Poder na palma da mão
O iPhone 5 permite auscultar o corpo, traçar itinerários, acompanhar uma canção, filmar curtas metragens, promover instalações de arte, ver as estrelas… “With the power of iPhone 5s, you’re more powerful than you think”. Tanto poder na palma da mão! E, no entanto, não parece. Nem com resmas de iPhone 5s. A Física deve ter algum princípio do género: quando um fenómeno é demais, deixa de se sentir. Por exemplo, quando a velocidade de um corpo é muito elevada, deixamos de o ver. Da generosa colheita de mestres palavras circuladas nas últimas décadas, empowerment (empoeiramento?) é aquela que mais aprecio. O homem moderno é um Sansão compulsivo, com a técnica a substituir o cabelo. We are so empowered, aren’t we?
Marca: iphone. Título: Powerful. Agência: TBWA. USA, Abril 2014.
A Maçã
A maçã é um fruto perverso e pretensioso. Intromete-se no destino da humanidade: Eva, Newton, Guilherme Tell, Magritte (ver imagem), Prévert (ver poema em português e em francês), Branca de Neve, The Beatles… Nada que a Apple descuide: desta vez, convida-nos a uma dentada num iPhone (ver anúncio) acompanhada pela música sensual dos Goldfrapp (oohlala)?
Marca: Apple iPhone 5s. Título : Apple Metal Mastered. Agência : TBWA. USA, Outubro 2013.
Recreação de Picasso (La Promenade de Picasso)
Numa base bem redonda de porcelana real
posa uma maçã
Face a face com ela
um pintor da realidade
em vão tenta pintar
a maçã tal como ela é
mas
ela não vai deixar
a maçã
ela vai se pronunciar
e tem várias tramas no seu saco de maçãs
a maçã
e ali está ela rodando
numa base real
dissimuladamente em si mesma
docemente sem se mover
e à guisa dum Duque de Guise que num truque é guizo
para que não lhe tirem a imagem a contragosto
a maçã disfarçada desfruta seu traje de bela bruta
e é então
que o pintor da realidade
Passa a perceber
que todas as aparências da maçã são contra ele
e
como o pobre indigente
como o miserável que se vê de repente à mercê de alguma associação beneficente e caridosa e assombrosa por sua beneficência e caridade e assombrosidade
o pobre pintor da realidade
se vê então de repente como a triste presa
de uma incontável multidão de associações de idéias
E a maçã a rodar evoca a macieira
o Paraíso terrestre e Eva e depois Adão
a sidra o leitão à mesa Nova Iorque e a maçaneta
a Argentina as Hespérides a verde a vermelha e a golden
branca do amor e a maçã de neve
e o pecado original
e as origens da arte
e a Suíça com Guilherme Tell
e até mesmo Isaac Newton
várias vezes premiado na Exposição da Gravitação Universal
e o pintor atordoado perde de vista seu modelo
e adormece
É então que Picasso
enquadrando-se ali como em toda oportunidade
cada dia como em sua casa
vê a maçã e o prato e o pintor adormecido
Que idéia de pintar uma maçã
diz Picasso
e Picasso come a maçã
e a maçã lhe diz Obrigado
e Picasso quebra o prato
e sai dali sorridente
e o pintor arrancado de seus sonhos
como um dente
se encontra só novamente diante da sua tela inacabada
com os terríveis caroços da realidade
bem no meio da sua louça despedaçada.
Jacques Prévert, 1949
La promenade de Picasso
Sur une assiette bien ronde en porcelaine réelle
une pomme pose
Face à face avec elle
un peintre de la réalité
essaie vainement de peindre
la pomme telle qu’elle est
mais
elle ne se laisse pas faire
la pomme
elle a son mot à dire
et plusieurs tours dans son sac de pomme
la pomme
et la voilà qui tourne
dans une assiette réelle
sournoisement sur elle-même
doucement sans bouger
et comme un duc de Guise qui se déguise en bec de gaz
parce qu’on veut malgré lui lui tirer le portrait
la pomme se déguise en beau bruit déguisé
et c’est alors
que le peintre de la réalité
commence à réaliser
que toutes les apparences de la pomme sont contre lui
et
comme le malheureux indigent
comme le pauvre nécessiteux qui se trouve soudain à la merci de n’importe quelle association bienfaisante et charitable et redoutable de bienfaisance de charité et de redoutabilité
le malheureux peintre de la réalité
se trouve soudain alors être la triste proie
d’une innombrable foule d’associations d’idées
Et la pomme en tournant évoque le pommier
le Paradis terrestre et Ève et puis Adam
l’arrosoir l’espalier Parmentier l’escalier
le Canada les Hespérides la Normandie la Reinette et l’Api
le serpent du Jeu de Paume le serment du Jus de Pomme
et le péché originel
et les origines de l’art
et la Suisse avec Guillaume Tell
et même Isaac Newton
plusieurs fois primé à l’Exposition de la Gravitation Universelle
et le peintre étourdi perd de vue son modèle
et s’endort
C’est alors que Picasso
qui passait par là comme il passe partout
chaque jour comme chez lui
voit la pomme et l’assiette et le peintre endormi
Quelle idée de peindre une pomme
dit Picasso
et Picasso mange la pomme
et la pomme lui dit Merci
et Picasso casse l’assiette
et s’en va en souriant
et le peintre arraché à ses songes
comme une dent
se retrouve tout seul devant sa toile inachevée
avec au beau milieu de sa vaisselle brisée
les terrifiants pépins de la réalité.
