Sileno, o vinho e o burro
Não é apenas nas festas medievais ou durante a Bugiada de Sobrado que o burro é montado às avessas. Sileno, semideus, o mais velho dos sátiros, faz-se acompanhar por um burro. Constantemente ébrio, Sileno foi tutor de Dionísio, a quem passou a paixão pelo vinho. A sabedoria de Sileno reside na sua ebriedade. É sábio por não estar sóbrio. Cumpre ao burro aguentar esta carga obesa e periclitante. A posição mais típica de Sileno em cima do burro é às arrecuas. Montar um burro às avessas condiz com a figura de um semideus que se entrega ao vinho e ao sexo, semeando a confusão e a desordem.
Sileno gostava de visitar o mundo dos homens, mas nunca falava com eles. Exceto uma vez. Tão bêbado estava, que se perdeu do grupo que o acompanhava. O rei Midas encontrou-o e desafiou-o a dizer o que era melhor para os homens. Sileno calou-se, como era seu costume. Não falava com os homens. Mas rei Midas tanto insistiu, que Sileno quebrou, por uma única vez, o silêncio:
“– Ignóbil raça, essa a dos homens, efêmeros rebentos do acaso e dos maus dias. Tão afastados estais da natureza que nem mesmo sabeis o que é melhor para vós próprios. Seres patéticos; e tu, filho de Górgias e Cibele, a quem chamam de Midas, Rei da Frígia, nada mais és senão fiel representante desta raça. Não há dúvida, estás a altura dela. Não vês? Por quais tolas razões queres saber algo que para ti é inalcançável? O que é o melhor para os homens, tu me perguntas. Creia-me, para ti, melhor mesmo seria não sabê-lo. Porém, como estás obstinado, revelar-te-ei o que não precisas para te manteres são. O melhor para ti seria não teres vindo à luz, não teres nascido. Não ser, ser nada, isto seria o melhor para ti e para os demais da tua estirpe. Contudo, como hoje te encontras a distância do infinito de tal logro, resta-te ainda uma opção: agora, o melhor para ti é cedo morrer. Assim, retornarás a tua verdadeira condição pretérita, menor que o mínimo. “ (https://scribatus.wordpress.com/2013/08/24/sileno/).
O rei Midas deu abrigo a Sileno. Poucos dias depois, Dionísio vem buscar Sileno. Agradecido, diz a Midas para formular um desejo. O pedido foi que tudo o que tocasse se transformasse em ouro. Um presente envenenado. Mas essa já é outra história.
A crise chega aos animais do presépio
O Papa dispensou a vaca e o burro do presépio, não obstante tantos séculos de antiguidade e uma assiduidade irrepreensível. Logo no meio desta crise. Mas a vaca e o burro não baixam os braços. São animais pró-activos. Este anúncio da Opal conta toda a história. Carregar na imagem para aceder ao vídeo.
Anunciante: Opal. Título: Natal Vitae. Agência: Opal Publicidade, Porto. Direcção artística: Tiago Ribeiro e Gonçalo Santos. Portugal, Dezembro 2012.
O Burro e a Harpa
A figura do burro que toca harpa ou lira atravessa os tempos e as fronteiras. O burro harpista aparece já, acompanhado por um touro trompetista, numa gravura com mais de 3000 anos encontrada em Samaria, no Próximo Oriente (ver figura 1).
No início da era cristã, Fedro (14 AC- 50 DC.) escreve a seguinte fábula: uma rainha que não consegue ter filhos implora ajuda aos deuses. Acaba por dar à luz um burro. Criado e educado como um príncipe, Asinarius, assim o batizaram, adora a música e aprende a tocar lira. Um dia vê a sua imagem refletida num rio e, ao contrário de Narciso, horroriza-se. Foge para o fim do mundo, onde se apaixona por uma princesa. A fealdade é suplantada pelo brilho com que toca a lira. Casa com a princesa. E, lembrando a Bela e o Monstro, na noite de núpcias Asinarius despe a pele de burro e transforma-se num belo homem, herdando os dois reinos.

Fig 2. Petrus Comestor. Burro tocando harpa face a um caprino. Sermones. Angers, abbaye Saint Aubin. Início do séc. XIII.
A figura do burro tocador de harpa ou de lira tornou-se popular durante a Idade Média. Multiplica-se nas iluminuras (figura 2), bem como nos tímpanos (figura 3) e nos capitéis das igrejas (figura 4).
Mas a simbologia da imagem altera-se. O burro já não domina a arte da harpa. É, antes pelo contrário, um desajeitado, que, no tímpano da Igreja de Aulney, segura a lira ao contrário (figura 3). Já não é questão da humanidade da besta, mas da bestialidade do homem. A exemplo do burro, o homem é animal, corpo e carne. A carne é fraca, preguiçosa, pecaminosa. A música, sopro do sagrado, é espiritual. É pelo espírito, e não pela carne, que acedemos às maravilhas criadas por Deus.
Às vezes, cogitar na figura do burro músico pode provocar assombrações. Tanta referência teórica, tanta estratégia metodológica, tanta ferramenta técnica… e a harpa não toca! Falta de jeito? Falta de cordas?










