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Potência e Angústia

Funeral de Beethoven pintado por Franz Xaver Stöber. 1827.

Antonio Vivaldi consta entre os compositores mais inovadores da história da música. Terá inventado ou consolidado a estrutura do concerto e da sinfonia. Foi respeitado e protegido por réis, imperadores e papas. Mas nunca se libertou da oposição de parte da Igreja. Acabou a vida na miséria, tendo sido enterrado numa sepultura anónima de pobre em Viena. A Tempestade (3º movimento do Verão, das Quatro Estações) transmite uma sensação de potência, senão violência, que nos oprime. Recorda a Grande Fuga em Ré Maior, de Beethoven. Mesma potência, mesmo sufoco. A Grande Fuga, publicada após a morte de Beethoven, foi recebida com estranheza pela crítica. Ao contrário de Vivaldi, Beethoven teve um funeral imponente, com mais de vinte mil pessoas a assistir (ver imagem).

Ambas as obras, a Tempestade No Mar, de Vivaldi, e a Grande Fuga, de Beethoven, permanecem atuais, de uma atualidade surpreendente.

Tempestade. Concerto nº 2 em sol menor, op. 8, RV 315, “O Verão”, Mov. 3, Presto. Interpretação: Divertissement Chamber Orchestra. Direcção: Lesya Melnik.
Beethoven (arr. strings). Grosse Fugue, Op.133. Australian Chamber Orchestra & Richard Tognetti. Sydney Opera House. 2016.

Urinar para a lua

Pieter Brueghel o Velho. Urinando para a lua. Doze Provérbios. 1558-1560.

Percorri mil imagens do Pieter Brueghel sem me aperceber dos Doze Provérbios. Quem se aventura sem guia corre o risco de passar ao lado do essencial. Mas tenho os meus rapazes. O mais velho desencantou no Museu Mayer van den Bergh, de Antuérpia, os ditos Doze Provérbios, de Pieter Brueghel. “Figuras com legenda”. Por exemplo, no quarto fragmento, o homem está sentado entre duas cadeiras, ou seja, não consegue decidir-se; em baixo, no oitavo fragmento, o homem não consegue ver o reflexo do sol na água, ou seja, inveja outras pessoas.

Pieter Bueghel o Velho. Doze provérbios. 1558-1560.

Concluído entre 1558 e 1560, os Doze Provérbios ganham em ser confrontados com os Provérbios Flamengos, obra concluída pela mesma altura, em 1559. Pelo menos, onze dos Doze provérbios constam entre os 112 Provérbios Flamengos.

Pieter Brueghel o Velho. Provérbios Flamengos. 1559.

Carregar na tabela para melhor visualização.

Doze Provérbios e Provérbios Flamengos ,de Brueghel o Velho. Repetições.
Pieter Brueghel o Velho. Urinando para a lua. Provérbios Flamengos. 1559.

Incomoda-me esta ignorância vetusta. “O homem a urinar para a lua” é uma falha no meu repertório. Não conhecia os Doze Provérbios, nem tão pouco relevei tão estranha figura nos Provérbios Flamengos. Faltava, confesso, no meu imaginário um homem a urinar para a lua.

Importa festejar. Com música, naturalmente. Existem muitas canções dedicadas à lua e aos lunáticos: Moon River (Audrey Hepburn), Harvest Moon (Neil Young), Brain Damage (Pink Floyd),  La Luna (Angelo Branduardi), Moonlight  Shadow (Mike Oldfield), Blue Moon (Elvis Priesley), mas, sentimentalmente, opto pela Sonata ao Luar, de Beethoven. Consta entre as músicas que o meu rapaz mais velho mais gosta de tocar. Coloco a versão completa: o terceiro movimento é o meu preferido. Interpretação da ucraniana Valentina Lisitsa

João e Albertino

Beethoven. Piano Sonata No.14 .Opus 27 No.2. Mov 1, 2, 3 (Sonata ao luar). Valentina Lisitsa.

