Com o coração leve como uma borboleta numa folha de outono
Acabei de dar uma aula de Sociologia da Arte e do Imaginário centrada em pormenores minúsculos da Pietà Vaticana do Michelangelo. Propus uma análise pessoal. Gosto de ensinar, da relação com os alunos, sobretudo quando a comunhão se insinua. Senti o coração, cheio e leve, a dançar como a chama de uma vela acesa numa carvalheira. Apeteceu-me ouvir música, desta vez, clássica, de preferência barroca: Johann Pachelbel, Johann Sebastian Bach e Tomaso Giovanni Albinoni. Bem interpretada pela Academy of St Martin in the Fields, sob a condução de Sir Neville Marriner.
Transições e variações
“Mas, para além da figura do puzzle, o movimento de “decomposição de uma ordem e composição de uma desordem” comporta, ainda, a ideia de descentramento, se não de uma fragmentação policêntrica. Esta cosmogonia, este modo de estar e de sentir o mundo, remonta aos tempos de Giuseppe Arcimboldo abalados pela revolução Kepleriana que tanto influenciou a mundividência barroca. Com Johannes Kepler (1571-1630), o centro, que Copérnico deslocara da Terra para o Sol, perde-se no infinito: “Este pensamento – a infinitude do Universo – implica não sei que horror secreto; de facto, encontramo-nos errantes no meio desta imensidade a que recusamos qualquer limite, qualquer centro, ou seja, qualquer lugar determinado” (Kepler, 1609, citado por Severo Sarduy, Barroco, Paris, Ed. de Minuit, 1975: 89). Um sentimento partilhado por Blaise Pascal (1623-1662) que confessava: “O silêncio eterno destes espaços infinitos apavora-me” (Pensamentos, 1ª ed. 1670).
Este descentramento marca também a nossa experiência. Deambulamos sem ponto fixo. Filhos da compressão do tempo e do espaço, comprazemo-nos com o simulacro, o zapping e o flash. “Vogamos num meio vasto, sempre incertos e flutuantes, atirados de um lado para o outro”, o que é um jeito de navegar numa “esfera cujo centro está em toda a parte, a circunferência em parte nenhuma (Blaise Pascal, Pensamentos, 1ª ed. 1670). Nada, porém, que uma boa publicidade não possa contemplar. Por exemplo, o anúncio Worlds da Ford (Ford S-Max, Velocity Films, República da África do Sul, 2006). Um homem pega numa maçaneta, atravessa uma parede e entra num cenário de deserto; novo golpe de maçaneta, e passa para uma paisagem de neve; de porta em porta, segue-se um observatório, o oceano e, por último, um automóvel, que, num ápice, o transporta para uma estrada de montanha. O mundo da vida surge, assim, associado a um zapping numa espécie de origami japonês, dobrado e desdobrado à velocidade de um flash.” (Albertino Gonçalves, “Dobras e Fragmentos: A turbulência dos sentidos na publicidade de automóveis, Vertigens: Para uma Sociologia da Perversidade, Grácio Editora, 2009, pp. 47-63).
Recordo este excerto a propósito do anúncio All it takes is a Yes, da Lufthansa, lançado este mês. Qualquer semelhança com os anúncios Worlds, da Ford, The Dream, da Motorola ou Sony makes believe it’s everywhere, da Sony, é mera coincidência. Apenas, homólogos, partilham o mesmo modelo ou conceito: transição mágica disruptiva entre mundos ou momentos distintos.
Estive para intitular este artigo “Mais do mesmo”. Não seria justo! Constituem versões que valem por si, variações que acrescentam valor. Como escreve João Capela: “Haverá sempre um antes, e um antes do antes. Melhor é sempre o que vem depois, enaltecendo ou divergindo, acrescenta sempre”. E, como costume, os gostos dividir-se-ão, para enriquecimento geral.
Seguem os quatro anúncios, do mais recente para o mais antigo. Para acompanhar, o Adagio das Variações Goldberg, de J. S. Bach, interpretadas por Keith Jarrett.
Impuro



Não sou religioso, pelo menos na aceção corrente da palavra. Não significa que não seja crente. Acredito em tanta coisa tão pouco óbvia. Prezo, aliás, a fé e quem a possui, em particular aqueles que, perante um deus que não se manifesta nem é demonstrável pela razão (o “Deus Oculto” de Blaise Pascal), apostam e vivem apostados na sua verdade e existência..
Imagens: Capela Imaculada. Seminário de Nossa Senhora da Conceição. Braga
Sinto a falta desse sentimento inspirador de obras cuja aura demando e deixo ressoar dentro de mim. Estou convencido que não há vocação mais honesta do que abrir-se ao outro e relativizar-se a si mesmo.
Memórias

