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A leste do Rubicão. Bob Dylan

Bob Dylan

Three miles north of purgatory / One step from the great beyond / I prayed to the cross, I kissed the girls / And I crossed the Rubicon (Bob Dylan, Crossing the Rubicon, 2020).

Deus criou o mundo. Ficou com o Paraíso, o Diabo, com o Inferno. Mais tarde, Deus inventou o Purgatório, para transição das almas em penitência. A gestão da purga e das penitências ficou a cargo de uma agência especializada.

 O além começa aqui. Jean-Paul Sartre afirma que o “inferno são os outros”, pode acrescentar-se que “o purgatório somos nós”. Já ninguém se banha no rio Rubicão.

Bob Dylan. Crossing the Rubicon. Rough and Rowdy Ways. 2020.
Bob Dylan. Hurricane. Desire. 1976.

Agarrar o vento

Tenho duas dúzias de reis magos em casa. Dá para poucas escapadelas. Sou perito: deixo-me descair na cadeira e passo por baixo do tapete. Ninguém dá pela minha falta. A invisibilidade é crucial: o protagonismo é fatal às escapadelas. Sem tempo, resolvo escolher um álbum à sorte. Sai o Donovan’s Greatist Hits (1969). Donovan foi um compositor e cantor de sucesso, sobretudo, nos anos sessenta. Pertence à geração Bob Dylan, Velvet Underground e The Doors. Donovan foi amigo de um meu amigo, em Paris.

Um dos reis magos veio de Angola. Fomos fumar, à espera da estrela. Tive uma sensação de estranheza: o Marlboro dele não tinha cenas eventualmente chocantes. Em África, os profetas da desgraça devem ter outras preocupações. Segunda estranheza: o preço de um Marlboro em Angola é 1:20 euros. Em Portugal, ascende a 5 euros! Inspeccionei: a única diferença reside nas imagens eventualmente chocantes. Devem ser muito caras!

Donovan. Catch the wind (1966). Donovan’s Greatist Hits (1969).
Donovan. Season of the Witch (1966). Donovan’s Greatist Hits (1969).
Donovan. The Hurdy Gurdy Man (1968). Donovan’s Greatist Hits (1969).

A resposta está no fundo

NBFF

A resposta, meu amigo, não está no vento, está no fundo! Perto do museu de cera dos esqueletos. Tu, que vagueias à deriva, não desperdices garrafas. A resposta está no fundo, junto ao cemitério da ambição humana.

Bob Dylan escreveu, em 1962, a canção “Blowing in the wind”, publicada em 1963 no álbum Free Wheelin’. No mesmo ano, surge uma versão cantada pelos Peter, Paul & Mary. Um prémio Nobel dispensa uma micro divulgação; Peter, Paul & Mary talvez sim, talvez não.

Marca: 2017 NBFF. Título: Go Deeper. Agência: RPA. Direcção: Jed Hathaway. USA, Abril 2017.

Peter, Paul & Mary. Blowing in the wind. In the Wind. 1963. Ao vivo em 1965.

Não vale a pena uivar à lua

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Creio que devíamos salivar menos perante os símbolos. A distância e o tempo ajudam o entendimento. Convém reflectir em vez de sobre-reagir. Não vale a pena uivar à lua (Albertino Gonçalves).

Realizador: John Bashyan. Título: The night the moon fell. Produção: Tom Leach. 2016.

Jejuemos de anúncios. É a vez de uma curta-metragem e de três vídeos musicais. Tudo lunar. O vídeo é amoroso, como costumam ser as animações com crianças, mas a lua entendeu ser desmancha-prazeres. Moral: não faças cócegas à lua a não ser que estejas por cima. As três canções são tesourinhos de vinil. Na canção do Zeca Afonso, 400 bruxas esperam a lua cheia. Em Portugal, Angelo Branduardi sempre foi o meu segredo isolado. Bob Dylan publicou o álbum Self Portrait em 1970. Um insucesso muito criticado. A maioria das canções são covers e Bob Dylan canta de um modo inesperado. É esse modo inesperado que me cativa no cover Blue Moon.

José Afonso. A Ronda das Mafarricas. Cantigas de Maio. 1971.

Angelo Branduardi. La Luna. La Luna. 1975.

Bob Dylan. Blue Moon. Self Portrait. 1970.

A última Valsa

lastwaltzDuas teses para ler: uma de mestrado (207 páginas) para defesa segunda, dia 03; outra, de doutoramento (410 página) para defesa terça, dia 04. Um fim-de-semana edificante. Para compensar, costumo recorrer à música. Hoje, é a vez do concerto de despedida dos The Band, em 1976, filmado por Martin Scorsese em The Last Waltz (1978). Interpretam I Shall Be Released (do album Music from big pink, de 1968) Bob Dylan, Ronnie Hawkins, Neil Young, Neil Diamond, Eric Clapton, Van Morrison, Joni Mitchell, Ringo Starr, Ronnie Wood…

The Band, I Shall Be Released, The Last Waltz, Martin Scorsese, 1976/1978.

Cavalos cansados

Bob Dylan. Self PortraitDe vez em quando, um álbum antigo de Bob Dylan insiste em me dar um sorriso: Self Portrait (1970), um vinil duplo de edição holandesa. É disco estranho. Começa com um coro, All the tired horses, e quase acaba (penúltima faixa) com outro coro (Wigwam). No primeiro, Bob Dylan não canta e nota-se a diferença. Mas o que surpreende é a voz: na maioria das faixas, não parece ele a cantar. Quando saiu, este álbum foi duramente criticado. Fora do habitual, com demasiados covers e sonoridades incomuns, não correspondeu às expectativas.
Regressar à adolescência é, se calhar, um reflexo estúpido. Bob Dylan não faz anos. É certo que este álbum acaba de ser reeditado em caixa, com mais qualidade, novas versões e demais acessórios. Mas há memórias que são objectos e teimam em permanecer vivas. O Self Portrait do Bob Dylan foi um bom companheiro, num tempo em que pequenos nadas como este podiam significar opções de vida.

Bob Dylan. All the tired horses. Self Portrait. 1. 1970.

Bob Dylan. Wigwam. Self Portrait. 23. 1970