A reincidência do grotesco

A publicidade parece desinibir-se, revisitando uma vocação excêntrica algo esmorecida. Seguem 4 anúncios exemplares: uma metamorfose (Bing your saturday to live), uma disformidade (Chocolate Like Nobody’s Watching), uma paródia (Beers To Come True) e uma alegoria (Care You Can Count On).

Véus de vidro
Aqueles que têm mais consciência são quem tem maiores pesadelos (atribuído a Gandhi)
Entre a sexta do sacrifício e o domingo da vitória, a descida ao limbo e a subida às alturas, talvez se proporcione a sonoridade dos Glass Beams: “uma fusão hipnótica de rock psicadélico, funk, surf rock australiano e música clássica indiana. A banda utiliza escalas orientais, riffs cíclicos e polirritmias que evocam uma atmosfera cósmica e meditativa” (ChatGPT, 19.04.2025).
O misterioso trio de Melbourne Glass Beams é um dos mais recentes fenómenos deste globo cada vez mais pequeno (…) / Com as suas máscaras exóticas, uma identidade secreta e um universo musical em permanente polenização entre o oeste e o oriente mágico, o segredo parece ser a alma deste fantástico trio. / O pouco que sabemos sobre os Glass Beams é que se fundaram em torno de Rajan Silva, um filho de emigrantes, com evidentes raízes portuguesas, que no final da década de 70 emigrou da Índia para a Austrália com uma colecção de discos na bagagem que se estendia entre Bollywood, Ravi Shankar, George Harrison e Muddy Waters. A formação de Rajan Silva bebeu por isso dessa intersecção entre a música clássica indiana e uma fusão de estilos ocidentais do rock ao funk, entre o passado e o futuro (https://www.oxigenio.fm/glass-beams-mahal/).
Os Glass Beams atuaram em agosto de 2024 no festival de Paredes de Coura. Vários trechos lembram-me os Camel da primeira metade dos anos setenta.
Prazer gutural

Amanhã, segunda 3, pelas 22 horas, vou animar uma tertúlia sobre o Carnaval, na Observalícia (Rua Nova de Santa Cruz, 369, lj18, Braga). Convocarei, principalmente, resultados de estudos que empreendi. Entretanto, enquanto preparo imagens, escuto música.
O canto é fonte de múltiplos prazeres, de ouvintes e intérpretes. Nos últimos, relevo o prazer que designo como gutural. Remete para a respiração, para a sensação do ar na garganta. A propósito da infância, Jean-Louis Tristani chega a avançar a noção de um “estádio do respiro” (ver De cortar a respiração).
Afigura-se-me existirem cantores que apostam nesse efeito.
Não conhecia. Gostei e disfrutei. Ele usa a voz praticamente em modo de sussurro, com uma poderosa união ao instrumental, em que persiste uma batida de fundo, como o bater do coração. Na segunda, de modo ainda mais complexo, a orquestra eleva a cadência, juntando um instrumento de cada vez, até a uma linha curta mas contínua, como se fora o lugar do êxtase, para depois docemente voltar à batida do coração, sossegando. Apela a todos os sentidos, expirando toda uma sensualidade que, se não invoca, pelo menos roça o erótico. É perfeito para escutar com os olhos fechados numa união com os elementos. Howling, Uivando, se não à lua, para dentro do peito. Meu Deus, como me surgiu tudo isto. O melhor é mesmo sentir… (Almerinda Van Der Giezen)
Pitosga
Creio que o riso ainda não é censurado. Aproveitem!
Roupa fantasma
“Every synthetic garment ever made still exists in any form haunting our planet”. Nem mais, nem menos. Trata-se de uma coisa do outro mundo que está a acabar com o nosso! No anúncio “Wear Wool, Not Waste”, da Woolmark Company, a roupa sintética não sei se me lembra os pássaros do Alfred Hitchcock, se os zombies do George A. Romero. Sem poupar nos pixéis, com tanta roupa a cair, além de Os Pássaros (1963) e A Noite dos Mortos-Vivos (1968), acudir-me-ia também o Nove Semanas e Meia (1986), do Adrian Lyne.
Este anúncio é bem ao gosto da Beatriz, em particular da sua devoção pela reciclagem de roupa. Já o comentário, menos sério, duvido.
Loura e pura
A cerveja, como o tabaco, pode ser um vício de estimação. Uma loura, o outro moreno. Surpreendentemente, ambos podem ser “puros”. Se não é alérgico ao prazer, à beleza, à fantasia e ao disparate, convido-o a saborear estes três anúncios da marca Pure Blonde. Divirta-se! Hoje, domingo, é dia de oração mas também de recreação.
Identidade, alteridade e virtualidade

A publicidade pode ser instrutiva. Acontece com os anúncios “New Dawn”, da Hyundai, e “Un-Australia”, da Meat & Livestock Australia, que ilustram duas noções elementares das ciências sociais, que passo a resumir.

O valor de uma palavra provém do carácter distintivo dos seus usos virtuais. Simplificando, uma palavra vale quando permite dizer algo que as outras palavras não conseguem (a partir de F. Saussure, Cours de Linguistique Générale, 1916).
A identidade não remete para uma essência mas decorre da relação com os outros, com a alteridade. Simplificando, somos o que somos menos pelas semelhanças e mais pelas diferenças (a partir de C. Lévi-Strauss, L’ Identité, 1977).
A música na publicidade

Quando a música e, eventualmente, a dança são estrelas, o resto perde brilho. São exemplo os anúncios Dairy Dancing, da Pump e Little Angels, da Hyundai. O motivo e a marca podiam mudar, o impacto e a promoção mantinham-se. Repare-se, por último, que a música produz um efeito de união: em Dairy Dancing, as pessoas sintonizam-se; em Little Angels, a música pacifica e gera comunhão dentro e fora da família.
Se o meu carro fosse um cavalo

O anúncio australiano Sleeper, da companhia de seguros NRMA, é inteligente, estranho e subtil. Somos convidados a acompanhar a viagem, noturna, de duas crianças e da respetiva mãe, ao volante. Adormecem, mas o carro prossegue caminho. Ficamos tensos à espera do pior. Alimentada pelas imagens, a tensão não abranda. A perturbação avoluma-se com a sensação de não perceber o que se passa, ou seja, porque nada se passa! Naquela noite, os carros conduzem sozinhos. “Enquanto os nossos carros não conduzirem sozinhos, conduza com segurança”. Como Jolly Jumper, o cavalo de Lucky Luke. As campanhas de prevenção rodoviária multiplicam-se na época natalícia..

