A minha geração
O anúncio Pilot da Blu é digno de partilha: imagens soberbas, paródia inspirada e a habitual surpresa final. Num mundo ambíguo, conduzir manadas continua a exigir perícia; mas o cavalo é, agora, um helicóptero e o cowboy, uma cowgirl. O anúncio “Pilot” apresenta-se como uma réplica, no feminino, do “mundo Marlboro”, “um lugar onde a liberdade corre sem limites” ( ver anúncio Marlboro). Blu, por seu turno, “representa o indivíduo”:
“It’s hard to be yourself in a world that’s constantly trying to make you into someone else. It’s easy to slip and find yourself marching to the beat of someone else’s drum. blu stands for the individual. Whoever you are, however you want to express it, that’s okay. As long as you’re being true to you.”
Em tempo de cavalos mecânicos, o cigarro já não é o que era, é electrónico. Mas tu deves ser verdadeiramente tu. Um cavalo azulado, como os cavalos de Franz Marc!
O anúncio “Pilot” parece piscar o olho à minha geração (ver The Who, My Generation, 1965), que não sei se conduz a manada, se é cavaleiro ou cavalgadura, se Don Quixote cansado. Num aspecto concordo com o anúncio: quando a minha geração tirar a máscara, surgirá um rosto de mulher. A minha geração tem outra história: aquela que escreveram as mulheres.
A acompanhar, canção Cavalo à Solta, de Fernando Tordo. Porque sim!
Marca: Blu. Título: Pilot – Just you & Blu. Agência: The Corner. Direcção: Romain Gavras. Reino Unido, 2016.
Fernando Tordo. Cavalo à Solta. Poema de Ary dos Santos. 1971.
A aceleração da morte
“Tarde, cerca da meia-noite, guiado pela juventude
Que comanda os enamorados, ia ver a minha amante.
Completamente só, além do Loire, e passando por um desvio
Aproximando-me de uma grande cruz numa encruzilhada,
Oiço, parecia-me, uma caça cheia de latidos
De cães que me seguiam, passo a passo, o rastro;
Vi perto de mim, sobre um grande cavalo negro,
Um homem que só tinha os ossos, ao vê-lo,
Estende-me uma mão para me montar na garupa.”(Ronsard, Pierre de (1524-1585), Oeuvres complètes de Pierre Ronsart, Paris, P. Janet,1857-1867, pp. 134-135. Tradução minha, AG).
Anunciante: Rail Safety. Título: Horsepower. Agência: Marketforce Perth. Austrália, Agosto 2011.
O anúncio Horsepower, da Rail Safety, é um concentrado de símbolos e emoções. O galope é avassalador e imparável. Galopam os cavalos e galopa o anúncio. Galopam, ainda, o coração e a imaginação. O esquartejamento e barba sugerem as trevas medievais. As correntes metálicas e a carroçaria do comboio são frias e mortíferas. Os mitos associam os cavalos à morte, nomeadamente quando são negros como o cavalo que guia a manada. O final, em plena velocidade, sobressalta o espectador: um arrepio de quem sente passar a morte! Ameaçado entre potências, o ser humano descobre-se frágil, tão frágil como o viajante de Pierre Ronsart.
“Os cavalos da morte são, na maioria, negros, como Charos, Deus da morte dos Gregos modernos. Negros são também, na maioria das vezes, os corcéis da morte, cuja cavalgada infernal perseguiu durante muito tempo os viajantes perdidos, na França assim como em toda a cristandade (Chevalier, Jean & Gheerbrant, Alain, Dictionnaire des Symboles, Paris, Ed. Robert Laffont, 1969, p. 226).
O ceptro e a consola

“O meu reino por um cavalo”
(William Shakespeare, Ricardo III)
Gonzalo Torrente Ballester escreveu, inspirado em Filipe IV de Espanha, a Crónica do Rei Pasmado (1989). Pois o rei do anúncio da Playstation 4 troca o prazer pasmado da corte pela violência gloriosa de um cavalo digital. “Follow the king in his journey to find his greatness”. Com a devida imersão, a emoção não é um espectáculo mas uma demanda e uma conquista. O tédio é o inimigo do homem electrónico; o poder e a adrenalina, o seu vício. O ceptro não é nada ao lado de uma consola. Quanto ao anúncio, pouco a dizer: como de costume, a Sony galopa a caminho da perfeição.
A música de fundo é uma adaptação, ao jeito dos videojogos, da canção Sweet Dreams (Are Made of This) dos Eurythmics (1983). Para além do vídeo oficial da canção original, acrescento a versão grotesca de Marylin Manson (1995). Estas interpretações são tão diferentes que não perdem em aparecer juntas.
Marca: Playstation 4. Título: The King. Agência: BBH (New York). Direcção: Martin de Thurah. Estados Unidos, Novembro 2016.
Eurythmics. Sweet Dreams (Are Made of This). Sweet Dreams. 1983.
Marylin Manson. Sweet Dreams (Are Made of This). Smells Like Children. 1995.
Os cavalos também riem
“Os cavalos também se abatem” é o título de um filme de Sydney Pollak (1969), a partir do romance homónimo de Horace McCoy (1935). Embora “o riso seja apanágio do homem” (François Rabelais), os cavalos também riem. Por exemplo, o Jolly Jumper, do Lucky Luke. Os anúncios abrem-se cada vez mais ao disparate. A promoção do produto processa-se através do desvio. Um desvio impregnado de imaginação. Os cavalos riem, rebolam-se no chão. Riem de um condutor que não consegue estacionar. Este é o caudal do anúncio. Outro condutor consegue estacionar graças ao dispositivo de reboque do Volkswagen Tiguan. Esta é a foz em que desagua o anúncio.
