Todos os caminhos vão dar a Babel
Devia ter-me inscrito num congresso da minha área de investigação e não o fiz. Cheguei a uma idade em que, em matéria de ciência, não pago para falar, nem pago para ouvir. Autismo? Com certeza! Ou talvez não, nunca partilhei tanto e tão depressa os resultados da investigação como nos últimos anos. Deparei com uma ficha relativa à actividade científica do ano 2013, onde só são contempladas as comunicações em congressos! Parte da minha actividade profissional resvala para a insignificância. Conferências não servem? O mundo dá cada cambalhota! As conferências foram destronadas pelos “papers”. Sexta, apresento, por convite, uma comunicação nas 1.as Jornadas para a Salvaguarda do Património Cultural Imaterial da Região Norte (ver cartaz). Pelos vistos, atendendo aos rankings profissionais em circulação, não vou fazer nada. Ainda por cima, fora do tempo da cereja. Vou sentir-me pura transparência a pender para a nulidade.
À focalização nas revistas com fator de impacto, acrescenta-se a focalização nos congressos. Eis uma nova culinária: todos os caminhos da ciência vão dar a Babel, a torre da ambição desmedida e do colossal desperdício. O triunfo da Bimby!
Nas aulas de Matemática e de Estatística cunhavam-se algumas anedotas do tipo: um homem que tem a cabeça no congelador e as pernas no forno, do ponto de vista da média, está a uma boa temperatura. Outra sentença para rir consistia no seguinte: o que não é quantificável não existe! Eram piadas, mas já preocupavam C. Wright Mills (Sociological Imagination, 1959) e Pitirim Sorokin (Fads and foibles in modern sociology and related sciences, 1956), que alertavam para o risco de quantofrenia. Nunca pensei que a piada se tornasse realidade. Tudo indica, aliás, que temos uma nova versão: só existe o que é facilmente quantificável.
A Sombra do Lobo
“Demasiado ruído ensurdece-nos, demasiada luz ofusca-nos” (Blaise Pascal)
A avaliação alastrou que nem um incêndio de verão. Como vinga tal fenómeno num país mais dado à ética da convicção do que à ética da responsabilidade (Max Weber)? Num país de confrarias e amigos de amigos (Jeremy Boissevain)? Mestre no jogo das aparências (Georges Balandier)? Quando não existe uma cultura de avaliação, o que a substitui? Quais são as funções latentes da avaliação (Robert K. Merton)? Qual é o objectivo? E o uso? Transparência, ideologia ou ideologia da transparência? Predomina a racionalização ou a justificação (Luc Boltanski)? Suporte ou álibi? Mais ou menos poder ao poder?
Trabalho em férias
Cada vez se trabalha mais, cada vez se vale menos. Ainda bem que a lei prevê as férias:
“A finalidade das férias é «possibilitar a recuperação física e psíquica do trabalhador e assegurar-lhe condições mínimas de disponibilidade pessoal, de integração na vida familiar e de participação social e cultural», conforme estabelece o n.º 2 do artigo 171.º do RCTFP, o que justifica a imperatividade do respectivo regime, designadamente no que concerne à obrigatoriedade do seu gozo e à fixação da sua duração mínima.” (Despacho n.º 4932-A/2011).
E se as férias fossem trabalhadas? Por que carga de água? Por exemplo, por motivo de avaliação. Férias com urgência avaliativa… Nos últimos tempos, a avaliação avolumou-se mais do que o défice, o choque tecnológico, as indústrias criativas ou o empreendedorismo. A avaliação não é o submarino, a avaliação é o balão do país. Para que serve? Para fins que a gente não vê nem percebe. Talvez dê jeito para transformar um acto de potência em acto de direcção (Jean Baechler, Le pouvoir pur, Paris, Calmann Lévy, 1978) e levar a água, abençoada, ao moinho. Perversidades (Raymond Boudon, Effets Pervers et Ordre Sociale, Paris. P.U.F, 1977).
Nasci antes da guerra colonial. Não me lembro de tropeçar em tanta sede de poder e em tanta prepotência como nos últimos anos.
Quando se tem férias trabalhadas, sente-se uma espécie de “déconfiture”, como canta Isabelle Mayereau, desconhecidíssima mas imitadíssima, Chevalier des Arts et des Lettres, pelo Ministério da Cultura francês, em 2010. Une déconfiture, um descalabro… Valha-nos uma Quinoterapia.
