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Fotobiografia de João Bosco Mota Amaral

Ocorreu, no dia 29 de outubro, o lançamento do livro João Bosco Mota Amaral — Fotobiografia, da autoria de Luís Bastos, seu “amigo há meio século”. Estimo Mota Amaral como rara referência sensata do Portugal democrático. Tenho saudades das suas intervenções, cada vez mais saudades nestes tempos políticos que morrem. Recomendo a apresentação do livro pelo próprio autor, Luís Bastos, no artigo “Um livro sinóptico”, no blogue Azorean Torpor (https://azoreantorpor.wordpress.com/2021/11/05/um-livro-sinoptico/, publicado em 05/11/2021).

Motivem-se uns aos outros

Caravaggio. Conversão de São Paulo. 1600-1601.

Lunar é uma instituição/aplicação financeira que se propõe aumentar o rendimento dos clientes sem prescindir do antigo banco. Como motivação, o anúncio Your Other Bank recorre a uma sequência excitante de uma relação heterossexual, combustível que já conheceu melhores dias na publicidade. A geometria sexual complica-se com a alusão ao “bánkage à trois” no lema e na letra da canção do belga Plastic Bertrand:  o cliente, o novo e o antigo banco. Importa ser criativo para seduzir o consumidor! A motivação ergue-se como palavra-chave da transição de milénio. É tão miraculosa que faz andar os cegos e ver os coxos. Uma alavanca do corpo e da alma. Sem motivação, nada, nem sequer um piscar-de-olho! Os casais carecem um do outro rumo à boda de prata, os idosos, para envelhecer, as crianças, para brincar, os operários, para trabalhar… No ensino à distância, os alunos precisam de motivação. Os pais, seguidores domésticos das aulas dos filhos, diagnosticam: “o professor não presta nenhuma atenção ao meu Filipe”; e “à minha filha Susana só pergunta o que ela não sabe”. Um vórtice de desmotivação.

Uma pausa para desconversar. A noção de motivação aqui utilizada é, naturalmente, parcial. Cinge-se a uma ação externa, de fora para dentro, como a conversão de São Paulo. A pessoa resume-se a uma espécie de “tábua rasa” onde caem pingos coloridos que esboçam retratos impressionistas. Para motivar os alunos na escola têm que se saber aquilo que os move. A noção vulgar de motivação tende a equacionar as pessoas como seres hétero-determinados, carentes de autonomia, responsabilidade, iniciativa, vontade e vocação.

Marca: Lunar. Título: Your Other Bank. Agência: Åkestam Holst Noa. Direção: Filip Nilsson. Suécia, fevereiro 2021.

Mocidade académica. O amor burocrático

Quino

Com tantos regimentos, regras, normas, modelos e procedimentos, criar resume-se a um jogo de colorir imagens. Um projecto é um projecto, conforme o regulamento. As referências bibliográficas, também. Nada como encurralar o pensamento em 2 000 palavras… Esta é a arte, esta é a bênção. Tudo deliberado, consignado e disponível em documento próprio, para instrução de alunos com experiência académica e percursos profissionais notáveis. Se pretende saber, saiba connosco, saiba como nós! Percorra o caminho batido.

Na escola primária, há mais de cinquenta anos, entoava-se, no início, a seguinte canção:

Vamos cantar com alegria

E começar um novo dia

Para nós o estudo só nos dá prazer

Faremos tudo, tudo para aprender.

Não há muitas opções: ou se ensina o caminho ou se aprende a caminhar (Antonio Machado). É sensato confinar os alunos numa redoma de regras e normas? Para colher réplicas? Para conseguir a quadratura do círculo? Apesar da minha costela anarquista, admito a necessidade de normas e de regras. Incomoda-me o excesso de amor e de zelo burocráticos. Regulamente-se, regulamente-se até ao cinzento final. “Pim!”

Quino

Probabilidades – Micro cena de um teatro pseudo-absurdo

“Senhor Teste”: – IF é a pessoa mais inteligente que conheço! Mas desperdiça tanto as capacidades que Deus lhe deu…
Senhor Estocástico: – Segue a sua vontade…
“Senhor Teste”: – Vontade é o que mais lhe falta! Vontade de agarrar oportunidades, vontade de sucesso, vontade de brilhar…
Senhor Estocástico: – Sobra-lhe vontade: vontade para resistir a tamanhas vontades.
Menina Combinação: – Em Portugal, para se ter sucesso é preciso ter muita vontade. Muita vontade alheia, naturalmente!

Pink Floyd. If. Atom Heart Mother. 1970.