Fotografia e Investigação
É com grande prazer que o convidamos para o encontro Fotografia e Investigação, que terá lugar no dia 2 de Maio, pelas 18 horas, no Auditório do Instituto da Educação, da Universidade do Minho. Esta sessão do Ciclo Percursos Profissionais na Área da Cultura conta com a participação de Álvaro Domingues, Professor da Faculdade de Arquitetura, da Universidade do Porto, e de Isabel Alves, Responsável pelo Museu das Migrações e das Comunidades, de Fafe.
A fotografia é um recurso apreciável na investigação social, como fonte direta ou como fonte secundária de informação. Não se confina, portanto, ao mero uso ilustrativo. Álvaro Domingues é um exemplo de quanto a máquina fotográfica pode ser um auxiliar do olhar e a fotografia um suporte para a análise e a ilustração. A sua arte peculiar de aproximação à realidade não é alheia ao sucesso alcançado pelos livros Rua da Estrada, publicado em 2010, e Vida no Campo, recém-publicado em Março de 2012, ambos pela Dafne Editora, do Porto.
Gérald Bloncourt é um reputado fotógrafo francês que, nos anos sessenta, direcionou a sua objetiva para os emigrantes portugueses residentes em bairros de lata da região parisiense. Resultou um espólio apreciado por muitos investigadores. As fotografias de Gérald Bloncourt já foram expostas em Fafe, em Lisboa, em Braga e, no final de 2011, em Viana do Castelo. Gérald Bloncourt doou mais de uma centena de fotografias originais ao Museu das Migrações e das Comunidades de Fafe. Isabel Alves, guardiã atenta deste valioso espólio, falará da obra de Gérald Bloncourt.
O Director do Curso de Mestrado em Comunicação , Arte e Cultura
A menina do bairro de lata
Costuma dizer-se que em Agosto nada acontece. Pois… para muita gente é em Agosto que quase tudo acontece. No dia 12, rumei a Fafe para assistir à apresentação do livro “A Terra do Chiculate – Relatos da Emigração Portuguesa” de Isabel Mateus. Mas também me movia conhecer uma mulher que já foi menina.
Gérald Bloncourt é o grande fotógrafo da emigração portuguesa para França. Retratou os bairros de lata, os locais de trabalho e a própria viagem a salto (ver http://www.bloncourt.net/). As suas fotografias foram expostas no Museu Colecção Berardo, em Lisboa, em 2008, na Casa Municipal da Cultura de Fafe, em 2009, e no Museu da Imagem, em Braga, em 2010. Permito-me destacar quatro fotografias.

Gérald Bloncourt: Il faut faire la queue pour se procurer de l'eau à l'unique robinet de ce bidonville portugais en région parisienne - 1964
Na primeira fotografia, um emigrante abre caminho por entre a lama, proverbial no bairro de Champigny. As pessoas, para resguardar a roupa e o calçado, enfiavam sacas de plástico até ao joelho. Nas barracas, não havia água, nem electricidade. A fila para o único fontanário era garantida (fotografia 2). O barbeiro ao ar livre estava em voga (fotografia 3). As barracas não tinham luz. Muitos emigrantes faziam a barba no exterior com o espelho pendurado em qualquer canto. A última fotografia mostra-nos, enfim, a Tina, assim baptizada há escassos três meses. Rodeada de lama, uma boneca e uma bola de azeite na mão. Esta é certamente a imagem mais vista da emigração portuguesa.
Descobriu-se este ano quem era a menina. Como escreve Gérald Bloncourt no seu blogue (http://bloncourt.over-blog.net/): “J’ai retrouvé la petite portugaise, Maria da Conceição Tina Melhorado, le 26 Juin à Paris. Je l’ai photographié dans le Bidonville de St Denis en 1966. Elle est aujourd’hui mère de famille et professeur de Français à Coimbra au Portugal ». Tina também não tinha conhecimento da fotografia. O acaso fez a junção. O símbolo adquiriu corpo, voz e nome. Quarenta e cinco anos depois, Tina mostra-se à altura do ícone.
No dia 12 de Agosto, rumei a Fafe. Não esperava nem uma epifania, nem uma revelação. Testemunhei, outrossim, uma encarnação. Algo que se guarda bem guardado para um dia fazer inveja aos anjinhos do purgatório.




