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Voar com asas de sal

Ontem, dia 5 de Abril, apresentei uma comunicação, “Jogos de espelhos entre emigrantes e residentes, em Monção, no Colóquio “Emigração para França na década de 60”, organizado pela Mulher Migrante – Associação de Estudo, Cooperação e Solidariedade (AMM). Há 25 anos que não investigo sobre a emigração. Desde então o pouco que escrevi releva do restolho e do resíduo. Levava, porém, no bolso dois assuntos marginais a abordar se se proporcionasse. Não foi o caso. Regressaram, carinhosamente, tão secretos como partiram. Mas já é tempo de os desembolsar e colocar no Tendências do Imaginário, o meu repositório de ideias pardas.

A expressão “viúvas de vivos” tornou-se numa palavra mestre. Ilumina e obscurece, como todas as palavras mestre. Nas décadas de 50, os portugueses emigraram em massa, mormente para França. A crónica falta de gente no País. Mas, nos primeiros tempos, faltaram sobretudo homens. E as companheiras, por vezes vestidas de negro, arcaram com a responsabilidade, e o trabalho, da “casa”, da família, dos filhos, das propriedades, da agricultura… Se, ao partir, os emigrantes foram uns “heróis”, ao ficar, as mulheres foram umas “heroínas”. Mas, para além das casadas, sobraram, também, as solteiras, que detêm a sua parte na história. Faltavam, de facto, mancebos na comunidade. Em 1981, apesar da correcção decorrente da emigração feminina massiva a partir de meados dos anos 60, a curva de masculinidade ainda acusa o desequilíbrio nas idades “mais férteis”. Em Melgaço, entre os 25 e os 35 anos, havia cerca de 40 homens para 100 mulheres (Gráfico 1).

Gráfico 1. Curva de masculinidade. Melgaço, 1981.

O quadro 1 evidencia a disparidade da incidência da emigração em função do género. Segundo um inquérito, dos 866 entrevistados com mais de 60 anos residentes em Melgaço, 72,9% dos homens, contra 10,8% das mulheres, foram emigrantes. A distância acentua-se nas freguesias da montanha (Alto Mouro): 90,5% contra 9.5%.

Este desequilíbrio na relação de masculinidade tem consequências na vida das pessoas. Na minha infância, nas noites mais amenas, após o jantar, as mais jovens costumavam passear em grupo. Se a memória não me engana, compunham bouquets de seis e mais moças. Caminhavam sós ou acompanhadas por um rapaz, porventura, o sobrinho do padre. Cava-se uma falha no mercado matrimonial. É certo que os homens não desaparecem. Estão, apenas, longe. Mas, antes das trombetas da globalização, já era possível estar-se longe e perto. “Presente ausente”.

Nas freguesias de montanha, onde não era hábito a mulher emigrar, as solteiras preparavam-se durante o ano para os encontros estivais. Durante as férias de verão, processa-se uma concentração e uma aceleração do mercado matrimonial. Esta efervescência da “escolha do cônjuge” beneficiava da profusão de festas, eventos, casamentos, baptizados, passeios e idas a banhos. Organizavam-se, inclusivamente, bailes em caves improvisadas. Findo “o querido mês de Agosto”, casados, comprometidos ou livres, os homens repartiam e as mulheres ficavam.

Apesar da proximidade da lonjura e dos calores de verão, algum desequilíbrio teimava em persistir na repartição por sexo. Estou convencido que este desequilíbrio contrariou a propensão para a homogamia: os operários casam com operárias, os professores com professoras… Propiciou, extraordinariamente, num lugar por um tempo, alguma exogamia: o aumento de casamentos fora da classe.

Creio que estes temas ganhariam em ser estudados. A informação talvez não esteja na Internet. Vai todos os dias ao cemitério e não volta.

Este é um dos dois apontamentos. Guardo o segundo para mais tarde. Acrescento duas canções. Uma francesa que costuma cantar em inglês canta francês e uma brasileira canta espanhol. Acompanharam a escrita do artigo, não têm por que se despedir dele.

Simone. Procuro olvidarte. Bésame. 1991.
Charlotte Gainsbourg. L’un part, l’autre reste. L’Un reste, l?Autre part. 2005.

Inversão de papéis

Aruba

“Aruba es uno de los destinos más románticos del caribe. #HeSaidYes es una iniciativa de la Isla Feliz que invita a las mujeres a cambiar los roles del amor”.

Trata-se de uma inversão dos papéis de género num gesto densamente simbólico: o pedido de casamento. Um anúncio polémico? Sinais dos tempos? Crítica de clichés? Pequenos passos a caminho de grandes mudanças?

