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Farsa trágico-marítima

Se o dia 11 de julho foi fértil em artigos memoráveis, o 12 mostra-se avaro. É preciso recuar mais de uma década. Inicio com Caravelas do século XXI, de 2013. Ácido, discorre sobre a conjunção “se” como alavanca ou muleta do pensamento. Conjetura ainda se não somos exímios na arte de urdir teias para enredar as nossas próprias caravelas. Naquele dia, devo ter tomado fel ao pequeno almoço. Valem os Pink Floyd.

Fios de aranha e voos de borboleta

Por Mohanad Shuraideh

Que força é essa? Que força é essa?
Que trazes nos braços?
Que só te serve para obedecer?
Que só te manda obedecer?
(Sérgio Godinho, Que Força É Essa. Os Sobreviventes, 1972).

Pouco ou muito coloridas, as nossas sociedades toleram cada vez menos o voo das borboletas. Imprevisível, importa discipliná-lo, dar-lhe moldura geométrica, à semelhança, por exemplo, do alinhamento das formigas ou da formação dos gansos.

Na justiça, palaciana ou popular, a presunção de inocência conheceu melhores dias. A corrente incontinência de regras, procedimentos e controlos parece assentar no primado do mal e na bênção exorcista. Para prevenir qualquer hipótese de falhas ou desvios, as leis e os procedimentos desconfiam de tudo e de todos. Tentam acautelar, em particular, os “efeitos borboleta”, os pequenos nadas aleatórios suscetíveis de subverter a arquitetura impecável do conjunto, porventura uma gaiola dourada.

As regras e as normas visam menos a orientação ou a coordenação e mais a restrição e a filtragem. Multiplicam-se e complicam-se os postigos e as chaves. Não obstante, com tamanha urdidura, profilaxia e purga, há cada vez menos notícia de pessoas, gestos e obras decentes. Sem um mínimo de confiança, as relações humanas resultam perversas e penosas. Enquistam, definham e degradam-se.

Entretanto, as borboletas continuam a voar como se não existissem teias de aranha.

Willie Nelson. Butterfly. God’s Problem Child. 2017
Bénabar. L’effet papillon. Infréquentable. 2008
Sérgio Godinho. Que Força É Essa? Os Sobrevivente, 1972

A aranha e a mosca

MM-ART. La mouche

MM-ART

Fala-se pouco das sociedades secretas, mas existem. Com proveniências e poderes diversos, as sociedades secretas conjugam efeito e proveito. Garantes da desigualdade, os seus membros dispõem de recursos que os outros concidadãos nem sonham. São redes de dependência pessoal seletivamente performativas, mais invisíveis do que as teias de aranha: “um certo modo de processamento da desigualdade” (Balandier, Georges, “Les relations de dépendance personnelle”, Cahiers d’Études Africaines, Année 1969, 35, pp. 345-349). Dan Brown dedicou-lhes vários livros. Por seu turno, a McDonnells dedica-lhes um anúncio: Chippus Currius. Entretanto, enredamo-nos como moscas tontas.

Marca: McDonnells. Título: Chippus Currius. Agência: Boys + Girls. Direcção: Chris Cottam. Irlanda, Setembro 2018.

O Tendências do Imaginário não tem nenhuma canção dos Les Compagnons de la Chanson. Uma falha.Ainda se vai a tempo. La Mouche não é um dos seus maiores sucessos, mas tem a virtude de falar, com bom humor, da nossa relação com as moscas.

Les Compagnons de la Chanson. La Mouche. Live à l’Olympia. 1983.

 

Comunicação, realidade e ficção

O que é realidade e o que é ficção? A ausência de discernimento releva da hiper-realidade, da psicose, do discurso político ou de media sobre-excitados? Tornar uma ficção realidade, desfazer e refazer é um ato de comunicação?
Nos anúncios seguintes, são notórios os efeitos de verdade/ficção graças aos media.
Why an eccentric brazilian billionnaire dug a grave for his Bentley é um caso digno de atenção. O abuso dos media, a dramatização, a interacção e a  mobilização compõem uma receita de sensibilização social com um futuro promissor. Com este anúncio, o Brasil recoloca-se na vanguarda da publicidade.

Marca: Associação Brasileira para o Transplante de Órgãos. Título: Why an eccentric brazilian billionnaire dug a grave for his Bentley. Agência: Leo Burnett Tailor Made – Brazil. Brasil, Outubro 2013.

Portugal também tem os seus truques à Orson Welles. No seguinte “anúncio”, um noticiário de televisão capta em directo uma invasão de aranhas gigantes na ponte 25 de Abril. Convenha-se, contudo, que aranhas gigantes em Lisboa não são grande novidade. As teias cobrem, há muito, o país. Carregar na imagem.

Aranhas Gigantes em Lisboa

Aranhas Gigantes em Lisboa