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Duas gotas

Ford dos gotas

“Duas gotas iguais como duas gotas de água. A gravidade empurra-as para o vazio. Uma escolhe ser uma linha reta para chegar primeiro. A outra desvia-se para desenhar a mais perfeita das linhas. Duas gotas que nunca foram iguais como uma gota de água”.

“Kinetic Design, a nova corrente de desenho da Ford, desenha a linha dos seus automóveis a partir do movimento.”

A curva e o movimento, o traço do barroco na publicidade automóvel

Marca: Ford. Título: Dos gotas. Agência: JWT Argentina. Direcção: Pucho Mentasti. Argentina, 2009.

Compra sacrificial

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“Vários estudos sustentam que a maior parte das compras não se destinam ao próprio mas a outros. Acresce que quando uma pessoa decide uma compra convoca, frequentemente, o olhar, o gosto e o interesse, de outrem. O ato de comprar encerra, assim, uma componente sacrificial. Quando alguém compra, entrega-se. A compra é uma dádiva de si, que se agudiza nos picos convencionais de generosidade como o Natal. Os anúncios prestam-se a dar uma mão!” (AG).

Dois anúncios da Dior no mesmo mês! Por sinal, bastante distintos. O primeiro diviniza uma mulher (https://tendimag.com/2014/11/19/mulher-sujeito/); o segundo promove a apoteose de um objeto. “The enchanted factory” é um triunfo do perfume e dos cosméticos, com embalagens a deslizar sobre carris oníricos (um pouco como as garrafas de Coca-Cola na “Fábrica da Felicidade”). Dois anúncios da Dior, dois conceitos diferentes. É certo que o primeiro é institucional e o segundo focalizado no segmento do perfume e dos cosméticos, candidatos habituais a prenda de Natal. Pelo sim, pelo não, tão cedo não vejo anúncios da Dior. Para não correr o risco de ficar estrábico.

Marca: Dior. Título: The Enchanted Factory. França, Novembro 2014.

Barroco por barroco, carril por carril, ao castanho dourado da Dior, prefiro o vermelho libidinoso dos Goldfrapp. É outra vertigem! Menos céu, menos geometria, menos séries, mais terra, mais entranhas e mais travessia.

Goldfrapp. Twist. Black Cherry. 2003.

Hino ao barroco

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É barroco! Mas não é o barroco da Basílica de S. Pedro, em Roma, nem o barroco da Catedral de S. Paulo, em Londres. É o barroco orquestrado pela BBC no ecrã digital. A glória da comunicação social. Vinte e sete artistas famosos para uma única canção: God only knows, um cover dos Beach Boys. Os movimentos, as figuras, os planos, os detalhes, tudo respira barroco. Cada celebridade empresta o seu brilho, mas, como convém ao barroco, o esplendor repousa no conjunto. À semelhança do fogo-de-artifício, o engenho não mora nas estrelas mas na constelação.

Marca: BBC Music. Título: God only knows. Agência: Karmarama. Direção: François Rousselet. UK, Outubro 2014.

Regresso às origens

Despedir-se dos anúncios da Guinness não é fácil. São fantásticos! Também me custa esquecer a exposição Vertigens do Barroco (Mosteiro de Tibães, 2007). Na Sala do Recibo do Mosteiro, a um canto, aconchegava-se uma sala de estar com móveis modernos extravagantes e um baú do séc. XVIII onde os anjos não se cansavam de dançar. No centro da sala, corriam, num  ecrã, para a altura faraónico, “cápsulas de emoções”, ou seja, dezenas de anúncios publicitários neobarrocos, entre os quais o Big Ad, da Carlton Draugh (https://tendimag.com/2012/09/08/o-grande-bebedor/), Marry Me, da Siemens (https://tendimag.com/2012/09/07/voo-pre-nupcial/), e o noitulovE, da Guinness, que, estranhamente, ainda não tinha colocado no blogue. É um dos meus anúncios preferidos. Também é dos mais conhecidos. E imitados. Recorrer ao rewind dos trajectos tornou-se moda. Num minuto, a evolução da vida recua, sob o nosso olhar perplexo, até às origens. O minuto que dura o anúncio não é muito, nem é pouco, é a duração suficiente para que o arroto de um peixe pré-histórico (um dipnóico?) complete o ciclo iniciado pelo gole inicial de cerveja numa taberna urbana, a alguns milhões de anos de distância.

