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Pedestais

Na Bélgica, pátria do Astérix, do Tintim, do Achille Talon e do Gastão da Bronca, resolveram colocar pessoas em pedestais para criar “monumentos humanos”. A Lusitânia também é a pátria do Zé Povinho, do menino Tonecas, do Chico Fininho e da Maria Papoila. De país para país, variam o sentido de humor e a relação com as alturas. Na Bélgica, colocam pessoas em pedestais. Parece que Bruxelas, a corte da Comunidade Europeia, tem falta de pessoas em pedestais. Na Lusitânia, semi-periférica, faltam pedestais para tantos candidatos. O problema não é tanto colocar pessoas em pedestais mas apear quem teima em se perpetuar. Os nossos pedestais, tão elevados, são invejáveis: o marquês de Pombal, em Lisboa, o Monumento aos Heróis da Guerra Peninsular, no Porto, a estátua de Santos da Cunha, em Braga. Três pedestais, três rotundas. Afigura-se-me que o pedestal está para Portugal, com o bacalhau está para o português. O anúncio Human Monument é da Thalys, uma empresa de transporte ferroviário a alta velocidade.

Para aceder ao anúncio, carregar na seguinte imagem.

Thalys

Marca: Thalys. Título: Human monuments. Agência: Rosepark. Direcção: Julian Nodolwsky. Bélgica, Abril 2018.

Ousar pensar

Dare to think! Rebell against the ordinary! The journey is the all point. A Universidade de Ghent, na Bélgica, está em 125º lugar no QS World University Ranking. O anúncio Dare to think é criativo e persuasivo. Pelos vistos, a Universidade de Ghent não perfilha as nossas confusões estratégicas: centra-se nos estudantes. O que anima e sossega. Virá um dia em que muitas universidades funcionarão sem estudantes, cingindo-se a investigadores, professores, burocratas e parceiros. Outro dia virá em que as universidades serão um formigueiro de investigadores sem descobertas científicas. A escrita é uma terapia, um ribeiro que corre contra as fragas de cascata em cascata. Umas vezes, refresca, outras, magoa.

Marca: Ghent University. Título : Dare to think. Agência : Mortierbrigade Brussels. Direcção: Tom Willems. Bélgica, Março 2018.

Olhares Lugares. Cinema e fotografia

JR. Palais de Tokyo. Paris.

01. JR. Palais de Tokyo. Paris.

02. JR. Panthéon. Paris

02. JR. Panthéon. Paris.

Agnès Varda é uma cineasta e fotógrafa belga, residente em Paris, empenhada na intervenção social e no movimento feminista. Na sua filmografia, constam, como realizadora, mais de 40 filmes, desde 1955. Recebeu o Oscar Honorário em 2017, o César Honorário em 2001; o Grande Prémio do Júri no Festival de Berlim; e o Leão de Ouro do Festival de Veneza em 1985.

JR (de Jean René) é um fotógrafo e muralista francês, de origem tunisina, que se dedica à arte de rua. Lembrando o grafite, procede à colagem de grandes fotografias, normalmente em preto e branco, nos espaços públicos. Apresenta-se como “photograffeur” votado, tal como Agnès Varda, à intervenção social.

03. JR. Women Are Heroes in the Favela, Kibera Slum , Kenya

03. JR. Women Are Heroes in the Favela, Kibera Slum , Kenya.

Agnès Varda anda pelos 89 anos de idade, JR pelos 34. Podiam ser avó e neto. Não obstante, uniram-se para realizar, em 2017, o filme Olhares Lugares. Qual é o espanto? Na sociedade, o cruzamento mobilizador das diferenças é uma banalidade extrema. Em contrapartida, esbater as diferenças, igualizar, é delírio totalitário.

Obrigado, Adélia!

Trailer do filme Olhares Lugares. Realização: Agnès Varda & JR. 2017.

Triunfo

Dedico este pequeno texto ao José Viriato Capela e ao Henrique Barreto Nunes.

Denis van Alsloot. Ommeganck.  Bruxelas. 1615

Denis van Alsloot. Ommeganck em Bruxelas no dia 31 de maio de 1615. A imagem está em alta resolução. Pode carregar e aumentar.

Uma semana antes do Pentecostes, era costume celebrar, em Bruxelas, Notre-Dame du Sablon, protectora da cidade. A procissão (Ommegang, em flamengo) era imponente, uma extensa e variegada expiação colectiva. À semelhança da procissão do Corpo de Deus, convocava a participação, e o contributo, das principais instituições, cujos membros eram dispostos em meticulosa e ostensiva hierarquia. Cada corpo envergava o seu traje com a respectiva cor. Quanto mais poderosos, mais próximos da imagem da santa (ver quadro 1, de Denis van Alsloot).

Denis van Alsloot. The Ommeganck in Brussels on 31 May 1615. The Triumph of Archduchess Isabella

Denis van Alsloot. The Ommeganck in Brussels on 31 May 1615. The Triumph of Archduchess Isabella. A imagem está em alta resolução. Pode carregar e aumentar.

