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À força de falar de amor, apaixonamo-nos

M.C. Escher. Bond of Union. 1956.

Uma versão antiga da “predição criadora”, de W.I. Thomas: “À força de falar de amor, apaixonamo-nos” (Blaise Pascal, Discours sur les passions de l’amour, 1652-1653).

Sou um algoritmo básico: resumo-me a duas sub-rotinas com contador infinito: quando penso, desaguo no Blaise Pascal: no que respeita à música, no Jacques Brel. Se quero pensar, penso com eles; se quero sentir, sinto com eles. São as duas pontas de Ariana do meu labirinto identitário. O resto é variação. Dizem que os olhos são as janelas da alma. Quando ouço Jacques Brel, fecho os olhos para franquear a entrada a anjos e demónios.

M.C. Escher. Circle Limit IV (Heaven and Hell). 1960.

Jacques Brel canta, como ninguém, a miséria humana. Tão bem que o ouvimos com prazer. Gosto de La ville s’endormait. Ne me quitte pas é universal. Coloco as versões estúdio e ao vivo, que, no caso de Jacques Brel, não se substituem. Uma voz e uma performance.

Jacques Brel. La ville s’endormait. Les marquises. 1977.
Jacques Brel. Ne me quitte pas. La valse à mille temps. 1959.
Jacques Brel. Ne me quitte pas. Ao vivo na Radio France. 1966.

Sucesso

Quino

“Encarrega-se os homens, desde a infância, do cuidado da sua honra, dos seus bens, amigos e ainda do bem e da honra dos seus amigos. Enchemo-nos com problemas, com a aprendizagem das línguas e com exercícios, e faz-se-lhes entender que não podem ser felizes sem que a sua saúde, honra, a fortuna e a dos amigos estejam em bom estado e que basta falhar uma só coisa para os tornar infelizes. Assim, atribuem-se-lhes cargos e questões que os inquietam desde o despontar do dia. Direis que esta é uma estranha maneira de os tornar felizes! Ora, o que se poderia fazer de melhor para os tornar infelizes” (Pascal, Pensamentos, Artigo XXI: Miséria do Homem).

Tenho um amigo que, desde os trinta anos, tem receio do sucesso. Produz, o melhor que sabe, livros, artigos, comunicações… Enterra-os como as tartarugas os ovos. Trinta anos depois, continua a evitar o sucesso. Nunca mo disse, mas creio que, para ele, o sucesso é coisa pouco saudável.

Nick Cave & The Bad Seeds. Faraway, So Close!. Filme Faraway, So Close. 1993.

O nariz de Cleópatra: o presente no passado

Não fosse a Dra. Aida Mata convidar-me para uma comunicação sobre a memória num encontro no Mosteiro de Tibães, este texto nunca teria sido escrito. Pouco se perdia!

Não vou falar do que me ensinaram, mas do que aprendi com a experiência. Na verdade, vou contar histórias.

Há trinta anos, costumava, durante as férias, entrevistar pessoas de idade. Tive, por exemplo, o prazer de entrevistar o tio M. Tinha, então, 99 anos e a mulher, 101. Contou um episódio da sua juventude: a organização da procissão do Enterro do Senhor. Uma canseira! Andou tanto a cavalo (estamos no início do século XX) que ganhou feridas no rabo. A procissão sai, com o caixão, de uma capela particular, circunda o cruzeiro e entra no largo com entroncamento para a igreja, onde aguarda uma multidão. Ouve-se um estrondo. O caixão abre e o pregador assoma aos gritos: “Que fizeste, levitas? Mataste o vosso irmão…”

No ano seguinte, domingo de Páscoa, passo pela casa do tio M. O ambiente é de consternação. O tio M. está prostrado com os olhos postos no teto. Sem reconsiderar, sento-me na cama, pego-lhe na mão e segredo-lhe ao ouvido: “Tio M., lembra-se da procissão do Enterro do Senhor?” O tio M. ergue-se, encosta-se à cabeceira e recita, em voz alta, o sermão da procissão do Enterro do Senhor. Qual não foi o espanto geral! Despedi-me sem demoras.

O poder da memória é incomensurável. Individual ou colectiva, a memória é uma potência mobilizadora no presente. É no presente que vive e surte efeito. E alastra-se ao futuro. « O futuro pertence àquele que tem a memória mais longa » (atribuído a Friedrich Nietzsche).