Marca: Guinness. Título: noitulovE. Agência: Abbot Mead Vicker BBDO. Direção: Danny Kleinman. UK, 2005.

O catálogo da exposição Vertigens do Barroco está disponível na loja do Mosteiro de Tibães. Trata-se de uma obra colectiva. Junto apenas o texto que assino: Vertigens do Presente. A Dança do Barroco na Era do Jazz (in Gonçalves, Albertino, Mata, Aida, Ferreira, Ângela & Pereira, Luís da Silva, Vertigens do Barroco em Jerónimo Baía e na Actualidade, Braga, Mosteiro de São Martinho de Tibães, 2007). Para aceder ao pdf carregar aqui: Vertigens do Presente. A dança do barroco na era do jazz. ok

Vertigens do Barroco

 

Morte com bebé ao colo

Fig 1. Hieronymus Bosch. A Tentação de Santo Antão (triptico). Pormenor.1505.

Fig 1. Hieronymus Bosch. A Tentação de Santo Antão (triptico). Pormenor.1505.

Quando a causa é boa, qualquer momento se presta. Sensibilizado pela comissão multidisciplinar para a natalidade, contribuo, sem saber como, com o seguinte apontamento.

Sarcofago di Stilicone. Chiesa de Sant'Ambrogio. Milano. Séc. IV.

Fig 2. Sarcofago di Stilicone. Chiesa de Sant’Ambrogio. Milano. Séc. IV.

Georges_de_La_Tour.  L'adoration des bergers. Cerca de 1645.

Fig 3. Georges de La_Tour. L’adoration des bergers. Cerca de 1645.

No Tríptico As Tentações de Santo Antão, Hieronymus Bosch introduz a figura de uma velha, montada num rato. A velha é um ser híbrido: na cabeça cresce uma árvore e os braços são ramos; a parte inferior do corpo lembra a cauda de um insecto. A velha segura nos braços que são ramos um bebé enfaixado. Naquele tempo, era prática enfaixar os recém-nascidos. Assim é retratado, frequentemente, o menino Jesus no presépio (Figs 2 e 3). Somos confrontados com uma velha na antecâmara da morte que segura, encostado ao ventre, um recém-nascido. Extrapolando, reconhece-se o tópico da morte que dá à luz a vida, tópico amplamente estudado por Mikhaïl Bakhtin. Esta figura convoca ainda, através do hibridismo da velha, os três reinos da vida: o humano, o animal e o vegetal. O enquadramento é cósmico.

Fig 4. James Ensor. A morte a as máscaras. 1927

Fig 4. James Ensor. A morte a as máscaras. 1927

Esta dobra que aproxima os contrários, neste caso a vida e a morte, é um procedimento típico do grotesco, que o barroco não enjeita. Perpassa o tempo. Reencontramos, por exemplo, uma figura semelhante na pintura de James Ensor. No quadro A morte e as máscaras, o único esqueleto presente segura ao colo um recém-nascido (Fig 4).

Fig 5. Mason Williams. Tattoo Skeleton and baby.

Fig 5. Mason Williams. Tattoo Skeleton and baby.

