Aleluia
Em qualquer lugar, seja qual for o solo pisado, os pés e os sapatos merecem ser louvados. Resgatemo-los e cuidemos deles! [ver Da excelência dos pés, 06.06.2021].
As botas do gato

São as botas do gato mais importantes do que o gato das botas?
Com um humor oriundo do Québec, manifesta-se surpreendente o delírio grotesco do anúncio The Fall Of Your Dreams, da Brown Shoes.
Imagem: Gustave Doré. O Gato das Botas. 1862
Dois dedos acima da lama
Tenho-me distraído à procura de documentação sobre a música e as danças mouriscas. Encontrei no livro Trachtenbuch (c. 1530), de Christoph Weiditz, uma série de gravuras, retratando mouriscos (ver Figuras 1 e 2). Mas o que cativou o olhar foram os socos (patten), partes de calçado relativamente elevadas sobre as quais se colocavam os sapatos. Lembram os patins. Os socos protegiam os sapatos, frágeis e caros, da lama e dos detritos das ruas. Outro uso fazia a nobreza, mais estético e estatutário. Em casos extremos, os socos eram tão altos que a pessoa não conseguia andar sem apoio (ver Figuras 4). Conhecia o uso medieval dos socos. Desconhecia estas ilustrações.

Fig 02. Mourisco transportando pão. Trachtenbuch, de Christoph Weidiz. 1530s.
Os socos (patten) subsistiram pelo menos até ao século XIX. Vários pintores os incluíram nas suas obras. Por exemplo, Albrecht Durer, Hans Memling e Hieronymus Bosch. No quadro O Casal Arnolfini, de Jan Van Eick, aparecem, nítidos, no canto inferior esquerdo (ver imagem do quadro em alta resolução: 3087×4226) .
Galeria de Imagens
Geração ultraleve
A publicidade “bate leve, levemente, como quem chama por mim”. A leveza é o maná da travessia contemporânea. Até o calçado se quer mais leve do que as botas do gato do conto de Charles Perrault, que sugere que a mentira pode ser compensadora e a pequenez, fatal:
“O gato continuava a correr à frente da carruagem. Atravessando um espesso bosque, chegou à porta de um magnífico palácio, no qual vivia um ogro muito malvado que era o verdadeiro dono dos campos semeados. O gatinho bateu à porta e disse ao ogro, que a abriu:
– Meu querido ogro, tenho ouvido por aí umas histórias a teu respeito. Diz-me lá: é certo que te podes transformar no que quiseres?
– Certíssimo, respondeu o ogro, e transformou-se num leão.
– Isso não vale nada – disse o gatinho – Qualquer um pode inchar e aparecer maior do que realmente é. Toda a arte está em se tornar menor. Poderias, por exemplo, transformar-te em rato?
– É fácil, respondeu o ogro, e transformou-se num rato. O gatinho deitou-lhe logo as unhas, comeu-o” (http://www.arazao.net/razao0509/pagina011.pdf).
Palpita-me que vamos ficar na História como a geração ultraleve.
Marca: UGG. Título: A Lighter Way to go. Agência: M&C Saatchi Los Angeles. USA, Março 2015.