Uma pincelada na personalidade

Lang Lang, Piano / 18.12.2006 / Philharmonie Essen

À família.

Gosto do Concerto para piano nº 5 (dito do Imperador) de Beethoven. Comprei o vinil há uma quarentena de anos. Foi uma pincelada na personalidade! O concerto reconcilia-nos com Beethoven, com o mundo e com nós próprios. Não creio que nos reconcilie com os outros. Gosto do pianista chinês Lang Lang. Lembra, pela versatilidade, o violoncelista, de origem chinesa, Yo-Yo Ma. Lang Lang salta da música clássica para a contemporânea, passando pela música tradicional chinesa. Surpreende-nos, ainda, a tocar hard rock com os Metallica. Gosto do Concerto do Imperador interpretado por Lang Lang. Procurei um vídeo de alta qualidade com o Adagio Un Poco Mosso, mas não tive sorte. Segue a melhor resolução que encontrei. Para quem possa interessar, anexo o concerto na globalidade, com melhor resolução, precedido por um discurso do director, em alemão, de quase quatro minutos.

Ludwig van Beethoven. Piano Concerto No. 5 in E-Flat Major, Op. 73: Adagio un poco mosso. Berliner Philharmoniker. Piano: Lang Lang. 2012.
Metallica: One (featuring Lang Lang) (Beijing, China – January 18, 2017).
Ludwig van Beethoven. Piano Concerto No. 5 in E-Flat Major, Op. 73. Berliner Philharmoniker. Piano: Lang Lang. 2012.

Música para não ouvir na areia

Revisitemos Paris com a pianista franco-georgiana Khatia Buniatishvili. Há três semanas, no dia 14 de Julho, dia nacional da França, Khatia Buniatishvili toca Mozart, músico barroco, acompanhada pela Orchestre Nationale de France, no Champs de Mars, junto à Torre Eiffel (vídeo 1). O ambiente é excessivo, barroco. Até a torre Eiffel parece um anjo tocheiro… Mais artifício do que artefacto. Só faltou o Jean-Michel Jarre.

Paris é uma cidade barroca? Nem por isso. Nada a ver com cidades barrocas como Roma ou Braga. A relação histórica da França com o barroco é complicada. Existem vários exemplares barrocos em Paris. Por exemplo, a capela da Sorbonne ou a igreja dos Invalides. O insuficiente para fazer de Paris uma cidade barroca. Paris é gótico e neoclássico. Gótico, da Notre Dame, da Sainte Chapelle e da torre de Saint Jacques. Neoclássico, da Igreja da Madeleine, da praça da Concorde ou do Arco de Triunfo.

Paris não é barroco? Talvez. Menos ao nível do monumento e mais ao nível do acontecimento. Paris é uma das capitais mais destacadas do efémero, o efémero caro ao barroco dos séculos XVII e XVIII: triunfos, festas, festivais de água e luz, efemérides, concertos, bailes, paradas, desfiles e procissões… Paris é barroco, por exemplo, no que respeita à moda: roupas, joias, adereços, perfumes, protagonistas, desfiles, anúncios publicitários… Paris também é barroco na política: recordo a cerimónia da visita ao Panthéon por François Mitterrand, em 1981, recém-eleito Presidente da República (ver https://tendimag.com/2015/01/04/sociologia-sem-palavras-15-a-encenacao-do-poder/). Paris é ainda barroco pela cultura: recordo vários eventos, entre os quais a efémera Fête de la Musique, uma iniciativa do ministro da cultura Jacques Lang, no início dos anos oitenta: na noite de 21 de Junho, data de início da Primavera, qualquer pessoa ou grupo pode tocar música nas ruas de Paris.

Acrescento dois vídeos em que Khatia Buniatishvili toca Schubert (vídeo 2) e Beethoven (vídeo 3).

Khatia Buniatishvili – Mozart Piano Concerto no.23 (14 Juillet 2019).
Khatia Buniatishvili – Schubert: Impromptu No. 3 in G-Flat Major, Op. 90, D. 899.
Khatia Buniatishvili. Largo from Beethoven’s Piano Concerto No. 1 in C Major, Op. 15.