Não se pense que este tópico da morte que sustenta a vida, a um passo de uma morte prenhe, é uma esquisitice imemorial, bizarria da Antiguidade, da Idade Média ou dos construtores de projectos, em suma, dos pré-pós-modernos. A morte com vida insinua-se nos nichos de todas as sociedades, incluindo a nossa. Por exemplo, na moda das tatuagens ilustrada pelos motivos criados por Mason Williams (Fig 5). O grotesco e o barroco, cada um à sua maneira, pegam no líquido, vertem-no no vazio, agitam-no na centrifugadora e servem a mistela, com ou sem pós-humanos, em shots hipermodernos nas orgias inclusivas. Vai um shot de ideias?

 

Vinte homens e uma personagem

Heineken. The OdysseyA cada um o seu talento e alguns minutos de fama

Pela criatividade e pela originalidade, o anúncio Odyssey, da Heineken, arrisca-se a ficar na história da publicidade.
Tudo concorre para um ambiente peculiar, lúdico: a música (16 toneladas, de Noriel Vilela), o navio, o ritmo, os comportamentos e os gestos. Uma heterotopia, diria Michel Foucault. Um carrossel de culturas, acrescentaria.
– Who is that man?
– That can´t be just one man.
Tornou-se habitual reconhecer várias personagens num único ser humano. Neste anúncio, somos convidados a reconhecer vários seres humanos numa única personagem.

Há domínios em que admiro os holandeses. Fazem um anúncio e escolhem uma música brasileira. É a sua maneira de ser globais. Na maior parte dos países, incluindo Portugal, faz-se um anúncio e escolhe-se uma música inglesa. É a sua maneira de ser globais. Uns são fecundos, outros são fecundados.

Este anúncio é brilhante, pixel a pixel. O ritmo, vertiginoso, não atropela os pormenores. A quantidade de informação frisa o barroco! Disse barroco?

Marca: Heineken. Título: The Odyssey. Agência: Wieden+Kennedy. Holanda, Janeiro 2014.

Casta Diva

Jena Paul Gaultier. On the DocsUma pequena massagem de violino para olhos cansados e ecrãs desertos: Casta Diva, da ópera Norma (1831), de Vincenzo Bellini, com interpretação de Joshua Bell (2003). Esta versão não substitui a interpretação de cantoras como Maria Callas ou Montserrat Caballé. Esta ária de Bellini é muito apreciada na publicidade. Seguem dois exemplos distintos: o Stop the bullet Kill the gun, da Choice FM, de 2007, e On the Docks, de Jean Paul Gaultier, de 2013. No primeiro, a ária Casta Diva brilha com todo o seu esplendor, no segundo, o barroco é tão barroco que se torna difícil uma parte, por si só, sobressair.


Joshua Bell. Vincenzo Bellini: Casta Diva. Albúm: Romance of the Violin. 2003.

Marca: Choice FM. Título: Stop the bullet Kill the gun. Agência: Amv BBDO London. Direção: Malcolm Venville, Sean de Sparengo. UK, 2007.


Marca: Jean Paul Gaultier. Título: On the Docks. Agência: Ogilvy & Mather Paris. Direção: Johnny Green. França, Outubro 2013.

David Bowie, a máscara e o barroco em Veneza

Louis Vuitton. L'Invitation au voyage 2

A Louis Vuitton renova o convite à viagem. O primeiro destino foi Paris (https://tendimag.com/?s=invitation+au+voyage), agora é Veneza, num anúncio vincadamente barroco caracterizado pelo jogo das máscaras,numa turbulência colectiva onde nem sequer falta um esboço de levitação. Neste quadro, David Bowie é uma figura natural. O anúncio é de um belo efeito estético; não ofusca, porém, o anterior.

Marca: Louis Vuitton. Título: L’invitation au voyage. Agência : Direct. Direção : Romain Gavras. Novembro 2013.

A emancipação dos pés

ShoeDazzleOs pés merecem bom calçado. Suportam tudo e andam de rastos. Pés e Povo começam pela mesma letra. Mera coincidência. Mas os pés estão em vias de emancipação. O povo, não! A estética é crucial em qualquer processo de emancipação: o feio torna-se bonito graças a uma reciclagem do gosto. E os pés estão mais bonitos! E mais inteligentes. O anúncio da ShoeDazzle confirma-o. Proliferam as cinderelas. Quanto à inteligência, nada como ler este excerto do poema “dans ma maison”, de Jacques Prévert  (Paroles, 1946). Em suma, não convém menosprezar os pés nem espezinhar o povo.