Tenho uma predilecção pelas entrevistas de grupo. Conversar com velhotes, num pátio com ramada, sentados à volta de uma mesa imaginária, gratifica o sociólogo. As entrevistas individuais tendem a ser mais axiais e mais pré-construídas. A vida desfia-se numa “ilusão biográfica” (Bourdieu Pierre. L’illusion biographique. In: Actes de la recherche en sciences sociales. Vol. 62-63, juin 1986). Importa que a palavra saia dos eixos da cristalização identitária. Isto é difícil de explicar, mas fácil de entender para quem recolhe relatos de vida. As entrevistas de grupo conjugam concentração e descentramento. Atardam-se em ambientes, processos, redes e interacções, numa espécie de deambulação de memórias e afectos. As entrevistas de grupo proporcionam, nos momentos felizes, uma “deslocação” no espaço e no tempo. Memória puxa memória, desejo acende desejo, gesto convida gesto, e eis o advento da alquimia: com o corpo no presente, mergulha-se no passado. Um retorno aberto, vivido e partilhado.

Miguel Torga descreve o fenómeno:

“Estávamos em Paris, o criado que nos servia falava francês, na ementa não figurava bacalhau, e o vinho era um Bordeaux qualquer. Mas nenhuma destas razões impediram que se realizasse o milagre que o nosso anfitrião certamente esperava. Depois das primeiras garfadas, a conversa tomou tal rumo e tal calor, que daí a nada tudo se passava como se o restaurante fosse uma tasca da Alta e vivêssemos nela uma hora coimbrã. Insensivelmente, todos se deixaram arrastar pela onda saudosista. O próprio Navarro, o mais relutante à tentação, acabou por não lhe resistir, a contar também, a evocar, a meter carvão na fornalha. Os episódios sucediam-se, cada qual o mais pitoresco ou irreverente, as guitarras gemiam, os rouxinóis cantavam, o luar radiografava o Choupal” (TORGA, Miguel, A Criação do Mundo, Coimbra, 1991, p. 296).

Viver o presente no passado é experienciar o passado como se fosse presente. Mas este “milagre” não acontece por geração espontânea. Requer, além da “cumplicidade dos astros”, arte, saber e jeito.

O entrevistador pergunta: “E das modas, gostavam das modas?”

Por entre palavras, imagens e emoções, a tia B recorda uns sapatos que levou ao baile junto à capela dos Bouços. Eram tão bonitos! E os seus 86 anos envaidecem-se. Os outros dois velhotes pegam ao palio: “Eram mesmo bonitos! ”. Atingir este nível de pormenor e insignificância é bom sinal, é sinal que a entrevista não desmerece. Quando a conversa envereda por este rumo, conquistamos o acesso ao presente do passado. Mas a técnica não é fácil. Perguntar se gostavam das modas não é o mesmo que perguntar como eram as modas. São chaves distintas: a primeira convoca um relator e a segunda, um actor. Por seu turno, a palavra “modas”, em vez de “danças”, remete empaticamente para o passado, para aquele passado. A aproximação das línguas, mesmo que utópica, é um aconchego para a comunicação. A dança da memória tem muitos passos e improvisos.

Há cerca de dez anos, participei na criação do Espaço Memória e Fronteira (inaugurado em 2007), em Melgaço. O senhor L foi “lugar-tenente” de um dos maiores contrabandistas da região. Granjeava a reputação de não ter igual a atravessar o rio Minho numa batela (embarcação típica). Numa das nossas conversas, propôs-se fazer uma reconstituição da passagem de contrabando no rio Minho. Tinha cerca de 80 anos!

  1. Aproximou a batela da margem do rio (fotografia 1);
  2. Cortou ramos de árvores para os colocar na batela (fotografia 2);
  3. Retirou a água que estava no interior da batela;
  4. Colocou a carga na batela (fotografia 2);
  5. Acena em direcção à outra margem (fotografia 3);
  6. Atravessa o rio (fotografias 4 e 5).

Travessia de contrabando no rio Minho. Reconstituição.

Não é apenas nos casos de polícia que a reconstituição propicia informação relevante. Desconhecíamos o recurso aos ramos de árvore para protecção da carga. Tão pouco sabíamos dos acenos para a outra margem. “A experiência he madre das cousas” (Duarte Pacheco Pereira, Esmeraldo de Situ Orbis, 1506). Antes da passagem do contrabando, um “batedor” insinuava-se na outra margem para vigiar os passos da Guarda Civil. Cumpria-lhe assinalar se a passagem era segura.

A reconstituição foi um momento de aprendizagem. A batela descansa, agora, no Espaço Memória e Fronteira, junto a uma fotografia com a travessia do rio Minho. Os ramos na batela constituem uma curiosidade inesperada para os visitantes.

Espaço Memória e Fronteira

Espaço Memória e Fronteiro. Melgaço.

