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O limpo e o sujo

Don't be a tosser

Esta semana, na aula de sociologia da cultura, disse aos alunos que a vida quotidiana era pautada por uma enorme confiança nos outros e por um sem número de interditos. Alguns interditos desenvolvem-se e consolidam-se aos nossos olhos. Por exemplo, deitar pontas de cigarro para o chão. Brevemente, um fumador andará com um cinzeiro portátil. A tendência para a higienização tem séculos (Elias, Norbert, O processo civilizacional, 1939). Convém acrescentar a preocupação com o lixo destinado às nossas cabeças. Esta preocupação consubstancia-se em actividades como a censura ao nível da Internet e da publicidade. Trata-se de uma espécie de “ecologia do espírito”, para abusar de uma expressão de Gregory Bateson (Steps to an ecology of mind, 1972). Mas esta higiene dos neurónios comporta falhas. Não se sabe ao certo quem anda a tirar e a pôr lixo nas nossas cabeças. Os anúncios da campanha Dont be a tosser, da NSW Environment Protection Authority, mostram uma elevada intolerância ao lixo nos espaços públicos. No anúncio Report a tosser, apela-se, inclusivamente, à denúncia dos infractores. A ponta de cigarro destaca-se em três dos quatro anúncios de animação.

1) Anunciante: NSW Environment Authority. Título: Don’t be a Tosser! If it’s not in the bin, it’s on you. Produção: Paper Moose. Austrália, Outubro 2018.

2) Anunciante: NSW Environment Authority. Título: Don’t be a Tosser! If it’s not in the bin, it’s on you. Produção: Paper Moose. Austrália, Outubro 2018.

3) Anunciante: NSW Environment Authority. Título: Don’t be a Tosser! If it’s not in the bin, it’s on you. Produção: Paper Moose. Austrália, Outubro 2018.

4) Anunciante: NSW Environment Authority. Título: Don’t be a Tosser! If it’s not in the bin, it’s on you. Produção: Paper Moose. Austrália, Outubro 2018.

5) Anunciante: NSW Environment Authority. Título: Report a Tosser. Austrália, Outubro 2018.

A viúva de mármore

01. Peter Schipperheyn. Asleep. Mt Macedon Cemetery in Victoria, Australia. 1987

01. Peter Schipperheyn. Asleep. Mt Macedon Cemetery in Victoria, Australia. 1987

Em 1981, o escultor Peter Schipperheyn foi contactado por Laurie Matheson para fazer uma escultura em tamanho natural de sua mulher, Christine. Em 1986, Laurie morre. A viúva, Christine, contacta Peter Schipperheyn para encomendar uma nova escultura, desta vez tumular, chamada Asleep: um nu que demonstra o seu apego ao marido. Asleep encontra-se no cemitério do Mte Macedon, em Victoria, na Austrália.

02. Peter Schipperheyn. Asleep. Mt Macedon Cemetery in Victoria, Australia. 1987

02. Peter Schipperheyn. Asleep. Mt Macedon Cemetery in Victoria, Australia. 1987

03. Peter Schipperheyn. Asleep. Mt Macedon Cemetery in Victoria, Australia. 1987

03. Peter Schipperheyn. Asleep. Mt Macedon Cemetery in Victoria, Australia. 1987

04. Peter Schipperheyn. Asleep. Mt Macedon Cemetery in Victoria, Australia. 1987

04. Peter Schipperheyn. Asleep. Mt Macedon Cemetery in Victoria, Australia. 1987

05. Peter Schipperheyn. Asleep. Mt Macedon Cemetery in Victoria, Australia. 1987

05. Peter Schipperheyn. Asleep. Mt Macedon Cemetery in Victoria, Australia. 1987

A boca e o resto

Young Henrys 2

De tanto badalar, o badalo perde o sino. O género justifica, neste anúncio, uma espécie de paródia com final inesperado. Após várias tentativas kitsch apostadas em criar produtos “femininos”, empoderadores da mulher, a australiana Young Henrys propõe uma nova cerveja, a Lady Beer, que sabe a igualdade”:  “The Young Henrys Newtowner, made for your mouth, not your genitals”. Humor, irreverência, provocação, politicamente incorrecto, sentido de marca?

Marca: Young Henrys. Título: Lady Beer. Agência: Unko. Austrália, Maio 2018.

A comédia e a tragédia

Mosaic showing theatrical masks of Tragedy and Comedy. Roman artwork, 2nd century CE.

Mosaic showing theatrical masks of Tragedy and Comedy. Roman artwork, 2nd century CE.