Ressalvando o Mamma Mia, o pedido de casamento é um ritual em vias de esvaziamento social e simbólico. Ainda do meu tempo, a família do futuro noivo deslocava-se a casa da futura noiva para pedir a sua mão. Algumas décadas atrás, negociavam-se os dotes e os contratos de casamento. Há alguns séculos, a comitiva da prometida deslocava-se em coche durante dias e dias para ir ao encontro do prometido. Quanto às novas gerações, vai chegar a altura em que um sms basta (ou talvez não).

Ao visionar o anúncio, insinua-se uma dúvida: quem influencia a escolha dos destinos turísticos? Ele? Ela? Ambos? Os filhos? Pelos vistos, elas são as mais influentes na escolha dos paraísos terrestres, como a ilha Feliz, em Aruba.

Marca: Isla de Aruba. Título: #HeSaidYes. Agência: Mullen Lowe Bogotá. Colômbia, Agosto 2018.

Saudades! Saudades de quê? De pedidos de casamento como o do anúncio Marry Me, da Siemens.

Marca: Siemens. Título: Marry me. 2006.

 

Sexualidades

Magnum ceremony

Uma cerimónia esplendorosa! Com este balanço, todos os passos vão dar ao altar. A “surpresa” concede mais brilho ao caminho. A homossexualidade, ver o mundo LGBT, tornou-se tema destacado da publicidade actual. Depois da Diesel (https://tendimag.com/2017/02/21/um-buraco-no-muro/), da Nike (Vídeo 2), da SJ Swedish Railways (https://wordpress.com/post/tendimag.com/31215) ou da Coca-Cola (Vídeo 3), a Magnum sustenta a diversidade da sexualidade e do amor. Ao primeiro anúncio, podia-se pensar num capricho de uma grande marca; afinal, deve ser investimento. O tema vende junto dos públicos alvo!

Marca: Magnum. Título: Ceremony. Agência: LOLA MullenLowe. Direcção: Martin Werner. Espanha, Março 2017.

Marca: Nike. Título: We believe in the power of love. Direcção: Luca Finotti. Internacional, Feveiro 2017.

Marca: Coca-Cola. Título: Pool Boy. Agência: Santo (Buenos Aires). Argentina. Março 2017.

 

Partilha

Jan Van Eick. O casal  Arnolfini. 1434

Jan Van Eick. O casal Arnolfini. 1434

“O casamento faz de duas pessoas uma só, difícil é determinar qual será” (William Shakespeare). Desta vez tenho as minhas reservas quanto ao pensamento de Shakespeare: o casamento é partilha, de longa duração.

Marca: Thierry Mugler. Título: The Angel Effect. Agência: Moxie. Direcção: Rémi Devouassoud. França, 2014.

Megabytes de amor

ikea-wedding-online

Celebram-se casamentos online. Falta consumar também o matrimónio através da Internet.
A descendência não virá com as cegonhas mas por upload.

IKEA Sweden is launching an online service where people can get married via a webservice. The new service is particularly helpful for people who live abroad or have friends and family living in other countries.
The best sort of love is easy and effortless. And promising one another eternal devotion at a wedding should be just as simple. That is why IKEA Sweden have created a new type of wedding that is neither expensive nor complicated.
IKEA is always striving to find simple solutions for our everyday lives. At Wedding Online the love couple can invite guests and a wedding officiator via a video link. The guests and the couple gather online in several scenic environments where they can see and hear people present in real time.

Marca: IKEA. Título: Wedding Online. Agência: Akestam Holst, Stockholm. Suécia, Abril de 2010.

Sociologia sem palavras. Amor

Buster Keaton. One Week. 1920

Mais um episódio da série Sociologia sem palavras, um vício dominical. Buster Keaton, o Pamplinas, é o convidado, com uma sequência extraída do filme One Week (1920). Quem casa quer casa. Aos recém-casados não faltam problemas, mas o amor tudo resolve.

Sociologia sem palavras. Episódio 7. Amor.

A vara do noivo

01 Casamento da Virgem Maria. Livro de Horas de Giangaleazzo Visconti, c. 1380. Por Giovanni de’Grassi.

Casamento da Virgem Maria. Livro de Horas de Giangaleazzo Visconti, c. 1380. Por Giovanni de’Grassi.

Mal me sentei à secretária, uma voz interpela-me: – Está na hora de dedicares um artigo ao casamento.

A minha pesquisa de imagens tem três velocidades: rápida, lenta e ultralenta. A maioria quase nem as enquadro. Outras deixam-me, porém, congelado, pasmado, absorto em configurações e pormenores. Foi o caso desta iluminura do Casamento da Virgem Maria, incluída no magnífico Livro de Horas de Giangaleazzo Visconti (c. 1380).

Bernardo Daddi. Casamento da Virgem. Políptico de San Pancrazio. 1335-40.