A técnica e a vida

Há anúncios cujos pormenores são cinzelados ao milímetro e ao segundo. O anúncio Experience Amazing, da Intel, é, de facto, uma experiência assombrosa. Uma cascata de imagens pontuada pela 5ª Sinfonia de Beethoven. Cada fragmento oferece-se como uma janela para um mundo assinado pela Intel: arte, música, dança, desporto, moda, videojogos, máquinas, aeronáutica, corpo, próteses, saúde, natureza, performances, ficção, computadores, multimédia, cinema, animação… A sequência final relativa ao vestido com borboletas é magnífica. Fragmento após fragmento, constrói-se o “impossível”. A utopia do diálogo entre a técnica e a vida. Com a Intel inside.

intel-experience-amazing-ad

Marca: Intel. Título: Experience Amazing. Agência: McGarryBowen New York. USA, Janeiro 2016.

Do pensador ao perito

Quino

Quino

Os peritos penduram-se nos galhos mais altos das sociedades democráticas burocráticas. Lembram nobres de toga em corte de rei pasmado. Até os políticos se dão ares de peritos. Como os gatos, os peritos metem, inimputáveis, o focinho em tudo. O que mais me irrita nos peritos é a sua vontade de nos aperfeiçoar. Fazem tudo para nosso bem. São os novos anjos da guarda. E escolhem primorosamente a gaiola em que nos vão libertar. Libertam-nos de todos os vícios, de todas as gorduras, de qualquer autonomia e, se possível, do mais ínfimo rendimento. Neste excerto do filme Laranja Mecânica, um jovem ultra-violento está em vias de ser curado por dois peritos. Um perito para ti! Um perito para mim! E a vida sorri!

Stanley Kubrick. Laranja Mecânica. 1971. Excerto.

Música para despertar lesmas

Ludwig van Beethoven

Beethoven teve várias paixões. Mal sucedidas. Arrebatado, dedicou várias sonatas a uma aluna, que foi, aliás, a primeira a ouvir outras composições. Predominou, como é costume, o pensamento, em vez do sentimento.

Há lesmas que não sonham. E é difícil despertá-las. São lesmas comme il faut!

The Genius of Beethoven. BBC Documentary. UK, 2005. Excerto.

Ludwig van Beethoven. Piano Sonata No. 14 in C sharp minor (“Moonlight”), Op. 27/2: 3. Presto agitato – Adagio – Presto agitato.

Sentados sobre Rodas

Audi. Italia Land of QuattroOs anúncios a automóveis formam um mundo à parte. Destacam-se como os mais prendados em recursos humanos, técnicos e criativos. Teimam em tomar-nos por crianças. Crescidas, claro, para mitigar a regressão. Mas as crianças são distintas. O anúncio do Nissan Patrol é filho dos espaços abertos. Potência, técnica e performance, com a nona de Beethoven (versão Wendy Carlos do filme Laranja Mecânica?) promovida a gadget instrumental. Já o anúncio do Audi Quattro nasceu bambino d’oro, figura mítica da cultura italiana. Raça, cultura e arte com sentido de humor…

Marca: Audi. Título: Italia – Land of Quattro. Agência: Verba, Milan. Direção: Federico Brugia. Itália, Janeiro 2013.

Marca: Nissan Patrol. Título: Patrol vs Beethoven. Agência: Whybin TBWA Group Melbourne. Direção:  Dan Reisinger. Austrália, Janeiro 2013.

A surdez da Europa

Desculpem a trivialidade: Beethoven pode estar surdo, a Europa não pode! Beethoven soube manter o ânimo; a Europa que oiça o seu hino, o “Hino da Alegria”.

“Oh amigos, mudemos de tom! / Entoemos algo mais agradável / E cheio de alegria!”

Boas entradas!

Excerto do filme Copying Beethoven (2006).