As relações de género são uma tentação para publicidade actual. Acontece, por vezes, a quantidade gerar variedade. Por exemplo, variedade de registos. Os anúncios The Real You Matters, da SBS, e Streetguard, da Tracking Systems de Mexico, aludem a problemas graves: a insegurança das mulheres nas ruas e a discriminação sexual no emprego. Um adopta um registo cómico, o outro, um registo dramático. O primeiro convida a rir a pretexto de situações de vulnerabilidade laboral, tais como a gravidez ou a homossexualidade. O segundo publicita a descoberta de um escudo protector na ameaça da escuridão urbana: um novo comando que activa os alarmes dos carros em redor. Este anúncio é intrigante. Importa, naturalmente, capacitar as potenciais vítimas com meios adequados de defesa. Mas esta solução técnica comporta riscos. O controlo do acesso aos comandos não se adivinha fácil. Se caírem em mãos impróprias, por exemplo de bandos urbanos, o que sucede? O baile da meia-noite no bairro dormitório? Todas as noites passam a noite de S. João? As técnicas costumam oscilar entre o diabo e o bom Deus. Importa saber como aproveitá-las.

“A través de nuevos e innovadores productos integradores de tecnología, Tracking Systems de México, empresa de Grupo UDA, fomenta la prevención y brinda soluciones a empresas en cuatro áreas indispensables como: Logística, Tráfico, Seguridad, y Atención al Cliente” (http://naciontransporte.com/tracking-systems-de-mexico/).

Marca: SBS. Título: The Real You Matters. Agência: Havas Melbourne. Direcção: Carl Sorheim. Austrália, Maio 2018.

Marca: The Tracking Systems de Mexico. Título: Streetguard. Agência: Ogilvy Mexico. Direcção: Mónica G. Carter. México, Maio 2018.

 

Três dedos abaixo de cão

Tavern scene. Meb drinking, with a cellarer below. Late 14th century

Tavern scene. Meb drinking, with a cellarer below. Late 14th century

Tive um blogue chamado Marginália. Retomo parte do artigo Bestialidade (http://dobras.blogspot.pt/2010/08/bestial.html).

O grotesco não está de volta. Ele nunca nos deixou. Mas está no vento! Tal como “o feio, o porco e o mau”. Afirmar que ultrapassa os limites não passa de um pleonasmo. O grotesco está sempre a ultrapassar limites. Essa é a sua sina. Mas, por vezes, surpreende. Pela pujança e pelo insólito. É o caso do anúncio “slow motion” da Carlton Draught.

Marca: Carlton Draught. Título: Slow Motion. Agência: Clemenger BBDO. Direcção: Paul Middleditch. Austrália, Agosto 2010.

Não deixa de ser tentador, mas infundado, entrever neste anúncio alguma intertextualidade perversa, uma espécie de paródia do grotesco “hiper-realista” e degradante de algumas campanhas anti álcool, anti tabaco, anti obesidade e anti coiso.  Atente-se, por exemplo, nos seguintes anúncios provenientes de campanhas anti álcool.

Anunciante: Binge Drinking Awareness. Titulo: Anti Binge Drinking NHS. Agência: Atticus Finch. Direcção: Chris Richmond. Reino Unido, Julho 2010.

Anunciante: Vinbúdin. Título: Don’t be a pig. Agência: Ennemm. Direcção: Sammuel & Gunner. Islândia. Maio 2008.

É provável que os promotores destes anúncios tenham razão. Mas ter razão não é o mesmo que ter a razão, e muito menos ser capaz de fazer bom uso dela. Afigura-se-me que uma campanha de sensibilização comunitária não pode dispensar o respeito pelo outro, seja este vítima ou infractor. Certos (ab)usos da razão despertam, de algum modo, velhos fantasmas, tais como as purgas dos totalitarismos do séc. XX ou os desmandos das Guerras da Religião dos séculos XVI e XVII, ambos propensos a conceber o outro como um animal ou um mostrengo. Mas há quem tendo (a) razão também a sabe utilizar, a preceito, com criatividade e bom gosto. É o caso do seguinte anúncio português premiado em Cannes.

Anunciante: Fundação Portuguesa de Cardiologia. Título: Balão. Agência: Ammirati Puris Limpas. Portugal, Julho1999

Épico de massas

Parismacht

Repeti vezes sem conta que alguns desportos são simulacros de guerra. Mas nem todos. Talvez o futebol ou o rugby, mas não o esqui, o mergulho ou o asa delta. Estes últimos lutam, quando muito, com a natureza. Mas não é essa a filosofia, a intenção reside em fazer da natureza (neve, água, ar) um parceiro. Mas estamos sempre a aprender. O anúncio ucraniano Epic Battle, da empresa de apostas Parimatch, vai mais longe: às tantas não sabemos se estamos a praticar desporto com tiques de guerra ou a fazer a guerra como desporto. Epic Battle é um épico de massas, que lembra outro épico de massas, a Big Ad, da Carlton Draught.

