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Arte indigesta

Tenho alguns pequenos princípios de estimação. Por exemplo, ofereço o que gosto, não o que gosta necessariamente quem recebe. Partilhar uma parte de mim, não dele. Faço-o sem qualquer intenção de converter. Não tenho costela de missionário.

O público do Tendências do Imaginário mostra menos aptência pelos artigos dedicados à arte. Pelo menos, imediatamente. Preferem música e publicidade.

Hoje, nos artigos Dar à luz na “idade das trevas” e Varas há muitas, a arte veio ao de cima. O resultado não surpreende: quebra nas visualizações. Pois insisto, como quem não nota, correndo o risco de exasperar.

A obra Zdzislaw Beksinski é francamente indigesta. Não se presta nem para aperitivo, nem para digestivo, nem para refeição. Perturbadora, estranha-se e volta a estranhar-se. Deixei a publicação do respetivo artigo, Filhos do Apocalipse, para esta hora, entre o jantar e a ceia.

Zdzislaw Beksinski (1929-2005) [é] um dos principais, senão o principal, artista polaco contemporâneo. Classificou-se a si próprio, numa primeira fase, como barroco e, em seguida, como gótico. Não obstante, é um expoente da arte grotesca, o mais estranho e visceral que se pode conceber. As suas obras, além de desconcertantes, são tenebrosas. Na sua pintura, o morrer sobrepõe-se à morte, num mundo moribundo, sem remissão. Um mundo em que nem sequer a morte redime. As figuras, simultaneamente mortas e vivas, são amálgamas, fluídas e deformadas, de carne, ossos, ramificações e excrescências.

Anexo, também, o artigo Greve da escrita, de 2016, para tentar desanuviar um pouco. É certo que a pintura “Dustheads”, do Jean-Michel Basquiat, não ajuda a desvanecer, mas as canções e a voz de Lizz Wright são capazes de fazer milagres.

Filhos do Apocalipse. Tendências do Imaginário, 16.08.2018
Greve da escrita. Tendências do Imaginário, 16.08.2016

Morte, erotismo e política

'Riding with Death' by Jean-Michel Basquiat. 1988.

Jean-Michel Basquiat. Riding with Death. 1988.

Riding With Death, de Jean-Michel Basquiat, é uma pintura que surpreende. Foi concluída no ano, 1988, em que Basquiat faleceu vítima de uma overdose de heroína, com 27 anos de idade. Entre as imagens da morte, não tenho memória de uma figura humana a cavalgar a morte. São, aliás, raras as imagens em que a morte aparece subordinada, como no episódio excepcional da descida de Cristo ao inferno (ver O Triunfo sobre a Morte).

O Rapto de Europa,  c. 340 a.C.

O Rapto de Europa, c. 340 a.C.

Quem conduz? O título do quadro não é “Riding Death”, cavalgando a morte, mas Riding With Death, caminhando com a morte. Estes cambiantes lembram duas lendas. Na primeira, conduz quem é montado. É o caso do rapto de Europa por Zeus, transformado em touro. Europa senta-se no dorso do touro que a sequestra ( ver O rapto de Europa. Com os olhos no retrovisor). Na segunda lenda, relativa a Fílis e Aristóteles, conduz quem monta.

01. Phyllis riding Aristotle. 13th c.

Phyllis riding Aristotle. 13th c.

Alexandre O Grande andava perdido de amores por Fílis, uma bela mulher proveniente da Índia. A tal ponto que descurava as responsabilidades e o governo do reino. Aristóteles, tutor de Alexandre, chamou-o à razão: devia moderar os seus encontros com Fílis. Alexandre acedeu ao pedido de Aristóteles.

Fílis não gostou da interferência de Aristóteles. Decidiu, com êxito, seduzi-lo. É a vez de Aristóteles andar perdido de amores por Fílis.

04. Aquamanile (late 14th century) New York Metropolitan Museum

Aquamanile (late 14th century) New York Metropolitan Museum

Um dia, Fílis propõe a Aristóteles: “dou-te o meu corpo, mas, primeiro, acedes que ande montada nas tuas costas”. Alexandre, avisado, assistiu à cena. Quis expulsar Aristóteles. Mas, em verdade, só agora a lição se perfazia: se até um velho sábio não resiste ao encanto de uma mulher, que esperar de um jovem rei”.

Na lenda de Fílis e Aristóteles, o amor e o erotismo vencem o político e o sábio. A imagem de Fílis a montar Aristóteles, com trejeitos de sadomasoquismo, tornou-se célebre, em particular, na Idade Média e, sobretudo, no chamado Renascimento do Norte.

14. George Pencz. Fílis e Aristóteles. 1530

George Pencz. Fílis e Aristóteles. 1530. Tal como na figura 13, Fílis usa esporas.

Um último apontamento sobre a Farsa de Inês Pereira (1523), de Gil Vicente. Inspirada na máxima “mais quero um asno que me carregue do que cavalo que me derrube”, a farsa termina com o segundo marido a carregar às costas Inês Pereira para a levar até ao amante, o Ermitão. “Pois assi se fazem as cousas” ( ver pdf: Gil Vicente. Farsa de Inês Pereira. Parte final).

Galeria de imagens: Fílis e Aristóteles

Greve da escrita

Jean-Michel Basquiat. Dustheads. 1982.

Jean-Michel Basquiat. Dustheads. 1982.

A escrita está em greve. Escrever dói! Junto o quadro Dustheads (1982), de Basquiat, e duas canções de Lizz Wright, Coming Home e I Idolize You, ambas do álbum The Orchard (2008).

Lizz Wright. Coming Home. The Orchard. 2008.

Lizz Wright. I Idolize You. The Orchard. 2008.