Música no adro
On a tous un banc, un arbre, une rue
Où l’on a bercé nos rêves
On a tous un banc, un arbre, une rue
Une enfance trop brève
(Séverine. Un banc, Un Arbre, Une Rue, 1971)
Uma criança, um hino, uma catedral. Não é preciso muito para me emocionar.
Potência e Angústia

Antonio Vivaldi consta entre os compositores mais inovadores da história da música. Terá inventado ou consolidado a estrutura do concerto e da sinfonia. Foi respeitado e protegido por réis, imperadores e papas. Mas nunca se libertou da oposição de parte da Igreja. Acabou a vida na miséria, tendo sido enterrado numa sepultura anónima de pobre em Viena. A Tempestade (3º movimento do Verão, das Quatro Estações) transmite uma sensação de potência, senão violência, que nos oprime. Recorda a Grande Fuga em Ré Maior, de Beethoven. Mesma potência, mesmo sufoco. A Grande Fuga, publicada após a morte de Beethoven, foi recebida com estranheza pela crítica. Ao contrário de Vivaldi, Beethoven teve um funeral imponente, com mais de vinte mil pessoas a assistir (ver imagem).
Ambas as obras, a Tempestade No Mar, de Vivaldi, e a Grande Fuga, de Beethoven, permanecem atuais, de uma atualidade surpreendente.
Urinar para a lua

Percorri mil imagens do Pieter Brueghel sem me aperceber dos Doze Provérbios. Quem se aventura sem guia corre o risco de passar ao lado do essencial. Mas tenho os meus rapazes. O mais velho desencantou no Museu Mayer van den Bergh, de Antuérpia, os ditos Doze Provérbios, de Pieter Brueghel. “Figuras com legenda”. Por exemplo, no quarto fragmento, o homem está sentado entre duas cadeiras, ou seja, não consegue decidir-se; em baixo, no oitavo fragmento, o homem não consegue ver o reflexo do sol na água, ou seja, inveja outras pessoas.

Concluído entre 1558 e 1560, os Doze Provérbios ganham em ser confrontados com os Provérbios Flamengos, obra concluída pela mesma altura, em 1559. Pelo menos, onze dos Doze provérbios constam entre os 112 Provérbios Flamengos.

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Incomoda-me esta ignorância vetusta. “O homem a urinar para a lua” é uma falha no meu repertório. Não conhecia os Doze Provérbios, nem tão pouco relevei tão estranha figura nos Provérbios Flamengos. Faltava, confesso, no meu imaginário um homem a urinar para a lua.
Importa festejar. Com música, naturalmente. Existem muitas canções dedicadas à lua e aos lunáticos: Moon River (Audrey Hepburn), Harvest Moon (Neil Young), Brain Damage (Pink Floyd), La Luna (Angelo Branduardi), Moonlight Shadow (Mike Oldfield), Blue Moon (Elvis Priesley), mas, sentimentalmente, opto pela Sonata ao Luar, de Beethoven. Consta entre as músicas que o meu rapaz mais velho mais gosta de tocar. Coloco a versão completa: o terceiro movimento é o meu preferido. Interpretação da ucraniana Valentina Lisitsa
João e Albertino
A técnica e a vida
Há anúncios cujos pormenores são cinzelados ao milímetro e ao segundo. O anúncio Experience Amazing, da Intel, é, de facto, uma experiência assombrosa. Uma cascata de imagens pontuada pela 5ª Sinfonia de Beethoven. Cada fragmento oferece-se como uma janela para um mundo assinado pela Intel: arte, música, dança, desporto, moda, videojogos, máquinas, aeronáutica, corpo, próteses, saúde, natureza, performances, ficção, computadores, multimédia, cinema, animação… A sequência final relativa ao vestido com borboletas é magnífica. Fragmento após fragmento, constrói-se o “impossível”. A utopia do diálogo entre a técnica e a vida. Com a Intel inside.
Marca: Intel. Título: Experience Amazing. Agência: McGarryBowen New York. USA, Janeiro 2016.
Do pensador ao perito

Quino
Os peritos penduram-se nos galhos mais altos das sociedades democráticas burocráticas. Lembram nobres de toga em corte de rei pasmado. Até os políticos se dão ares de peritos. Como os gatos, os peritos metem, inimputáveis, o focinho em tudo. O que mais me irrita nos peritos é a sua vontade de nos aperfeiçoar. Fazem tudo para nosso bem. São os novos anjos da guarda. E escolhem primorosamente a gaiola em que nos vão libertar. Libertam-nos de todos os vícios, de todas as gorduras, de qualquer autonomia e, se possível, do mais ínfimo rendimento. Neste excerto do filme Laranja Mecânica, um jovem ultra-violento está em vias de ser curado por dois peritos. Um perito para ti! Um perito para mim! E a vida sorri!
Stanley Kubrick. Laranja Mecânica. 1971. Excerto.
Música para despertar lesmas
Beethoven teve várias paixões. Mal sucedidas. Arrebatado, dedicou várias sonatas a uma aluna, que foi, aliás, a primeira a ouvir outras composições. Predominou, como é costume, o pensamento, em vez do sentimento.
Há lesmas que não sonham. E é difícil despertá-las. São lesmas comme il faut!
The Genius of Beethoven. BBC Documentary. UK, 2005. Excerto.
Ludwig van Beethoven. Piano Sonata No. 14 in C sharp minor (“Moonlight”), Op. 27/2: 3. Presto agitato – Adagio – Presto agitato.
Sentados sobre Rodas
Os anúncios a automóveis formam um mundo à parte. Destacam-se como os mais prendados em recursos humanos, técnicos e criativos. Teimam em tomar-nos por crianças. Crescidas, claro, para mitigar a regressão. Mas as crianças são distintas. O anúncio do Nissan Patrol é filho dos espaços abertos. Potência, técnica e performance, com a nona de Beethoven (versão Wendy Carlos do filme Laranja Mecânica?) promovida a gadget instrumental. Já o anúncio do Audi Quattro nasceu bambino d’oro, figura mítica da cultura italiana. Raça, cultura e arte com sentido de humor…
Marca: Audi. Título: Italia – Land of Quattro. Agência: Verba, Milan. Direção: Federico Brugia. Itália, Janeiro 2013.
Marca: Nissan Patrol. Título: Patrol vs Beethoven. Agência: Whybin TBWA Group Melbourne. Direção: Dan Reisinger. Austrália, Janeiro 2013.