Jacques Prévert, 1949
Maçã de Outono
Não é qualquer marca que se permite um anúncio como este. Minimalista, sem narrativa e não figurativo. Ele é a história, ele é a figura. A lembrar os filmes de James Bond, a música, essa sim, enche qualquer espaço deixado vazio. Há anúncios assim, que se fazem esperar. Saem primeiro no cinema; a demais publicidade pode aguardar. E basta-lhes sugerir levemente, dizer quase nada, para o anúncio ser um sucesso. Por um lado, a Apple conjuga design e performance. Por outro lado, o que importa, o que realmente interessa, o que está em jogo, é uma simples frase: “Mac Pro – Fall 2013”. Este é, de facto, um anúncio: Mac Pro, o futuro do computador, “universo, fogo e visão”, está a chegar. Tanto quanto baste para criar suspense e frisson.
Marca: Apple. Título: Apple Mac Pro. Agência: TBWA. EUA, Agosto 2013.
Pontos e Pontes
Com poucos pontos, poucas linhas e poucas letras se resume o essencial da condução de um projecto. Há banquetes de palavras que nem um ponto, nem uma linha, nem uma letra conseguem esboçar. Recomendo este vídeo a quem esteja a elaborar um projecto de investigação ou de intervenção. Uma pequena confidência de bastidores: sinto o fantasma de Jacques Prévert a pairar em cada ponto, linha ou letra deste vídeo. Não há como ler o poema “Comment Peindre un Oiseau” e comparar. Deve ser isto o tal benchmarking.
Marca: Apple. Título: Designed by Apple in California. Agência: TBWA/Media Arts Lab. Direção: Buck. EUA, Junho 2013.
O artista vai à publicidade: Pablo Picasso
Picasso também aparece na publicidade. Com a desenvoltura, o génio e a grandeza do costume. O anúncio da Apple quer-me parecer que foi extraído do documentário “Le Mystère Picasso” (1956), de Henri-George Clouzot, classificado como “tesouro nacional” pelo governo francês, em 1984. É-nos dado observar, durante 75 minutos a fio, Picasso a fazer e a desfazer, uma após outra, 20 telas.
Marca: Apple. Título: Picasso. Agência: TBWA\Chiat\Day. Direção: Jennifer Golub. EUA, 1997.
Génios da Apple
The Crazy Ones é um dos primeiros anúncios marcantes da Apple. Oferece-nos o desfile de dezassete “embaixadores”, génios ou ícones da humanidade. O anúncio fecha com o rosto de uma criança que abre os olhos como quem desperta para o mundo. Um bom anúncio. Acontece-me concentrar, por vício, a atenção em minudências, algo como um incontornável apelo da mesquinhez. Dos 17 génios da humanidade, 11 são norte-americanos; dos restantes seis, três radicaram-se nos Estados Unidos e aí faleceram; cinco nasceram na Europa, três dos quais no Reino Unido. Apenas Gandhi não nasceu no chamado “primeiro mundo”. Trata-se de uma geografia deveras curiosa da genialidade. O género dos génios também tem que se lhe diga: 14 homens e 3 mulheres! É certo que o anúncio se destinou essencialmente à população norte-americana. Importava beliscar-lhe o orgulho e assegurar o reconhecimento das figuras. Nem um nem outro argumento ajudam, no entanto, a explicar as diferenças de género. Nada como pensar no assunto.
Personagens: Albert Einstein, Bob Dylan, Martin Luther King, Jr., Richard Branson, John Lennon, R. Buckminster Fuller, Thomas Edison, Muhammad Ali, Ted Turner, Maria Callas, Mahatma Gandhi, Amelia Earhart, Alfred Hitchcock, Martha Graham, Jim Henson (with Kermit the Frog), Frank Lloyd Wright, e Picasso.
Texto: “Isto é para os loucos. Os desajustados. Os rebeldes. Os criadores de caso. As peças redondas nos buracos quadrados. Os que vêem as coisas de forma diferente. Eles não gostam de regras. E eles não têm nenhum respeito pelo status quo. Você pode citá-los, discorda-los, glorificá-los ou difamá-los. Sobre a única coisa que você não pode fazer é ignorá-los. Porque eles mudam as coisas. Eles empurram a raça humana para frente. Enquanto alguns os vêem como loucos, nós vemos génios. Porque as pessoas que são loucos o suficiente para achar que podem mudar o mundo, são as que de fato, mudam” (Apple).
Anunciante: Apple. Título: The Crazy Ones / Think Different. Agência: Tbwa/chiat/day. EUA, 2000.
A bolha
Na qualidade de cronista do jornal online Comum, escrevi, demasiado expeditamente, reconheço-o, este pequeno artigo que se pretende bem humorado: ComUM: a bolha.
Enquanto escrevia “a bolha”, ocorreu-me, talvez influenciado pela morte de Steve Jobs, o clássico anúncio comemorativo da Apple (1984-2004):
Marca: Apple. Título: 1984 (2004). Agência: Tbwa. EUA, Janeiro 2004.