No seu clímax, a procissão serpenteava pela Grande Place de Bruxelas. À semelhança do Corpo de Deus, a procissão intercala cenários diversos, senão opostos: agora, o fausto religioso, político e corporativo; logo, a folia carnavalesca, grotesca e diabólica. A procissão incorpora, por exemplo, crianças fantasiadas de demónios. É neste cenário que espreita uma tarasque, ou seja, uma parente da Serpe da Bugiada de Sobrado e das cocas de Monção, de Amarante e de muitas procissões do Corpo de Deus.

Denis van Alsloot. The Ommeganck in Brussels on 31 May 1615. The Triumph of Archduchess Isabella. Detalhe

Denis van Alsloot. The Ommeganck in Brussels on 31 May 1615. The Triumph of Archduchess Isabella. Detalhe.

No segundo quadro, o olhar de Denys van Alsloot concentra-se no Triunfo da Arquiduquesa Isabel (1556-1633), integrado na procissão (Ommegang) de Notre-Dame du Sablon. Os carros alegóricos, os gigantes e os dragões ilustram o esplendor barroco. Pintores e escultores consagrados dedicavam-se a conceber estas artes efémeras. Giuseppe Arcimboldo despendia o seu tempo e a sua arte no esboço de figuras excêntricas para os triunfos e outras festividades da corte dos imperadores Habsburgos (ver imagens). Embora os carros alegóricos versem sobre a natividade ou sobre o anúncio a Maria, trata-se de uma demonstração de poder. Em nome dos deuses do céu, celebram-se os deuses da terra.

Em Portugal, havia celebrações parecidas. Por iniciativa da realeza, do clero ou da nobreza. Frequentemente, em conjunto. No livro Artes e Artistas em Portugal (1892, Lisboa, Livraria Ferreira), Sousa Viterbo entrega-se a uma espécie de inventário histórico das festas nacionais que oscilam entre o cerimonioso, o barroco e o grotesco (junto um excerto com o capítulo IV). Manuela Milheiro tem uma obra notável, bem documentada e meticulosa, sobre Braga: A Cidade e a Festa no Século XVIII (2003, Guimarães, Núcleo de Estudos de População e Sociedade). Está acessível no repositório da Universidade do Minho (https://repositorium.sdum.uminho.pt/handle/1822/848 ).

Sousa Viterbo. Artes e Artistas em Portugal. Capa e Capítulo IV. 1892.

 

O Carnaval de Antuérpia no século XVII

Erasmus de Bie retratou, em 1670, o Carnaval de Antuérpia. Não fica atrás do Rio ou de Nice. Ontem, como hoje, as pessoas deleitam-se com as artes efémeras. Tempos barrocos.

Tenho descendência a viver em Antuérpia. Nunca o imaginei! Mas a desigualdade entre sociedades quanto ao valor que conseguem atribuir aos seus membros é decisiva. No meu País, a balança pende para o lado de fora. Lembra um montado: plantam-se sobreiros para exportar rolhas. Um corpo exangue com uma sanguessuga na cabeça.

Erasmus de Bie. Carnival Floats on the Meir Square in Antwerp. 1670

Erasmus de Bie. Carnival Floats on the Meir Square in Antwerp. 1670

Parar no tempo

McDonald's Unchangers

Parar, parar, parar… O mal de estar parado é sentir o mundo a passar. Acertar em tudo o que mexe. E repousar no cemitério do tempo, com flores secas a servir de leito. Ser uma relíquia, uma ruína, não ser nada. Sem vento nas velas.

Marca: McDonald’s. Título: Unchangers. Agência: TBWA Brussels. Direcção: Jeroen Mol of Sake. Bélgica, Janeiro 2018.

Liberdade

Ai que prazer
Não cumprir um dever,
Ter um livro para ler
E não fazer!
Ler é maçada,
Estudar é nada.
Sol doira
Sem literatura
O rio corre, bem ou mal,
Sem edição original.
E a brisa, essa,
De tão naturalmente matinal,
Como o tempo não tem pressa…

Livros são papéis pintados com tinta.
Estudar é uma coisa em que está indistinta
A distinção entre nada e coisa nenhuma.

Quanto é melhor, quanto há bruma,
Esperar por D.Sebastião,
Quer venha ou não!

Grande é a poesia, a bondade e as danças…
Mas o melhor do mundo são as crianças,

Flores, música, o luar, e o sol, que peca
Só quando, em vez de criar, seca.

Mais que isto
É Jesus Cristo,
Que não sabia nada de finanças
Nem consta que tivesse biblioteca…

Fernando Pessoa

Espírito de Natal

riche-et-pauvre

Poor vs. Rich. funny-pictures-blog.com.

