O vinagre e as moscas
Há muitas maneiras de o dizer e outras tantas de o entender, o que representa um desafio para os agentes publicitários. Tanto podem contribuir, junto do público, para o envolvimento e o agrado como para o enfrentamento e o desconforto, provocando sensações e sentimentos ora de satisfação, confiança e esperança, ora de perturbação, insegurança e receio. Difíceis de antecipar, as reações podem resultar perversas: indiferença, rejeição e, até, adversidade em vez de adesão, reconhecimento e conversão. A maioria dos anúncios comerciais, interessados em congregar e cativar, apostam na primeira modalidade; os anúncios de sensibilização, mais empenhados em assustar e mitigar, na segunda, destacando-se as campanhas antitabaco como exemplo extremo. Na prevenção ambiental ou rodoviária, a opção pela polémica e pelo choque tende a ser menos drástica e sistemática, com eventual recurso à fantasia, à simpatia e, até, ao humor. O anúncio natalício “Llegar”, da Dirección General de Tráfico (DGT), de Espanha, oferece-se como um excelente exemplo.
Um dia virá em que as altas autoridades se dignarão ponderar um provérbio antigo: “Não é com vinagre que se apanham moscas”; ou “Apanham-se mais moscas com uma colher de mel do que com vinte barris de vinagre“.
Entretanto insiste-se, décadas a fio, na repetição, na agressividade e, muitas vezes, na intrusão sem que os resultados correspondam. Algo me escapa! Existirão outras lógicas que não consigo ou ouso equacionar? Além da conversão, a discriminação, a estigmatização e a demonização? A justificação da penalização, nomeadamente através de impostos demasiado excessivos e pouco dissuasivos? Com certeza que não, seria grave.
Pedagogia de choque
Do ponto de vista do cidadão moderno, os atropelamentos são inadmissíveis. Demasiada imprudência, distracção e morte. A publicidade destaca-se como um dos principais meios de prevenção. Há várias formas de dissuadir o peão imprevidente: acidentes tecnicamente estetizados ou dramatizados; mortos faladores; desespero dos pais das vítimas; anjos salvadores… Predominam os anúncios que chocam e assustam. É o caso do Stunt piétons, da canadiana SAAQ (Société de l’Assurance Automobile du Québec). O anúncio recorre ao choque e ao susto. O desvio é o caminho mais avisado. Os acidentes e as vítimas, reduzidas a esqueletos, reconhecem-se no ecrã de um aparato técnico. A simulação de uma realidade pode ter mais impacto do que a própria realidade.
A pedagogia do choque e do medo não é apanágio dos regimes e das instituições totalitárias. Mais ou menos eficaz, configura um discurso do poder. A pedagogia do choque e do medo esmera-se, mas, muitas vezes, sem grandes resultados. Por exemplo, contra o tabaco ou o álcool. Tudo indica que a pedagogia do choque e do medo também é apanágio das sociedades democráticas. A prudência não está associada ao medo? O medo não sensibiliza?
Marca: SAAQ. Título: Stunt piétons. Agência: Lg2. Direcção: Olivier Labonté Lemoyne. Canadá, Novembro 2018.
Sociedade de choque
Isto de chocar e ser chocado tem que se lhe diga. Nos circos romanos, o choque era colectivo. Os bobos destacavam-se na arte de chocar. Há meio século, o choque banalizou-se. Chocam as mini-saias, os hippies, a pornografia, os escândalos, o preço do petróleo e a ida à lua. Mais os filmes “eventualmente chocantes” como Laranja Mecânica, A Grande Farra, O Último Tango em Paris ou O Exorcista. Mas, no cômputo global, as pessoas chocavam-se relativamente pouco. Hoje, chocamos sem pausa. Há algumas décadas, a Benetton dizia chique com choque; agora, tudo se manifesta impactante. Um noticiário sem novidades, reportagens, entrevistas e comentários chocantes atravessa uma flat season. A Internet enreda-se em mensagens chocantes. Os políticos, os movimentos sociais e os publicitários não olham a meios para criar impacto, ou seja, para nos chocar e sensibilizar. Já não somos como o “rei pasmado” de Gonzalo Torrente Ballester. Todos temos direito ao choque! Andamos abalados, quando não achocalhados.
Anunciante: Emmaüs. Título: Article 13 – L’horreur ne prend jamais de vacances. França, Julho 2017.
O anúncio L’horreur ne prend jamais de vacances, do movimento Emmaüs, pretende chocar: “parce que l’horreur ne prend pas de vacances. Une campagne choc d’#Emmaüs pour la liberté de circulation”. Consegue-o, de uma forma surpreendente: centenas de presumíveis “cadáveres” testemunham a tragédia dos refugiados, não obstante o artigo 13º da Declaração Universal dos Direitos do Homem: 1) Toda a pessoa tem o direito de livremente circular e escolher a sua residência no interior de um Estado. 2) Toda a pessoa tem o direito de abandonar o país em que se encontra, incluindo o seu, e o direito de regressar ao seu país.
O anúncio da Emmaüs lembra o expressionismo alemão: os banhistas, banais, estão cercados pela morte. Lembra, também, a capa do álbum Crisis What Crisis (1975) dos Supertramp. Com a imagem da capa, segue a primeira faixa do álbum: Easy Does It.
Supertramp. Easy does it. Crisis What Crisis. 1975.
Livrai-nos do mal

Caravaggio. São Mateus com o anjo. 1602.