A nossa relação com o passado é problemática e polémica. “Se o nariz de Cleópatra tivesse sido mais curto, toda a face da terra teria mudado” (Blaise Pascal, Pensamentos, 1670). Em poucas palavras, Pascal toca na ferida da contingência histórica. Na mesma linha, Ernst Bloch (Thomas Müntzer, Teólogo da Revolução, 1921) alerta: se é verdade que a história está cheia de impossíveis realizados, não está menos cheia de possíveis não realizados. Contemplar o presente no passado é captar a história enquanto se faz. No início dos anos sessenta, Portugal envolveu-se na Guerra do Ultramar, mas, na altura, existiam alternativas. Bastava ceder às pressões internacionais. Como seria, hoje, Portugal sem a “herança” da Guerra Colonial?

Nós insistimos em descarnar o passado, extraindo-lhe a incerteza do momento presente. Para muitos, a história é uma extensa peregrinação rumo à contemporaneidade. Como se a história não fosse trágica. Assim se servem os banquetes e as migalhas do nosso entendimento.

Na Internet, não há sinopse que não sublinhe que o filme O Grande Ditador, de Charles Chaplin (1940) “saiu um ano antes da entrada dos Estados Unidos na Segunda Guerra Mundial (1941)”. Que nos diz este apontamento sobre o filme? Não seria mais ajustado informar que o filme se estreou um ano após o início da Segunda Guerra Mundial? Isto é tique, isto é vício. Vício de ler a história de frente para trás. Incapacidade de ancorar no tempo, de sondar os horizontes do passado.

Compreender o passado é difícil. Compreender-nos a nós próprios, também. Há muitas formas de lidar com o passado: ignorar; dissecar; conservar; restaurar; revitalizar; desvirtuar… Está em voga carnavalização da memória. Proliferam iniciativas que arremedam o passado para gáudio do presente. A todos os níveis, com todos os pretextos e para todos os públicos. Canibalizar, perdão, carnavalizar a memória é timbre do nosso tempo. Uma presentificação festiva.

Do Japão, com humor

A publicidade oriental é um caso à parte. Ora nos brinda com anúncios de seis minutos de fazer chorar as pedras, ora nos espevita com sequências frenéticas que, ao jeito japonês, fazem dançar as galinhas.

No Anúncio da Shop Japan, o segredo reside na repetição acelerada do disparate (ver excerto de Henri Bergson). Pouco importa o que te faz cair, o que interessa é o que te levanta, eventualmente, um aparelho para abdominais. No segundo anúncio, Lighters, a evolução de uma pen USB isqueiro, desde a criação até à conquista do planeta, é pretexto para uma miscelânea tresloucada de tudo quanto é símbolo japonês e mundial.

Marca: Shop Japan. Título: Wonder Core – Ab Machine. Japão, 2014.

Marca: Jii USB Lighter. Título: Lighters. Japão, 2013.

Soluciona-se assim o pequeno enigma proposto por Pascal a certa altura dos Pensamentos: “Dois rostos semelhantes, cada um dos quais por si não faz rir, juntos fazem rir por sua semelhança.” Por nossa vez diríamos: “Os gestos de um orador, cada um dos quais não é risível em particular, por sua repetição fazem rir.” É que a vida bem ativa não deveria repetir-se. Onde haja repetição ou semelhança completa, pressentimos o mecânico funcionando por trás do vivo. Que o leitor analise a impressão obtida diante de dois rostos muito parecidos: verá que pensa em dois exemplares obtidos de um mesmo molde, ou em duas impressões de um mesmo carimbo, ou em duas reproduções de um mesmo clichê, em suma, num processo de fabricação industrial. No caso, a verdadeira causa do riso é esse desvio da vida na direção da mecânica (Henri Bergson, O Riso: Ensaio sobre a significação do cómico. 1ª edição: 1899).

Yes We Can!

The Calling of Saint Matthew (1599–1600). San Luigi dei Francesi, Rome.

Caravaggio. A Vocação de São Mateus (1599–1600). São Luís dos Franceses, Roma.

O ser humano sonha a diferença, aspira imprimir a sua marca. Houve tempos em que a religião e a tragédia lhe proporcionavam uma vocação e um destino.

“Saindo, viu Jesus um homem chamado Mateus, sentado na coletoria, e disse-lhe: “Segue-me!” Ele se levantou e o seguiu” (Mateus 9:9).

Hoje, a religião e a tragédia desafiam-no a visar, para além da vocação e do destino, o improvável, senão o impossível. Obama, aos microfones, repete: “Yes We Can!” A Amnistia Internacional reforça: “You are powerfull”. Eis um apelo para os ouvidos do coração, porque “o coração tem suas razões, que a própria razão desconhece” (Blaise Pascal).

Anunciante: Amnesty International. Título: You are powerful. Agência: Mother (London). Direcção: Kim Gerhig. UK, 2009.