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O triunfo da teratologia

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O anúncio Meet Graham, da Transport Accidente Commission (Victoria, Austrália), não é um anúncio qualquer. Acaba de ganhar o Grande Prémio do Júri, do Festival de Cannes, de 2017. É, todo ele, impatante. A sobrevivência aos acidentes de trânsito requer um corpo adaptado, um corpo monstruoso como o de Meet Graham. O futuro não se escreve com linhas esbeltas mas com  massas e dobras adiposas. Especialistas em colisões e uma artista, Patricia Picinnini, deram corpo a esta criatura à prova de choque, por sinal, peça de museu. A opção é simples: ou monstros, ou mortos. Ressalve-se, no entanto, que esta “antecipação do futuro” vale para as estradas. Nos corredores do Homo Academicus, é diferente; só um hiper-monstro consegue resistir aos encontros entre pares. Neste caso, a língua deve medir, no mínimo, metro e meio, para lamber as botas; as costas muito largas e moles, para amortecer os golpes; o cérebro ínfimo, para não se afundar nas areias movediças do pensamento. Para um comentário mais completo a este anúncio: http://edition.cnn.com/2016/07/25/health/graham-human-body-sculpture-car-accident/index.html.

Anunciante: Transport Accident Commission – TAC Victoria. Título: Meet Graham. Agência: Clemenger BBDO Melbourn. Austrália 2016.

 

Descarrilar

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Andar sobre carris pode ser bom ou mau. Quando uma economia anda sobre carris parece que é bom. Quando os seres humanos andam sobre carris é mau sinal, é sinal de desumanização, de que a decisão transitou do homem para a engrenagem que construiu. Este cenário distópico assombra a literatura e o cinema ocidentais. Que fazer? A resposta do anúncio Cogs, da AIME, não pode ser mais clara: o que faz falta é descarrilar. Descarrilas tu, descarrilo eu… Mas, atenção, que descarrilar não é fácil. Imagino-me na ponte sobre a Estação Saint-Lazare em Paris: os comboios descarrilam para logo encarrilhar. Mas há muito quem tenha conseguido descarrilar: Don Quixote, Caravaggio, Mozart, Goya, Van Gogh, Francis Bacon…

O realizador deste anúncio, Laurent Witz, ganhou, em 2014, o Óscar pela melhor curta-metragem de animação com o filme Mr Hublot.

Marca: AIME. Título: Cogs. Agência: M&c Saatchi (sydney). Direcção: Laurent Witz. Austrália, Junho 2017.

Mr Hublot. Por Laurent Witz & Alexandre Espigares. Curta-metragem. Ganhou o Óscar pela melhor curta-metragem em  2014.

Rosas selvagens

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Sir John Everett Millais. Ophelia. 1851-2.

Adoro aproximar o que nasce separado. É um vício. A Ofélia de Sir John Everett Millais (1851-2) lembra o vídeo Where The Wild Roses Grow (1996), de Nick Cave & Kylie Minogue. Não quer descobrir as diferenças entre a Ofélia do Millais e a Kylie Minogue do Nick Cave?

Nick Cave & The Bad Seeds / Kylie Minogue. Where The Wild Roses Grow. 1996.

Hambúrger

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O anúncio da McDonald’s, Appetite needs Opportunity, proveniente da Austrália, sustenta, com vários exemplos, que a política laboral da empresa facilita o sucesso dos seus colaboradores. Mas o que me atraiu no anúncio foi a música. Uma canção brasileira num anúncio australiano: Drinkee, de Sofi Tukker (Soft Animals, 2016).

Marca: McDonald’s Australia. Título: Appetite needs opportunity. Agência: DDB Sydney. Direcção: Justin McMillan. Austrália, Fevereiro 2017.

Sofi Tukker. Drinkee. Soft Animals. 2016.

A carne e a escada para o céu.

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Francis Bacon. Study for a Crucifixion. Pormenor. 1962.

Os australianos estão do outro lado do mundo. Às avessas. Com um sentido de humor muito próprio: enérgico, retorcido e desinibido. O inesperado e o incongruente persistem como principal fonte de humor. Quero envelhecer assim: ao saltos com uma guitarra nas mãos.

Há quem acredite, sobretudo as “classes laboriosas”, que a carne vermelha é o mais nutritivo e o mais revigorante dos alimentos (Bourdieu, Pierre, La Distinction, 1979). Da crença ao hino, apenas um passo. Red Meat merece o Stairway to Heaven, dos Led Zeppelin (tenho em casa um guitarrista que gosta de tocar esta música).

Marca: Red Meat – Australian Meat & Livestock. Título: Stairway to Heaven. Agência: Campaign Palace. Direcção: Graeme Burfoot. Austrália, 2002.

Led Zeppelin. Stairway to Heaven. Live Earls Court. 1975.

A aceleração da morte

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“Tarde, cerca da meia-noite, guiado pela juventude
Que comanda os enamorados, ia ver a minha amante.
Completamente só, além do Loire, e passando por um desvio
Aproximando-me de uma grande cruz numa encruzilhada,
Oiço, parecia-me, uma caça cheia de latidos
De cães que me seguiam, passo a passo, o rastro;
Vi perto de mim, sobre um grande cavalo negro,
Um homem que só tinha os ossos, ao vê-lo,
Estende-me uma mão para me montar na garupa.”

(Ronsard, Pierre de (1524-1585), Oeuvres complètes de Pierre Ronsart, Paris, P. Janet,1857-1867, pp. 134-135. Tradução minha, AG).

Anunciante: Rail Safety. Título: Horsepower. Agência: Marketforce Perth. Austrália, Agosto 2011.

