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Sombras e transparências

Fotografia de Almerinda Van Der Giezen

A escala cinza e o claro-escuro permitem captar a aura, a tonalidade e a energia dos fenómenos, sem o ruído das cores. Como diria Henri Bergson, dão vida às sombras sem desperdiçar a luz. Como na Alegoria da Caverna de Platão, as sombras partem de alguma realidade, não a reproduzem. Dependem a luminosidade, da projeção e do olhar. Geram ilusões: “Se enxerga um gigante, inteire-se primeiro da posição do sol, e veja se o gigante não é a sombra de um pigmeu” (Novalis). Um fenómeno pode inclusivamente mudar de feição: clássico, hierático como o copo, pode tornar-se barroco ou trágico, redobrando-se. “Se o corpo é direito que importa que a sombra seja retorcida” (provérbio chinês).

Uma pessoa diz para logo se desdizer. As sombras também permitem, mais ou menos indiretamente, o acesso à verdade dos fenómenos. Atente-se na seguinte asserção atribuída a Fernão de Magalhães: “A igreja diz que a terra é plana, mas vi a sombra na lua e tenho mais fé na sombra do que na igreja”.

As nossas sombras escapam-se à frente ou demoram-se atrás; nada as impede de andar ao lado. São, porém, de outra ordem aquelas que se aninham na nossa alma. Nem sempre nos é dado escolhê-las.

A fotografia, premiada, da Almerinda Van Der Giezen tem a arte de sugerir estas diversas perspetivas e experiências, mesmo o que vai na alma! Não é qualquer música que se presta para a acompanhar. Em 2015, com 92 anos, Menahem Pressler interpretou o Noturno nº 20 de Chopin. Uma escolha que não desmerece.

Menahem Pressler interpreta o Noturno nº 20 de Chopin em dó sustenido menor, op. post. 2015

Impuro

Não sou religioso, pelo menos na aceção corrente da palavra. Não significa que não seja crente. Acredito em tanta coisa tão pouco óbvia. Prezo, aliás, a fé e quem a possui, em particular aqueles que, perante um deus que não se manifesta nem é demonstrável pela razão (o “Deus Oculto” de Blaise Pascal), apostam e vivem apostados na sua verdade e existência..

Imagens: Capela Imaculada. Seminário de Nossa Senhora da Conceição. Braga

Sinto a falta desse sentimento inspirador de obras cuja aura demando e deixo ressoar dentro de mim. Estou convencido que não há vocação mais honesta do que abrir-se ao outro e relativizar-se a si mesmo.

Johann Sebastian Bach. Adagio, BWV 974. Arranjo do concerto para oboé de Allessandro Marcello. 1715
Frédéric Chopin. Piano Concerto No. 1 in E Minor, Op. 11: II. Romance. Larghetto. 1830. Piano: Martha Argerich. Direção: Charles Dutoit. Orchestre Symphonique de Montréal, 1999.

Noturnos

Nunca descansei tanto. Investigo pouco e escrevo menos. Ouço os pássaros e os noturnos de Chopin.

Frédéric Chopin. Nocturne in B-flat minor, Op. 9, No. 1. Played by Vadim Chaimovich.

 Frédéric Chopin. Nocturne nº 20 in c-sharp Minor. Intérprete: hong-Sin Liou.

O Tendências do Imaginário face ao confinamento

Rosso Fiorentino. Cherub Playing a Lute or Musical Cherub. 1521.

O confinamento tem constrangimentos. Mormente, quando é duplo: pandémico e mórbido. Por doença, tenho a mobilidade limitada a um dos pisos da casa. Esta vida apertada tem consequências, inclusivamente, ao nível do Tendências do Imaginário.

Muitos artigos inspiram-se na observação da vida quotidiana. Descobertas de trazer no bolso. É um divertimento que cultivo, uma espécie de “sociologia espontânea”. Com o confinamento, resta-me a “observação de pássaros: os conflitos entre gatos, a etiqueta das bicadas dos pardais nas migalhas de pão ou os estratagemas dos melros para aceder à comida dos gatos.

Os “artigos de fundo” são uma marca do Tendências do Imaginário. Textos originais que exigem semanas de pesquisa e escrita. O confinamento comprimiu o tempo no presente. O aqui e o agora tornaram-se avassaladores, avessos a iniciativas de fôlego. Não há impulso. O futuro mora nos faróis dos palpiteiros.

O Tendências do Imaginário está diferente, com uma quebra de microssociologia e ensaio intelectual. Prosseguem a publicidade e a música. Estas circunstâncias contribuem para um novo papel da música.

A casa lembra uma discoteca. Gavetões, gavetas e prateleiras repletas de vinis, CDs e DVDs. Acervo de um melomaníaco. A maioria das músicas do Tendências do Imaginário provêm desta coleção. Com o confinamento, a relação com a música mudou. Outrora, a música acompanhava outras atividades, incluindo o trabalho. A música era ambiental. Agora, beneficia de uma dedicação exclusiva. Concentrado e repostado, ouço e seleciono as músicas. Esta nova interação com a música comporta um efeito relevante, que tende a privilegiar a tradição, os discos, em detrimento da inovação (a procura, sobretudo, na Internet).