1. Não julgueis, e não sereis julgados. 2. Porque do mesmo modo que julgardes, sereis também vós julgados e, com a medida com que tiverdes medido, também vós sereis medidos (Mateus 7:1,2).
Os anúncios da PETA trazem-me confuso: trata-se de uma campanha de uma ONG para o “tratamento ético dos animais” ou de uma série de horror? De qualquer modo, atendendo ao propósito, chocar com choque, distinto de “dizer chique com choque”, os anúncios da PETA são notáveis.
Anunciante: PETA. Título: Les Dessous du Cuir. Agência: Ogilvy & Matter. Tailândia, Maio 2016.
Falar verdade a mentir
Este anúncio australiano pôs-me a pensar em marcar uma consulta psiquiátrica. Ando a estranhar demasiado a realidade. Uma pesquisa rápida reconfortou-me. É possível que o anúncio seja uma brincadeira viral. A entidade promotora (Learn for Life Foundation WA) tem uma página elíptica com ares de organização fantasma (http://www.learnforlifewa.org.au/). As farsas acontecem. Algumas tornam-se famosas. Este Set Yourself Free colheu mais de 3 milhões de visualizações no You Tube em dois dias! Sobre este anúncio, está disponível informação mais detalhada na página http://www.watoday.com.au/wa-news/perth-agency-makes-hoax-of-deathly-charity-ad-20140131-31rwe.html. Na realidade, as bases de anúncios que costumo consultar assumem este vídeo como um anúncio efectivo (nem fake, nem hoax). Uma boa alma não publicava este anúncio, por estar a acrescentar mais um elo a uma eventual cadeia viral impostora. Não sou uma boa alma. Fraude ou não, segue um anúncio chocante e desmiolado.
Marca: Learn for Life Foundation Western Australia. Título: Set Yourself Free. Agência: Direct. Direção: Aaron McCann. Austrália, Janeiro 2014.
Acidentes
Anúncios com acidentes!!! Por que não? Desde que acertem no alvo… Os anúncios publicitários não estão reféns do belo, do bom e do bem. Os resultados podem surgir por várias vias, algumas perversas. A desgraça alheia consta entre os espetáculos que mais interesse despertam. Mal dos outros? Maldade nossa? Há imensos anúncios publicitários com acidentes. E a tendência é para o crescimento. Em alguns casos, a desventura é servida com humor. No anúncio Keep Going (vídeo 1), da Amersfoortse, os acidentes são embalados numa paródia cómica, ao jeito do cinema mudo ou dos desenhos animados. Os desastres em cadeia de Buster Keaton (vídeo 2) e de Mr. Magoo (vídeo 3) são proverbiais. Mas há anúncios em que as imagens de acidentes não dão vontade de rir. Chocam, assustam, indispõem. O recurso ao simulacro é frequente. O real encenado torna-se mais real do que o real. Logra mais impacto. Pela surpresa, pelo contraste. No anúncio Restaurant (vídeo 4), do Texas Department of Transportation, o acidente ocorre durante o jantar num restaurante. Ou talvez tivesse sido na estrada… Multiplicam-se os anúncios publicitários que causam uma sensação de risco. Não é por acaso que o primeiro anúncio é de uma companhia de seguros e o último, de um Departamento de Estado dos Transportes. Estes anúncios inscrevem-se num tempo em que o apreço pela segurança se apresenta em recuperação. Contra a opinião de Ronald Inglehart, os valores materialistas como a segurança, opostos aos valores pós-materialistas, como a autonomia, continuam a circular nesta “roda da vida”.
Marca: Amersfoortse. Título: Keep Going. Agência: John Doe Amsterdam. Direção: Hein Mevissen. Holanda, Setembro 2013.
Mr Magoo Opening Theme
Hooked on a Can Can an Buster Keaton by El Kaye
Marca: Texas Department of Transportation. Título: Restaurant. Agência: Sherry Matthews. Direção: Josh Miller. USA, Setembro 2013.
Morte aos mortos!
Que o tétrico e o chocante cativam a atenção e ajudam a vender produtos, já se sabe. Que o fenómeno pode ser trabalhado com todo o requinte é algo que este anúncio brasileiro ilustra, desde o mais ténue contorno até ao mais ínfimo detalhe. A sequência inicial é, nesta perspectiva, um primor. Um anúncio para a Fox, o canal dos policiais, das assombrações, das morgues e dos mortos vivos.
Marca: Fox International Channels. Título: Shooting Posters. Agência: Loducca, São Paulo, Direção: Brasil, Março 2013.
Pedagogia de choque
Este pequeno anúncio é um grande desafio. Será que remete para a física do judo? Quando o judoca cai bate com o braço no chão com o objetivo de aumentar a área de impacto e diminuir a sensação de dor. Não parece! Pensando bem é uma nova pedagogia de choque, daquelas que aumentam os resultados e diminuem os custos.
Marca: Saridon. Título: Pound. Agência: BBDO Guerrero. Filipinas, Junho 2012. Leão de Bronze em Cannes.
Publicidade monumental
Já lá vai o tempo destes anúncios monumentais, excessivos, exigentes em recursos e altas autorizações: porta-aviões e submarino disponibilizados pelo governo francês, utilização da muralha da China tolerada pelo governo chinês. Hoje, com tanta recomendação superior e contenção deontológica, este tipo de anúncios é muito improvável. Estes dois anúncios clássicos da Citröen são património da história da comunicação audiovisual. Pf, carregar na imagem.
Citroen. Muraille de Chine / Révolutionnaire. França, 1987.