Os cavalos riem! Mas, a crer neste anúncio, não riem de tudo. “Rir de tudo o que se faz ou diz é estúpido, não rir de nada é imbecil” (Erasmo). Bem-aventurados os cavalos: “a faculdade de rir às gargalhadas é sinal de uma alma excelente” (Jean Cocteau).
Os cavalos riem! Os burros mordem.
Marca: Volkswagen. Título: Laughing horses. Agência: Grabarz & Partners. Direcção: Bart Timmer. Alemanha, Setembro 2016.
A galope sobre esquis
Há anúncios que sabem esperar. Este é sublime, com imagens magníficas que alternam fragmentos inquietos e paisagens imponentes. Um épico com um cavalo e um paladino sobre esquis. Com a qualidade Canon.
Marca: Canon. Título: Skijoring – Come and see. Agência: JWT London. Direcção: Marcus Soderland. UK, Novembro 2015.
Cosméticos
Não basta “encher os olhos”, importa regalá-los. E desintelectualizar. Este anúncio da L’Oréal, dirigido por Bruno Aveillan, lembra outro mais antigo da OPI (2012). Ambos franceses, a marcas de cosméticos, centrados na cor, cada um com o seu esquema de sedução: a fragmentação sensual e um repto de dança a um cavalo, “animal das trevas e do poder mágico”, símbolo “da impetuosidade do desejo” (Chevalier, Jean & Gheerbrant, Alain, Dictionnaire des Symboles, Paris, Robbert Laffont/Jupiter, 1982, p. 223).
Marca: L’Oréal. Título: Color Rich. Agência: McCann. Direcção: Bruno Aveillan. França, Março 2015. Música original: Raphaël Ibanez de Garayo.
Marca: OPI. Título: Instinct of Color. Agência: DAN Paris. Direcção: Hans Emanuel. França, Outubro 2012.
Um carro e um cavalo
Potência, prazer e movimento. Entre curvas e rugosidades, como as estradas de montanha. Um arado sulca o solo à velocidade de um relâmpago. Muitos anúncios de automóveis seguem este cânone. O cavalo é o grande símbolo e a masculinidade a nota dominante. Os anúncios que seguem não destoam. São variações do mesmo cânone, variações que, como se sabe, podem ser mais originais do que o original.
Marca: Mazda 6. Título: Inspired by motion. Agência: Agência: Cosmo. Direção: Filip Tellander. Suécia, 2013.
Marca: Audi. Título: Desert Run. Direção: Filip Tellander (?). 2013.
Cavalos empinados
Vai por aí um acusatório “público” por causa do novo anúncio da PT (http://tendimag.com/2012/04/04/fibra/). A música, os efeitos de contraluz, a câmara lenta e o cavalo empinado teriam inspiração noutros anúncios. Que saiba a câmara lenta já tem barba de todos os tamanhos feitios. Mas não discuto. Intriga-me o pormenor do cavalo empinado. Porquê ir repescá-lo a um vídeo musical francês? Há tantas hipóteses de intertextualidade, uma forma de citar mais positiva, por esse mundo fora. Porque não a banda desenhada? Quem não se lembra do Tornado do Zorro, do Silver do Lone Ranger ou do Trigger de Roy Rodgers? Tudo empinanços da nossa meninice que tão bem casam com as sequências do arco e da flecha e da dança final….
- Zorro
- Roy Rodgers
- JacquesLouis David. Napoleon crossing the Alps.1801
- Retrato equestre de Felipe III. Diego Velázquez.1628-34
- Arte equestre. Príncipe D. João (VI). Desenho de Joaquim Carneiro da Silva.j Séc. XIX
Porque não recorrer ao mundo das artes circenses e equestres tão pródigas em cavalos em posição bípede? Ou, simplesmente, ao mundo da arte? “Napoleão a atravessar os Alpes”, de Jacques-Louis David (1801), “Filipe III a cavalo”, de Diego Velásquez (1634-35), ou o Príncipe João VI de cavalo empinado, desenhado por Joaquim Carneiro da Silva (séc. XIX).
Por este andar, até parece que não há sede em Portugal que não beba no estrangeiro! Há dias em que o que apetece é dar uma volta de Ferrari sem olhar para o símbolo. Em suma, o cavalo empinado é uma figura vulgaríssima. Fazer desta figura uma obra de arte, eis a questão. Todo este acusatório teve uma virtude: dar a conhecer o excelente vídeo musical dos WoodKid, bem como os belos anúncios da Red Bull e da Nokia Lumia.
Grupo: WoodKid. Título: Iron. Direção: Yoann Lemoine. 2011.
Marca: Red Bull. Título: Signature Series. Agência: Other Films. Direção: Scott Duncan. EUA, Janeiro 2012.
Marca: Nokia Lumia. Título: The amazing calls. Agência: Buzzman. Direção: Swiss Kiss/Julien Rocher. França, 2011.
Fibra
Estética apurada, slow motion q.b., sem palavras, mas com música assombrosa, assim se faz um bom anúncio português. No País, este anúncio é mais do que conhecido. Fica, porém, o registo.
Marca: PT. Título: 4G. Agência: MSTF Partners. Direção: José Pedro Sousa. Produtora: Ministério dos Filmes. Portugal, Março de 2012.