Em resumo, com o duplo confinamento, pessoal e social, o Tendências do Imaginário arrisca-se a perder diversidade e atualidade. Não obstante, as visualizações mantêm-se.

Como ilustração, seguem duas músicas: o Concerto para Piano, nº1, de Frédéric Chopin, da coleção de discos e do polo da tradição; e The Silence, da Manchester Orchestra, uma banda indie norte-americana (polo de inovação, via Internet).

Frédéric Chopin. Piano Concerto No. 1 in E Minor, Op. 11 – 2. Romance (Larghetto).
Manchester Orchestra – The Silence (Live at The Regency Ballroom San Francisco). Álbum: A Black Mile to the Surface. 2017.

Como peixes na rede

Oito olhos vêem mais que dois?

Há tanto petisco falso na Internet! Os peixes mordem o isco aos milhões. E quanto mais mordem mais atraente se torna o isco. Quem duvida de uma ligação com mais de 20 milhões de visualizações?

No endereço https://www.youtube.com/watch?v=a0hFZPvanMs, encontra-se um vídeo intitulado Frédéric Chopin – Spring Waltz. Contabiliza 6 750 616 visualizações. Não é um caso isolado. Os fakes são virais. Chopin não compôs nenhuma Valsa de Primavera. A música do vídeo é Mariage d’Amour, composta, em 1978, pelo francês Paul de Senneville, e interpretada por Richard Clayderman (https://www.youtube.com/watch?v=1ej1SI4BRv8) e George Davidson (https://www.youtube.com/watch?v=gKmnb8RpX1E).

A página https://www.youtube.com/watch?v=-ywL_zokELE ostenta o título Adagio – Johann Sebastian Bach. Em letras pequenas, precisa: “Τhis version is made by Élise Robineau – Concerto en re mineur BWV974 – Adagio d’après Marcello – Piano & Cello”. A versão de Élise Robineau substitui o oboé pelo violoncelo. Informa, porém, que o adagio de Bach provém do adagio de O Concerto em ré menor para oboé, cordas e baixo contínuo de Marcello. De Marcello? Será Benedetto Marcello, o compositor veneziano que criticou Antonio Vivaldi? Não, o irmão Alessandro. O Concerto para Oboé em ré menor, e respectivo adagio, foi composto por Alessandro Marcello. Até prova do contrário. Estou convencido que o adagio do Concerto em ré menor para oboé resulta mais atribuído, na Internet, a Bach ou ao Benedetto Marcello do que ao seu autor Alessandro Marcello.

Estou a selecionar algumas músicas de Frédéric Chopin. Se contemplasse a pretensa “Spring Waltz” estava a servir gato por lebre e a fazer figura de parvo. Colocar conteúdos na Internet requer algum sentido de responsabilidade, por exemplo, verificar antes de partilhar.

Quarenta mil olhos vêem mais que dois? Naturalmente, mas depende de quem e do quê. Gosto do arranjo de Élise Robineau do adagio de Bach / Alessandro Marcello para piano e violoncelo. Integra a banda sonora do filme Je te mangerais (2009).

Adagio – Johann Sebastian Bach. Concerto en re mineur BWV974 – Adagio d’après Marcello – Piano & Cello”. Version de Élise Robineau. Mais de 27 milhões de visualizações.

Nocturno: uma jangada no coração

Nocturne: Blue and Silver – Chelsea 1871 James Abbott McNeill Whistler 1834-1903 Bequeathed by Miss Rachel and Miss Jean Alexander 1972 http://www.tate.org.uk/art/work/T01571

Estranha-se o afastamento de um grupo que ajudámos a criar. Deslizam as sombras por carris distintos. Culpas? Responsabilidades? Apenas a bifurcação de vontades. E a náusea da viagem. Com as vértebras a tocar um nocturno.

Frédéric Chopin. Nocturne in E-flat major, Op. 9, No. 2. Played by Vadim Chaimovich.

A valsa das flores

Claude Monet. Water Lilies. 1914.

Cinquenta e cinco primaveras. Uma “Valsa da Primavera”, do Frédéric Chopin, vinha a propósito, mas a música é, afinal, de Paul de Senneville (Mariage d’Amour, 1979). Existem, porém, muitas páginas na Internet a apresentar a música como sendo de Chopin. Uma dessas páginas tem mais de 84 milhões de visualizações. A Internet também (se) engana!

Paul de Senneville compôs vários sucessos. Por exemplo, a Ballade pour Adeline (1977) e a Song of Ocarina (1991). Revisito uma música que brilhou e invernou: Dolannes Melodie (1975).

Paul de Senneville. Mariage d’Amour. 1979.
Paul de Senneville & O. Toussain. Dolannes Melodie. 1975. Intérprete : Jean-Claude Borelly.

Humor e ternura

Picasso. Mother and sun, ca 1904

Picasso. Mother and son, c. 1904

Humor com ternura é uma combinação abençoada.

Raymond Peynet (1908-1999), desenhador humorístico francês, ficou célebre graças às suas séries com pares de namorados (amoureux).

Para acompanhar a galeria de imagens, um pequeno trecho, Mother’s Journey, de Frédéric Chopin.

Frédéric Chopin. Mother’s Journey.

Desenhos de Raymond Peynet