-guerrier-nazi-art-d8217etat-et-archetype-de-la-race/; sobre a importância da configuração e da decoração dos percursos de acesso nos palácios imperiais, ver o documentário da BBC: How Art Made the World. Episode 3 of 5. The Art of Persuasion, 2005).

Arno Breker 3

Arno Breker 3

A escultura de Arno Breker não se confina ao sexo masculino. Multiplicam-se as estátuas com jovens mulheres nuas de saudável constituição. Se as esculturas de homens, armados ou não, são de soldados ou de jovens preparados para o ser, as esculturas de mulheres convocam (futuras) mães, com os atributos que a reprodução da raça exige (ver “Antitabagismo. Uma nota histórica parcelar”: https://tendimag.com/2014/08/26/antitabagismos-uma-nota-historica-parcelar/). Se os corpos masculinos se querem prontos para a guerra, os corpos femininos devem estar preparados para a procriação, garantia do futuro da nação. Dezenas de milhares de anos depois da Vénus de Willendorf, da Vénus de Lespugue ou da Vénus de Doni Vestonice, emerge a Vénus do Terceiro Reich! Reconhece-se na escultura de Arno Breker a oposição, arquetípica, entre a espada, masculina, e a taça, feminina (ver Durand, Gilbert, As estruturas antropológicas do imaginário. Lisboa: Presença, 1989).

Arno Breker 4. Apolo e Dafneia.

Arno Breker 4. Apolo e Dafneia.

As fotografias de Hans Surén e as esculturas de Arno Breker inspiram-se na antiguidade clássica, mormente grega. Pela forma, pelo conteúdo e pelo alcance. A estética clássica, nos antípodas da “arte degenerada”, é assumida pelos políticos e pelos artistas nazis. Para além da influência da mitologia grega (por exemplo, os relevos Apolo e Dafneia e Orfeu e Eurídice, de Arno Breker), interessa relevar os princípios e as formas que lhe dão corpo.

Vídeo 1: A Obra de Arno Breker.

O início do filme Olympia, de Leni Riefenstahl, faculta uma visualização magistral da ponte entre a estética da antiguidade clássica e a estética ariana. Lentamente, em cerca de dez minutos, opera-se a passagem do testemunho das ruinas e das estátuas, masculinas e femininas, dos atletas e guerreiros gregos para os corpos dos atletas, homens e mulheres, arianos (ver vídeo 2).

Vídeo 2: Leni Riefenstahl. Olympia. Início.

São realistas as imagens de Leni Riefenstahl e as esculturas de Arno Breker? Não são realistas, são clássicas. Distorcem a realidade numa vontade de a predizer. Os corpos de Arno Breker são impossíveis. Não há simetria nem músculo que resistam. Até certo ponto, it’s a fake, uma ilusão. Mas a escultura grega também não era realista. Os corpos eram belos, mas não eram reais. A aspiração estética, a beleza, declina a cópia, aspira a uma representação “mais humana do que o humano” (ver o documentário da BBC: How Art Made the World. Episode 1 of 5. More Human than Human, 2005). A estética nazi é “clássica, demasiado clássica”, excessivamente clássica.

Galeria de fotografias de Hans Surén

O meu reino, imaginário, também é um pouco assim: clássico, na versão quadrada. Tudo se decide com valentes tesouradas. Parece a mesa de um alfaiate.

Virados do avesso

Kate MacDowell. Daphne. 2007.

Kate MacDowell. Daphne. 2007.

Quem rejeita desencontros como este?
O anúncio da Interflora é uma bela parábola.
Diferença, aproximação, devir.
O gótico torna-se clássico, e vice-versa.
Tu não és apenas o que és mas o que podes ser.
Contraditorial, é atributo do homem poder virar-se do avesso.

Marca: Interflora. Título: Odd love. Agência: Brandhouse. Direcção: Martin Werner. Dinamarca, Fevereiro 2015.

Quem quer uma máscara mordaz?

Se ainda não escolheu a sua máscara para este Carnaval, que nos seja permitido sugerir este modelo património carrancudo, com três estilos a opção: gótico, clássico e Ilha da Páscoa. A prótese dentária, garantida contra a corrosão da austeridade, tem dupla função: tanto ri como morde.

A vida por um fio

Se não quer cozinhar uma pitada de ideia, sempre pode puxar por um fio e desenrolar uma história. No fim, pode rematar com aquele sobressalto moral tão característico dos omniscientes e das fábulas. Com régua e com regras.

Marca: Ania Foundation. Título: Rules of the road. Agência: Publicis Italy. Direcção: Tom Willems. Itália, Setembro 2011.

Este post ganha em ser visto como uma continuação do post “Quando a linha recta não é a distância mais curta”.

Montra de prodígios

Um anúncio como o do iPad2 é cada vez mais uma raridade: a maravilha é o produto (Ipad2; Learn; TBWA\Media Arts Lab; Glenn Martin; EUA, Setembro, 2011) . Nem mais, nem menos. Sobram, quando muito, uns dedos. Não faz apelo ao patrocínio de nenhum prodígio adicional (top model, desportista, artista, paisagem, ser do outro mundo). Pois, dedos como aqueles, não há! Tão ágeis, tão precisos, um sonho! Quem não quer umas mãos assim…

Brincadeira à parte, a maioria dos anúncios publicitários mergulha os produtos em molhos de sedução. O maravilhamento acontece por osmose ou contágio. Parece ser o caso da recente campanha holandesa do Mini Coupé. Esta campanha tem várias versões: Carnival; Love is in the air; e Hitchhiker (Anunciante: Bayerische Motoren Werke AG; Agência: BSUR, Amsterdam; Directores criativos: Paulo Martins, Karl Dunn; Holanda, Setembro de 2011). Confinemo-nos à primeira: ao automóvel não basta o exuberante sambódromo de Rio de Janeiro, o Mini exibe a sua agilidade irreverente por toda a cidade. Percorre um mundo maravilhoso como um prodígio entre prodígios.

Um último reparo: o anúncio do iPad2 apresenta uma textura clássica, quase geométrica, que parece destinada ao(s) cérebro(s), enquanto que o anúncio do Mini Coupé envereda pelo grotesco e parece apostar mais no(s) corpo(s).