Existem realidades separadas que lucram em aparecer juntas. Nenhuma perde sentido e ambas o potenciam. Acontece com os anúncios da Cruz Vermelha da Bélgica e da Cultura, da França. Juntos, confirmam o contraste entre a sociedade da escassez e a sociedade da abundância. No primeiro, Le Dilemme, a família tem que optar entre celebrar o aniversário ou pagar a conta da electricidade. No segundo,  kdorigami, a embalagem sobrepõe-se ao conteúdo da prenda. “Avec Cultura, le papier cadeau est déjà un cadeau”. Em suma, duas figuras distantes: o oprimido e o blasé, a “cultura do pobre” (Oscar Lewis) e a “classe ociosa” (Thornstein Veblen).

Anunciante: Croix Rouge de Belgique. Título: Dilemme. Agência: Publicis Brussels. Direcção: David Greenwood. Bélgica, Novembro 2016.

Marca: Cultura. Título: Kdorigami. França, Novembro 2016.

A lição

red-cross-hi

Não basta ensinar o que se sabe; importa saber o que se ensina. E quando se sabe o que se ensina, convém saber ensinar*.

Marca: Red Cross. Título: This history lesson will give you goosebumps. Agência: Duval Guilllaume Brussels. Bélgica, Maio 2016.

* Esta frase nasceu torta e torta há-de ficar. Carece esclarecimento. Há professores que oferecem a sua sabedoria para além dos conteúdos programáticos das disciplinas. Por vezes, repetem a dádiva de disciplina em disciplina. Uma deriva da aprendizagem. Por outro lado, existem professores que tanto sabem e os alunos tão pouco aprendem. Uma falha na comunicação. Um desperdício da aprendizagem.

Obscenidade

Pink  Floyd. Atom Heart Mother. 1970.

Pink Floyd. Atom Heart Mother. 1970.

Há fenómenos que parecem talhados para ilustrar processos semióticos, por exemplo, a sacralização do profano e a profanação do sagrado. O anúncio The Bicky Beef Miracle, da Bicky, destaca-se como um caso exemplar.

Das entranhas de uma vaca saem caixas com hamburgers. Um milagre, admitem o padre e o bispo. Promove-se uma procissão, criam-se imagens “santificadas” da vaca, substituem-se as hóstias por hamburgers aparecidos no ânus do animal. Em suma, assiste-se a uma escalada na sacralização do profano. Por outro lado, reconhecer um milagre num hamburger evacuado, promover uma procissão a uma vaca equiparada a uma santidade e substituir a hóstia pela caixa de hamburger, tudo isto releva de uma profanação do sagrado. Um delírio grotesco com escatologia acintosa. Vale a pena afrontar o público e enojar o espectador?

Esta dialética entre sagrado e profano é corrente no mundo publicitário. Mas também floresce no quotidiano mais banal. Uma anedota, memória da infância, mostra os extremos a que pode conduzir a profanação humorística do sagrado.

A missa estava inusitadamente concorrida. O padre conta as hóstias. Não chegavam. Ordena ao sacristão:
– Vai ao curral, colhe bosta seca, corta às rodelas, pinta-as de branco e traz-mas.
O sacristão assim fez. A missa começa. E a comunhão decorre sem falhas. Entretanto, o Manuel, entre pragas e caretas, mastigava. A mulher, a seu lado, admoestou-o:
– Comporte-se que é o corpo de Cristo!
O Manuel murmurou:
– Foi-me logo calhar a parte do cú.

O processo é similar ao do anúncio da Bicky: sacralização do profano (a bosta) e profanação do sagrado (a hóstia associada ao traseiro).

O anúncio comporta riscos, como, por exemplo, associar o Hamburger Bicky aos intestinos miraculosos de um bovino. A ousadia afasta ou cativa os consumidores? A obscenidade e a escatologia compensam? Polémicas à parte, o anúncio apresenta uma história bem contada com um cocktail de símbolos explosivo.

Jens Mortier, fundador e director criativo da agência mortierbrigade, esclarece:

However, we’re not creating these attention-grabbing campaigns solely as gimmicks or for a quick laugh; the incredible results of our work with Bicky so far shows that we are really striking a note with burger lovers”.

Spike van der Werf, director de Marketing & Inovação da Bicky, prossegue:

“Bicky can be anything, except virtuous. We save the good taste for our 100 per cent Angus burgers. When it comes to our brand communications, we want to create content that act as an adrenaline shot to the heart of our customers. Mortierbrigade is exactly the right partner to help us to tell stories that don’t smell like advertising and, instead, become part of the cultural conversation. This collaboration with Lionel Goldstein fits our brand perfectly well” (http://www.lbbonline.com/news/what-beefy-miracle-is-hiding-in-this-holy-cows-anus/).

Marca: Bicky. Título: The Bicky Beef Miracle. Agência: mortierbrigade. Direcção: Lionel Goldstein. Bélgica, Junho 2016.

Vaca por vaca, prefiro a vaca dos Pink Floyd. Atom Heart Mother (1970) não é dos álbuns mais famosos dos Pink Floyd. E depois? Segue a última faixa do lado A: Remergence.