Isabelle Mayereau. Déconfiture. Déconfiture. 1979
Déconfiture
Je sens comme une déconfiture
Un bout de gâteau dans le thé
Comme un immense, immense mur
Un chewing-gum trop mâché (x2)Tu sens comme une drôle d’aventure
Où tu vas te risquer
Comme un bleu trop violent d’azur
Comme un vieux jean usé (x2)Je sens comme une presque blessure
Comme un nuage dans le thé
Comme une pomme acide pas mûre
Comme un pétard mouillé (x2)Tu sens comme une éclaboussure
Comme un peu de rhum dans le thé
Comme un vent trop violent qui dure
De l’eau dans le canoë (x2)Je sens comme une déchirure
Un bout de citron dans le thé
En quelque sorte, une éraflure,
Des bleus presque violets (x2)Il reste de cette mésaventure
Un peu de sel dans le thé
Des ecchymoses, des courbatures,
Une envie de pleurer (x2)Paroles et Musique: Isabelle Mayereau 1979
O Papel e o Digital
« Quando se trata não apenas de saber o que seja o método positivo, mas de ter dele um conhecimento bastante nítido e profundo para usá-lo efectivamente, é mister considerá-lo em acção (…) O método não é susceptível de ser estudado separadamente das investigações em que se emprega; ou, ao menos, este é apenas um estudo morto, incapaz de fecundar o espírito que a ele se entrega. Tudo o que se pode dizer de real, quando o tomamos abstractamente, se reduz a generalidades de tal modo vagas que não poderiam ter qualquer influência sobre o regime intelectual (…) É por ter desconhecido esse fato essencial que nossos psicólogos foram conduzidos a tomar por ciência seus próprios sonhos, acreditando compreender o método positivo por ter lido os preceitos de Bacon ou o discurso de Descartes » (Auguste Comte, Curso de Filosofia Positiva, 1830).
Perguntam-me o motivo por que, em casos como o do texto da folia, opto pelo blogue em detrimento da publicação em revista de papel. Lograria outro estatuto. E contaria para a avaliação, incluindo as instituições de que sou membro. É verdade que não se augura que os órgãos de avaliação se apressem a contemplar os artigos de blogue no cardápio dos valores. O dispositivo da avaliação assenta numa mistura sui generis de burocracia e aristocracia com pouca disponibilidade para a diversidade e para a novidade. Tudo indica que, em termos da avaliação, um artigo publicado num blogue é menos que lixo.
Como se justifica um investimento que, do ponto de vista institucional, não acrescenta valor?
1) A maior parte dos artigos de blogue nunca teriam visto a luz do dia como artigos de revista. Os artigos de revista requerem tempo e agendamento, condições cada vez mais raras. Um artigo de blogue pode escrever-se no momento e em pouco tempo, sem prejuízo do conteúdo.
2) Para publicar um artigo de revista, não basta o substrato, convém acrescentar ingredientes teóricos e molho metodológico. Mesmo que o substrato pouco ou nada beneficie com o acrescento. O mundo científico é cioso dos seus rituais. Num artigo de blogue, a teoria e o método ganham em ser « considerados em acção », como sustenta Auguste, mais acto do que aparato.
3) Redigir um artigo é apostar na comunicação. Há artigos do blogue que atingiram milhares de visualizações. Duvido que um artigo meu numa revista tenha recolhido tantas leituras.
4) O blogue tem mais recursos de expressão do que uma revista em papel. Uma coisa é referir a folia de Manuel Machado ou um anúncio da Durex, outra é ver e ouvir ambas.
5) As possibilidades de participação são incomparáveis. A interacção no blogue é mais imediata, mais variada e mais fácil. A longevidade suscita, contudo, mais reservas : um artigo de um blogue corre o risco de ser mais efémero.
Apesar deste balanço, vou aproveitar estas férias para escrever um artigo de fundo (a publicar em revista electrónica). A não ser mais, para o gosto de ser avaliado, sem ser lido.
A responsável por estas letras gongóricas é a Ana Barros, uma amiga, que, na sequência do artigo Folia Portuguesa (http://tendimag.com/?s=folia+portugues), me enviou estes vídeos com jovens músicos portugueses que compõem folias interpretadas com guitarra portuguesa. Escrevi artigos em revistas que, uma vez editados, pouco retorno tiveram, ou seja, pouco aprendi graças eles. Publico um artigo no blogue e, volvidos alguns minutos, começam a chegar contributos. Um artigo, mais do que uma prova, é um acto de conhecimento.
Pedro H. da Silva & Lucia Caruso. La Folia. Piano e Guitarra Portuguesa.
Pedro H. da Silva & Lucia Caruso. La Folia. Cravo e Guitarra Portuguesa.








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