Isto é Angola
Raramente acedo a publicidade angolana. Este anúncio à cerveja Cuca é nacionalista, colorido e alegre. Terra vermelha; ouro negro; pedras brilhantes; beleza imensa; pele reluzente; damas com magia… “Nós não vamos, nós chegamos; somos um povo guerreiro; temos orgulho e amor ao que é nosso. Isto é Angola e em Angola, cerveja é Cuca”.
Marca: Cuca. Título: Em Angola a cerveja é Cuca. Agência: TBWA Angola. Direcção: Lance Kelleher. Angola, Novembro 2014.
O Elogio do Movimento
Bruno Aveillan reaparece quando e onde menos se espera. Desta vez, num anúncio russo para os Jogos Paraolímpicos de Inverno de 2014. A fotografia permanece um dos seus trunfos. A primeira parte do anúncio é desconcertante: Natalia Vodianova, a sétima modelo mais bem paga do mundo, corre com uma perna biónica, o que causa perturbação. Segundo Ferdinand de Saussure e o estruturalismo, classificamos a experiência a partir de associações e dissociações. Habituamo-nos a associar a beleza à ligeireza, mas não à deficiência. Este tipo de “dissonância cognitiva” desemboca, em muitos filmes, no absurdo ou no medo. Não é o caso deste anúncio, que culmina numa apoteose de cor, triunfo e felicidade: os jogos paraolímpicos.
Anunciante: Sochi 2014 Paralympic Winter Games. Título: Neverstop. Agência: JWT International Moscow. Direção: Bruno Aveillan. Rússia, 2014.
Há seres humanos cuja missão parece consistir em tornar a beleza ainda mais bela. Pela lente de Bruno Aveillan, passaram as modelos e as atrizes mais deslumbrantes. É, por sinal, casado, desde 2002, com Inna Zobova, modelo e atriz de origem russa. Em 1998, Bruno Aveillan, realizador, e Inna Zobova, modelo, deram corpo a um anúncio, pautado por uma estética inovadora, para as Galeries Lafayette. Pode espreitar aqui: Palavras com Imagens.
O espelho ordinário
Há momentos retorcidos. Normalmente, escrevo para ser lido, mas, desta vez, escrevo para ser decifrado.
Existe um tipo de grotesco que remete para a disformidade conforme. Desconcerta, mas acaba por se deitar, atravessada, no leito de Procusto da Razão. Estranha-se, primeiro, e entranha-se, depois. Como diria Goya, o sonho, por monstruoso que seja, faz parte do sono da razão. Atente-se, por exemplo, na obra de Salvador Dali.
Com a devida vénia ao movimento punk, existe uma outra forma de grotesco que releva da conformidade disforme. O que é estranho já não é o sonho mas a realidade. Este grotesco bebe no pântano da vida quotidiana. É a experiência que se torna estranha (Sigmund Freud; Wolfgang Kaiser). Ocorre um estranhamento do familiar, incluindo o íntimo. O grotesco opera menos por criação e mais por deslocamento. Da intimidade para o público. É uma monstração. Este grotesco não sonha, desperta, com os olhos esbugalhados, para a experiência comum. Partilha, obscenamente, o que não é partilhável, mas que todos têm. O delírio do extraordinário é substituído pelo espanto face ao banal, pelo espetáculo insólito e exacerbado do mais que vivido e mais que conhecido.
Este anúncio justifica a seguinte pergunta: como é que a grosseria pode promover a beleza? Enquanto fico a pensar, passo a palavra ao Victor Hugo:
“Somente diremos aqui que, como objectivo junto do sublime, como meio de contraste, o grotesco é, segundo a nossa opinião, a mais rica fonte que a natureza pode abrir à arte (…) O sublime sobre o sublime dificilmente produz um contraste, e tem-se necessidade de descansar de tudo, até do belo. Parece, ao contrário, que o grotesco é um tempo de parada, um termo de comparação, um ponto de partida, de onde nos elevamos para o belo com uma percepção mais fresca e mais excitada” (Hugo, Victor, 1827, Do grotesco e do sublime, Prefácio de Cromwell).
E pronto!
Marca: B Cosmic. Título: Be pretty. Agência: JWT Tunis. Direcção: Fekih Anwar / EZA. Tunísia, Dezembro 2014.
Balões
Os balões vão fazendo o seu caminho na publicidade. Sobem, planam e pintalgam o horizonte, arredondados e apelativos.
O primeiro anúncio, Change your view, sul-africano, é digno de atenção. Convida a um percurso que conduz do sombrio ao luminoso, do noturno ao diurno, da terra aos céus. Os rostos são impressionantes. De um encanto tamanho, repousam nas nuvens e contam estrelas. Embalados pela música…
O segundo anúncio, cloud, israelita, com a sua esquadra de dirigíveis, é ingénuo, leve e colorido. Como as nuvens ao nascer o dia, como o amor quando se inflama…
Ambos os anúncios estão associados a empresas de telecomunições (a Star Sat e a Pelephone) que apostam no valor da leveza.
Beleza lunar
Os anúncios de Giorgio Armani são exímios no culto da beleza feminina (ver, por exemplo, http://tendimag.com/?s=armani). Este Code Luna confronta-nos com um rosto lunar em corpo de feiticeira. Dionísio pálido.
Marca: Giorgio Armani. Título: Code Luna. Agência: Betc luxe. Direção: Paolo ROVERSI. França, 2012.
Beleza made in Japan
Há quem considere este anúncio lento e aborrecido. É um modo de o encarar. E se retorcêssemos os sentidos? Também pode ser suave e voluptuoso, como a seda… É certo que beleza vinda do Oriente não é necessariamente beleza oriental. Projectar “daqui para o mundo”, de Tóquio para o nosso ecrã, comporta compromissos, e percalços. Trata-se de um anúncio feito por uma agência japonesa, a Dentsu, das melhores do mundo, para a “japonesa” Sony, com imagens do Japão. Para que olhar? Para que sonhos? Quem procura esta beleza? Para visualizar o anúncio carregar na imagem.
Marca: Sony Bravia. Título: The Porsuit of Beauty. Agênca: Denstu. Direção: Naoki Imamura. Japão, Maio 2013.
Restos do paraíso
Como os últimos posts foram bastante disfóricos, nada como entremear algumas pinceladas de um paraíso visual com a qualidade da BBC. São pequenos e fugazes momentos de beleza natural que vale a pena (re)ver.
Anunciante: BBC. Título: David Attenborough – Wonderful World. Agência: RKCR/Y&R. Reino Unido, Dezembro 2011.




