Arcanjos e anjos da guarda
Arcanjos, anjos da guarda, anjos caídos e anjos papudos… Não gosto de nenhuns, especialmente dos arcanjos e dos anjos da guarda, tão empenhados em nos salvar. Na publicidade, os arcanjos estão em voga: fundações e institutos públicos zelam por nós.
Neste prenúncio de um suposto novo Apocalipse, à Peste, à Guerra, à Fome e à Morte, acrescentam-se a soda, o álcool, o tabaco, o sexo, a circulação rodoviária e a obesidade. Os arcanjos e os anjos da guarda reforçam-se com a multiplicação de estudos e campanhas. Pretendem salvar-nos de nós próprios (expressão funesta na história da humanidade). Mas a batalha é incerta e as vitórias, frouxas.Não faltam, porém, recursos e argumentos:
– hinos e cânticos
– Imagens chocantes;
– intrusão na intimidade alheia;
– discriminação, estigmatização e culpabilização;
– exibição de monstruosidades;
– banalização da censura;
– suporte da lei e da ordem;
– profecia (vai ter uma morte lenta e dolorosa);
– ciência, medicina e estatísticas;
– pragas e ameaças (se continuar, vai ter várias mortes).
Em suma, a arte da lixívia na qualidade de vida e na limpeza civilizacional.
Anunciante: Center for Science in The Public Interest TV. Título: Change de Tune. Agência: Lumenati. USA, Junho 2015.
O anúncio Change the Tune, do CSPI TV (Center for Science in the Public Interest TV) foi publicado a semana passada. No que respeita às bebidas com soda, parece ter chegado a hora de mudar o disco. Este anúncio assemelha-se ao anúncio Unsweetened Truth, da American Legacy Foundation / Truth, de 2011. Ambos os anúncios são muito bons, no género, e recorrem a testemunhos presenciais de vítimas, demarcando-se de anúncios de sensibilização que optam pela alegoria ou pela animação (eg, as campanhas de prevenção da sida). A espetacularização das vítimas (desfile, coro), corre o risco de transformar pessoas reais em bonecos imaginados. Georg Simmel e György Lukacs chamam reificação a este fenómeno. Numa sociedade de espectáculo global, também se podia chamar, com alguma irreverência, muppetsation.
Anunciante: America Legacy Foundation/Truth. Título: Unsweetened Truth, Agência: Arnold, Boston. Direcção: Baker Smith. USA, Março 2011.
Tansomania
Na Idade Média, sobretudo a partir do século XIII, multiplicam-se, nas margens dos manuscritos, ilustrações alusivas a provérbios e anedotas. Lilian M. C. Randall sustenta que a maior parte destas imagens corresponde a exempla, tópicos de apoio à argumentação dos pregadores:
“Preaching in the vernacular, the Franciscans and, to an even greater extent, the Dominicans embellished their sermons with anecdotes, termed exempla. Intended to illustrate the doctrine in terms readily comprehensible to the general public, they were drawn from a host of literary sources as well as from popular tradition and contemporary events” (http://www.tepotech.com/Art_Bulletin/1957392JunRandall.pdf).
Cedendo ao anacronismo, estas iluminuras funcionariam como uma espécie de post-it da retórica e do imaginário medievais. Os livros de horas, os manuscritos de oração mais correntes, pertenciam a famílias. Destinavam-se à oração recatada. As ilustrações, mais do que exemplos, proporcionavam um deleite pessoal, associado ao prazer da imagem.
O Geese Book (Nuremberga, Alemanha, 1503-510) é um livro, em dois volumes, com música litúrgica. Na figura 1, na margem inferior (Volume I – fol. 186r), um coro de gansos, dirigido por um lobo, é cobiçado por uma raposa (ver detalhe na figura 2). Este exemplo manifesta-se intemporal: os tansos, ingénuos, colocam-se entre os dentes do lobo e a boca da raposa, à mercê do poder e da astúcia. A esta propensão, passo a chamar tansomania.
Segue o cântico correspondente ao trecho com a imagem dos gansos (fol 186r):
Mass for ascension. Introitus Viri Galilei. The Geese Book. German Medieval Chant by Laszlo Dobszay, Janka Szendrei; Schola Hungarica. 2005