Marca: Parimatch. Título: Epic Battle. Produção: Electric Sheep Film. Direcção: Macar Severin, Andrei Copots, Ucrânia, Outubro 2017.

Marca: Carlton Draught. Título: Big ad. Agência: George Patterson Partners. Direcção: Paçul Middleditch. Austrália, 2005.

 

A felicidade dos seios

Berlei oppressed

Os seios querem-se confortáveis e felizes. “Os homens que mostram demasiado a sua inteligência são como as mulheres que mostram demasiado os seus seios » (António Lobo Antunes, Lire, Novembro 1999). É verdade, os seios querem-se inteligentes e recatados. Não são como a face; entrevêem-se, apenas, em momentos de fortuna. Os seios não ganham em ser apalpados com os olhos, mas em ser desenhados pela imaginação. Um soutien, mais do que um suporte, é uma embalagem. Um bom soutien é uma felicidade para os seios. Assim o entendem as marcas de lingerie.

Introducing Womankind é um excelente anúncio da Berlei, uma marca particularmente reputada ao nível do underwear feminino desportivo.

Marca: Berlei. Título: Introducing womankind. Agência: The Monkeys. Direcção: Kim Gehrig. Austrália, Agosto 2017.

 

O triunfo da teratologia

meet-graham-hed-2017

O anúncio Meet Graham, da Transport Accidente Commission (Victoria, Austrália), não é um anúncio qualquer. Acaba de ganhar o Grande Prémio do Júri, do Festival de Cannes, de 2017. É, todo ele, impatante. A sobrevivência aos acidentes de trânsito requer um corpo adaptado, um corpo monstruoso como o de Meet Graham. O futuro não se escreve com linhas esbeltas mas com  massas e dobras adiposas. Especialistas em colisões e uma artista, Patricia Picinnini, deram corpo a esta criatura à prova de choque, por sinal, peça de museu. A opção é simples: ou monstros, ou mortos. Ressalve-se, no entanto, que esta “antecipação do futuro” vale para as estradas. Nos corredores do Homo Academicus, é diferente; só um hiper-monstro consegue resistir aos encontros entre pares. Neste caso, a língua deve medir, no mínimo, metro e meio, para lamber as botas; as costas muito largas e moles, para amortecer os golpes; o cérebro ínfimo, para não se afundar nas areias movediças do pensamento. Para um comentário mais completo a este anúncio: http://edition.cnn.com/2016/07/25/health/graham-human-body-sculpture-car-accident/index.html.

Anunciante: Transport Accident Commission – TAC Victoria. Título: Meet Graham. Agência: Clemenger BBDO Melbourn. Austrália 2016.

 

Descarrilar

AIME cogs

Andar sobre carris pode ser bom ou mau. Quando uma economia anda sobre carris parece que é bom. Quando os seres humanos andam sobre carris é mau sinal, é sinal de desumanização, de que a decisão transitou do homem para a engrenagem que construiu. Este cenário distópico assombra a literatura e o cinema ocidentais. Que fazer? A resposta do anúncio Cogs, da AIME, não pode ser mais clara: o que faz falta é descarrilar. Descarrilas tu, descarrilo eu… Mas, atenção, que descarrilar não é fácil. Imagino-me na ponte sobre a Estação Saint-Lazare em Paris: os comboios descarrilam para logo encarrilhar. Mas há muito quem tenha conseguido descarrilar: Don Quixote, Caravaggio, Mozart, Goya, Van Gogh, Francis Bacon…

O realizador deste anúncio, Laurent Witz, ganhou, em 2014, o Óscar pela melhor curta-metragem de animação com o filme Mr Hublot.

Marca: AIME. Título: Cogs. Agência: M&c Saatchi (sydney). Direcção: Laurent Witz. Austrália, Junho 2017.

Mr Hublot. Por Laurent Witz & Alexandre Espigares. Curta-metragem. Ganhou o Óscar pela melhor curta-metragem em  2014.

Rosas selvagens

Sir John Everett Millais Ophelia 1851-2

Sir John Everett Millais. Ophelia. 1851-2.

Adoro aproximar o que nasce separado. É um vício. A Ofélia de Sir John Everett Millais (1851-2) lembra o vídeo Where The Wild Roses Grow (1996), de Nick Cave & Kylie Minogue. Não quer descobrir as diferenças entre a Ofélia do Millais e a Kylie Minogue do Nick Cave?

Nick Cave & The Bad Seeds / Kylie Minogue. Where The Wild Roses Grow. 1996.