Bernardo Daddi. Casamento da Virgem. Políptico de San Pancrazio. 1335-40.

José e Maria casam-se à moda medieval. A cerimónia culmina no momento em que os noivos se dão a mão direita. Os homens, à direita, estão separados das mulheres, à esquerda. Esta segregação por género nos ofícios religiosos ainda era prática corrente na minha infância. O que me intriga é que cada homem segure uma vara, e que alguns se empenhem em a partir. A vara de José tem uma pomba.

Como entender este protagonismo das varas? Esta iluminura é um caso isolado? Corresponde a um ritual ou a uma crença? Nada como procurar, navegando entre  textos e imagens.

Casamento de Maria. Notre Dame des Fontaines. França. Fim séc. XV.

Casamento de Maria. Notre Dame des Fontaines. França. Fim séc. XV.

As varas aparecem em várias pinturas, todas alusivas ao casamento da Virgem.

No Políptico de San Pancrazio (Uffizi, 1335-40) e na Igreja de Notre Dame des Fontaines (França, fim do séc. XV) os homens, pouco atentos à cerimónia, canalizam ostensivamente o descontentamento para as varas. No quadro de Rafael (1504), o ambiente é mais sereno. As varas estão, agora, bem alinhadas. Apenas um homem parte, compenetrado, a sua vara.

Rafael. Casamento da Virgem. 1504.

Rafael. Casamento da Virgem. 1504.

Foi fácil encontrar imagens, respeitantes ao casamento da Virgem, com homens munidos com varas. A iluminura do Livro de Horas de Visconti não é, portanto, um caso isolado. Captar o significado do conteúdo dessas imagens foi mais difícil. Nos rituais matrimoniais da Idade Média, nem um suspiro de indício. Estive para desistir. Como a raposa das uvas, perguntava-me: que te interessam as varas do casamento da Virgem? Mas lá acabei por atracar em porto abençoado: uma página da internet do Centre de Recherche sur la Canne et le Bâton.

Em artigo intitulado A Vara anuncia casamento de José e Maria, Laurent Bastard escreve (minha tradução):

“Até ao Concílio de Trento, no século XVI, circulavam na Cristandade os Evangelhos apócrifos, ou seja, não oficiais, para além dos de Mateus, Lucas, Marco e João. Os artistas da Idade Média foram aí buscar muitos dos detalhes reproduzidos na pedra. Naquele que é conhecido por “Proto-evangelho de Tiago” (porque relata acontecimentos anteriores aos dos quatro evangelhos), datado do século II, descobre-se um rito associado às varas e à intervenção divina.

Giotto di Bondone. Capela Scrovegni . Pádua. A entrega das varas no templo. 1305.

Giotto di Bondone. Capela Scrovegni . Pádua. A entrega das varas no templo. 1305.

Eis o texto em que é questão encontrar um esposo para Maria: “O padre vestiu o hábito com doze pequenas campainhas, penetrou no Santo dos Santos e pôs-se a rezar. Eis que um anjo do Senhor apareceu dizendo: “Zacarias, Zacarias, sai e convoca os viúvos do povo. Que cada um traga uma vara. E aquele a quem o Senhor mostrar um sinal a tomará como esposa.” (…) José pousou o seu machado e foi juntar-se ao grupo. Aproximaram-se, em conjunto, com as respectivas varas, do padre. O padre pegou nas varas, entrou no templo e rezou. Acabada a oração, retomou as varas, saiu e devolveu-as. Nenhuma apresentava qualquer sinal. Ora, José recebeu a sua em último lugar. E eis que uma pomba levanta voo da sua vara e pousa na sua cabeça. Então o padre: “José, José, disse, tu és o eleito, és tu quem tomará conta da virgem do Senhor” (http://www.crcb.org/la-baguette-annonce-le-mariage-de-joseph-et-marie/.html).

Giotto di Bondone. Capela Scrovegni . Pádua. Casamento da Virgem. 1305.

Giotto di Bondone. Capela Scrovegni . Pádua. Casamento da Virgem. 1305.

Dois quadros de Giotto ilustram perfeitamente esta passagem do evangelho apócrifo de Tiago. No primeiro, um grupo de homens, cada um com sua vara, entra no templo. No segundo, José e Maria casam-se. Os homens preteridos não escondem a desilusão. Na vara de José, a pomba está prestes a levantar voo. Missão cumprida.

A Dança da Vida

Um + Um = Quatro ou cinco. “O amor é quando o silêncio não pesa” (Fernando Namora). “O amor é quando a gente mora um no outro” (Mário Quintana). O amor são vinte e tantos anos de estar juntos.

Marc Chagall. Over the town. 1918

Marc Chagall. Over the town. 1918

Marc Chagall. Le Champs de Mars. 1954.

Marc Chagall. Le Champs de Mars. 1954.