Marca: ShoeDazzle. Título: Hashtag. Agência : SelectNY. Direção : Maz Makhani. EUA, Junho 2013.

Jacques Prévert, excerto de “dans ma maison” (Paroles, 1946)

Eu não fazia nada
Isto é nada de importante
Às vezes de manhã
Lançava uns gritos animais
Zurrava como um burro
Com toda a força
E isso dava-me prazer
E depois brincava com os pés
São muito inteligentes os pés
Podem levar-nos longe
Quando queremos ir longe
E quando não queremos sair
Eles ficam a fazer-nos companhia
Quando há música dançam
Sem eles não se pode dançar
É preciso ser-se estúpido como o homem tantas vezes é
Para dizer coisas tão estúpidas
Como estúpido como um pé alegre como um tentilhão
O tentilhão não é alegre
Só é alegre quando está alegre
É triste quando está triste ou nem alegre nem triste
Aliás ele nem se chama assim
Foi o homem quem lhe deu esse nome
Tentilhão Tentilhão Tentilhão

Je ne faisais rien
C’est-à-dire rien de sérieux
Quelque fois le matin
Je poussais des cris d’animaux
Je gueulais comme un âne
De toute mes forces
Et cela me faisait plaisir
Et puis je jouais avec mes pieds
C’est très intelligent les pieds
Ils vous emmènent très loin
Quand vous voulez aller très loin
Et puis quand vous ne voulez pas sortir
Ils restent là ils vous tiennent compagnie
Et quand il y a de la musique ils dansent
On ne peut pas danser sans eux
Il faut être bête comme l’homme l’est souvent
Pour dire des choses aussi bêtes
Que bête comme ses pied gai comme un pinson
Le pinson n’est pas gai
Il est seulement gai quand il est gai
Et triste quand il est triste ou ni gai ni triste
Est-ce qu’on sait ce que c’est un pinson
D’ailleurs il ne s’appelle pas réellement comme ça
C’est l’homme qui a appelé cet oiseau comme ça
Pinson pinson pinson pinson

A Estética da Manteiga

Bernardo Bertolucci vulgarizou, nos anos setenta, a erótica da manteiga. Este artigo não visa, todavia, a erótica mas a estética da manteiga. Procurei, confiante, na obra de Andy Warhol, mas encontrei sopa, coca-cola e vodka. Resulta sempre alargar horizontes. No século XVII, a manteiga surge em primeiro plano nas naturezas mortas do pintor holandês Floris Gerritsz van Schooten (e.g., A natureza morta com copo, queijo, manteiga e bolo). Mais recentemente, no século XIX, Antoine Vollon pinta um vistoso pedaço de manteiga (Motte de Beurre, 1875-1885). Nos tempos que correm, a estetização mediática da culinária dá novo alento às saborosas naturezas mortas da idade barroca. Já não são quadros, mas vídeos, como este belíssimo anúncio da Lurpak em que o encanto da manteiga é de tal ordem que parece querer rivalizar com as latas de sopa Campbell’s.

Marca: Lurpak. Título: Good Proper Food. Agência:  Wieden + Kennedy (Londres). Direção: Vince Squibb. Reino Unido, Fevereiro 2013.

Floris Gerritsz van Schooten. (Holanda, 1585 - 1656) Natureza Morta com copo, queijo, manteiga e bolo.

Floris Gerritsz van Schooten. (Holanda, 1585 – 1656) Natureza Morta com copo, queijo, manteiga e bolo.

Antoine Vollon. Motte de Beurre. 1875-1885

Antoine Vollon. Motte de Beurre. 1875-1885