Quarenta e cinco anos depois, voltei a ver o filme Mirror (O Espelho) de Andrei Tarkovski, estreado em 1975. Vi-o, então, em Paris, na companhia de um amigo, o jesuíta colombiano Marino Troncoso, que estava a fazer a tese de doutoramento com Claude Bremond sobre o escritor Mejía Vallejo. Na REDIB, Red Iberoamericana de innovación y Conocimiento Científico, pode ler-se este apontamento:
Enseñar literatura para Marino Troncoso fue siempre un compromiso con la vida, con el arte y con la expresión de lo “radicalmente humano”; compromiso de enseñar y/o afirmar una mirada sobre el hombre, sobre el mundo, sobre nosotros mismos, sobre nuestras oscuridades y sobre nuestras regiones luminosas (https://redib.org/Record/oai_articulo721388?lng=pt).
Faleceu, entretanto. Um dos principais auditórios da Pontificia Universidad Javeriana, em Bogotá, tem o seu nome. O filme Mirror termina com o coro de abertura Herr, unser Herrscher (Senhor, Senhor nosso), de A Paixão Segundo São João, de Bach. Segue a mesma interpretação do filme, dirigida por Karl Richter. Em memória do Marino Troncoso.
Ária
Existem músicas que resisto colocar no Tendências do Imaginário: as mais célebres. Mas nem sempre consigo. Segue a Ária de Bach.
Como peixes na rede

Há tanto petisco falso na Internet! Os peixes mordem o isco aos milhões. E quanto mais mordem mais atraente se torna o isco. Quem duvida de uma ligação com mais de 20 milhões de visualizações?
No endereço https://www.youtube.com/watch?v=a0hFZPvanMs, encontra-se um vídeo intitulado Frédéric Chopin – Spring Waltz. Contabiliza 6 750 616 visualizações. Não é um caso isolado. Os fakes são virais. Chopin não compôs nenhuma Valsa de Primavera. A música do vídeo é Mariage d’Amour, composta, em 1978, pelo francês Paul de Senneville, e interpretada por Richard Clayderman (https://www.youtube.com/watch?v=1ej1SI4BRv8) e George Davidson (https://www.youtube.com/watch?v=gKmnb8RpX1E).
A página https://www.youtube.com/watch?v=-ywL_zokELE ostenta o título Adagio – Johann Sebastian Bach. Em letras pequenas, precisa: “Τhis version is made by Élise Robineau – Concerto en re mineur BWV974 – Adagio d’après Marcello – Piano & Cello”. A versão de Élise Robineau substitui o oboé pelo violoncelo. Informa, porém, que o adagio de Bach provém do adagio de O Concerto em ré menor para oboé, cordas e baixo contínuo de Marcello. De Marcello? Será Benedetto Marcello, o compositor veneziano que criticou Antonio Vivaldi? Não, o irmão Alessandro. O Concerto para Oboé em ré menor, e respectivo adagio, foi composto por Alessandro Marcello. Até prova do contrário. Estou convencido que o adagio do Concerto em ré menor para oboé resulta mais atribuído, na Internet, a Bach ou ao Benedetto Marcello do que ao seu autor Alessandro Marcello.
Estou a selecionar algumas músicas de Frédéric Chopin. Se contemplasse a pretensa “Spring Waltz” estava a servir gato por lebre e a fazer figura de parvo. Colocar conteúdos na Internet requer algum sentido de responsabilidade, por exemplo, verificar antes de partilhar.
Quarenta mil olhos vêem mais que dois? Naturalmente, mas depende de quem e do quê. Gosto do arranjo de Élise Robineau do adagio de Bach / Alessandro Marcello para piano e violoncelo. Integra a banda sonora do filme Je te mangerais (2009).
Agradecimento

Em tempo de “distanciamento social”, faleceram, em três dias, duas irmãs: a minha tia e a minha mãe. Na verdade, duas mães. Isolada e abreviada, a morte não está fácil. Não perde, contudo, o pesar e o carinho. Agradeço a quem me acompanhou nesta despedida. A amizade é o maior conforto. Há circunstâncias em que a música é silenciada, mas ela une o que o mundo separa: Jesus a Alegria dos Homens, de Bach, é um coral de amor e esperança. E a imagem do anjo sofrido? Os anjos constituem uma figura celestial especial: não só sofrem pelos homens como sofrem com eles.
Johann Sebastian Bach

Hoje, a chuva não molha!
Transparências
A brincadeira não tem idade. Apetece uma bricolagem. Um videozinho. Ando com duas músicas do Bach no ouvido. Gostava de encontrar imagens para as acompanhar. Acudiu-me substituir a banda sonora de anúncios em slow motion. Fantásticos! Não ganhavam nada com a música de Bach, nem esta com os anúncios. Uma dupla estragação. Entretanto, ocorreram-me as imagens das esculturas veladas de Antonio Corradini (1688-1752) e de Giuseppe Sanmartino (1720-1793). O último capítulo do livro A morte na Arte é sobre as esculturas veladas. Comecei há quatro meses e já escrevi 20 linhas! Mas as músicas de Bach, versão piano, não batiam certo com as imagens, demasiado sedosas e pungentes para as teclas de um minueto. Acabei por optar pelo que não queria: uma das obras mais célebres de Bach: a Ária na corda sol. As voltas que uma bricolagem não dá!
Segue o videozinho, parco em comentários, mais as duas músicas de Bach.
Transparências. Esculturas Veladas. Albertino Gonçalves, 2018.
J. S. Bach. Jesu, joy of man’s desiring.
J. S. Bach. Anna Magdalena Notenbuch: Minuet in G major, BWV Anh 114.