O anúncio Horsepower, da Rail Safety, é um concentrado de símbolos e emoções. O galope é avassalador e imparável. Galopam os cavalos e galopa o anúncio. Galopam, ainda, o coração e a imaginação. O esquartejamento e barba sugerem as trevas medievais. As correntes metálicas e a carroçaria do comboio são frias e mortíferas. Os mitos associam os cavalos à morte, nomeadamente quando são negros como o cavalo que guia a manada. O final, em plena velocidade, sobressalta o espectador: um arrepio de quem sente passar a morte! Ameaçado entre potências, o ser humano descobre-se frágil, tão frágil como o viajante de Pierre Ronsart.

“Os cavalos da morte são, na maioria, negros, como Charos, Deus da morte dos Gregos modernos. Negros são também, na maioria das vezes, os corcéis da morte, cuja cavalgada infernal perseguiu durante muito tempo os viajantes perdidos, na França assim como em toda a cristandade (Chevalier, Jean & Gheerbrant, Alain, Dictionnaire des Symboles, Paris, Ed. Robert Laffont, 1969, p. 226).

 

Públicos da Arte

Art Gallery2

O anúncio Art Gallery, da Sportsbet Multi  Builder, é uma paródia da arte, designadamente da recepção e da avaliação das obras de arte pelos públicos. Trata-se de um tema recorrente. Recordo Mr. Bean às voltas com o quadro Whistler’s mother, o ministro russo que, após visitar o Ocidente, regressa encantado com a arte de fazer arte com lixo (Rafael Pividal, Pays Sages, 1977). Humor à parte, destaque-se, também, a investigação de Pierre Bourdieu sobre os públicos da arte: L’Amour de l’Art (1966) e Un Art Moyen (1965).

Marca: Sporsbet. Título: Art Gallery.  Agência: Sportsbet Creative Team supported by DPR&Co. Direcção: Dave Wood. Austrália, Julho 2016.

O Ditador Caprichoso

chatime.pngA paródia arremeda a realidade para a subverter, pela farsa, pela caricatura, pela ironia, pelo sarcasmo. Desarma, por exemplo, o poder cobrindo-o de ridículo. Rir do mal faz bem? A quem? Ao ditador caprichoso ou à vítima indefesa? A resposta não é óbvia (Georges Balandier, O Poder Em Cena, 1ª ed. 1980). O imaginário é complexo. Entre ingredientes, receitas e cozedura, a pastelaria simbólica é imprevisível.

Marca: Cha Time. Título: You’ve Never Had Iced Tea Like This Before. Agência: The Sphere Agency. Direcção: Tyler Clayton. Austrália, Abril 2016.

 

Sementes de violência

Violence domestique

“Os homens são tão estúpidos que uma violência repetida acaba por lhes parecer um direito” (Claude-Adrien Helvétius, Proverbes, maximes et pensées (1765).

A violência é uma dimensão tortuosa e complicada do ser humano. Importa precaver contra a violência desde a infância. É decisivo. Mas como? Por um lado, não pode ser como os contrafogos que apagam o fogo com fogo. Por outro lado, as crianças aprendem com os adultos, mas o mundo dos adultos é um espectáculo de violência, com ou sem eufemismos.

Anunciante: Australian Government. Título: Stop it at the start. Agência: BMF Australia. Direcção: Derin Seale. Austrália, Abril 2016.

Realidade virtual

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No anúncio australiano Eagle Woman, da 8 Bar, uma mulher voa como uma águia e levita como um santo. Sem levitação, o voo seria pesado. Por sinal, já conseguimos imitar o voo dos pássaros, por exemplo, com modalidades desportivas como a asa-delta ou o wingsuit.

Jean Duvignaud, Françoise Duvignaud e Jean-Pierre Corbeau recolheram milhares de relatos de sonhos. Muitos franceses sonham com voar, em particular os membros das novas classes médias (Duvignaud, Jean et alii, La banque des rêves, Paris, Payot, 1979).

Figura órgão de Tibães

Figura do órgão do mosteiro de Tibães.

Não sou dado a profecias, mas, quando a poesia se alucina, não resisto. A realidade virtual apossar-se-à nos próximos tempos da rampa tecnológica. Com que impacto? Creio que antes do Juízo Final, mais do que a imersão num simulacro pré-fabricado, vamos aceder ao espectáculo da própria “alma”, desde a cave até ao sótão (Bachelard, Gaston, La Poétique de l’Espace, Paris, PUF, 1957) e do recalcado ao sublimado. Em suma, o inconsciente e o não-consciente. Todo o icebergue! Uma experiência “terrível”.

Figura órgão de Tibães 2

Figura do órgão do mosteiro de Tibães.

Na sanefa das escadas de acesso ao coro alto do Mosteiro de Tibães, aguarda-nos a seguinte inscrição: “Terribilis este locus iste, vere, hic domus dei est, et porta coeli” (“Este lugar é terrível. Esta é a casa de Deus e a porta do céu”: Oliveira, Paulo, “O coro alto da igreja do mosteiro de Tibães”, Minia, nº13, IIIª série, 2014). Nem terríveis, nem extraordinários, eu e o Paulo Oliveira vamos dar uma aula aberta, com visita, no Mosteiro de Tibães,  subordinada ao tema O espaço fala – O Coro Alto e o Escadório das Virtudes do Mosteiro de Tibães. No âmbito do Programa Doutoral de Estudos Culturais, terá lugar no dia 26 de Abril, às 14:30. Apareça, será bem-vindo.

Marca: 8Bar. Título: Eagle Woman. Agência: DDN Melbourne. Direcção: Tim Bullock. Austrália, Março 2016.