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Encomendação das almas. Vice e Versa

O Tendências do Imaginário está a desviar-se do pensamento para o sentimento. Importa travar. A quem interessam os acordes de um violino pessoal?

Por quem lá tendes. Encomendação das Almas. Um filme de António Ventura. Idanha-a-Nova, 2017

Dor em quarto minguante no clamor da madrugada. Fogo que queima as nuvens. Seara que aborrece a ceifeira. Sarabanda em eira despida. Teimosia realizadora da esperança. Encomendação do Aquém, pelos presentes. O outro lado da encomendação das almas, filmada em Penha Garcia, Idanha-a-Nova, por António Ventura, numa bela curta-metragem documental de 2017. Agradeço a partilha à Rita Ribeiro. Como contraponto, três músicas do grupo irlandês The Pogues: Dirt Old Town; Young Ned of the Hill; e Tuesday Morning.

Por quem lá tendes. Curta-metragem Documental. Realização: António Ventura. Penha Garcia, Idanha-a-Nova, 2017
The Pogues. Dirt Old Town. Rum Sodomy & the Lash. 1985. Live At The Olympia, Paris, 2012
The Pogues. Young Ned of the Hill. Rum Sodomy & the Lash. 1985. Live At The Olympia, Paris, 2012
The Pogues. Tuesday Morning. Waiting for Herb. 1993. Live At The Olympia, Paris, 2012

O Amor e a Morte na Casa da Cultura

Coisas do Outro Mundo. Casa da Cultura. Melgaço, 21 de outubro de 2022

Chuva, frio e uma sensação única: o mesmo vento que me afastou do mundo traz-me de volta ao ninho. Era uma vez… o amor e a morte, a união e a separação, as formas e as sombras, os que ficam e os que partem. Memórias profundas e liminares. Apesar da concorrência do FC Porto-Benfica, a audiência do “serão dos medos” duplicou o previsto. Iniciado às 21:00, o “serão dos medos” durou quase até à meia noite. O encanto não teria sido o mesmo sem os testemunhos generosos, de uma oralidade prodigiosa e contagiosa, de duas pessoas maiores: as castrejas Angelina Fernandes e Palmira Fernandes. A sessão não se prolongou para “evitar o escuro das horas tardias”. Mas, pelos vistos, com a iluminação atual o risco é bem menor. E as pessoas deixaram-se estar em inspirada conversa. Uma iniciativa que, graças à dedicação dos amigos da Casa da Cultura e da Câmara de Melgaço, parece ter nascido para vingar. Era uma vez, não eRa? eRa, um grupo francês.

Galeria de fotografias: Coisas do Outro Mundo, Serões dos Medos, Casa da Cultura, Melgaço, 21 de outubro de 2022. Fonte – Município de Melgaço: https://www.facebook.com/municipiodemelgaco/photos

eRa. Mother. Era. 1996. Remix (Official Music Video)
eRa. Ameno. Era. 1996. The City Remix (Official Music Video). 2017.
eRa. Divano. Era 2. 2000. Vídeo oficial
Era. Cathar Rhythm. Era. 1996. Remix (Official Music Video)

A caminho do inferno

Filhos de Gutenberg, tardamos a ponderar o poder da imagem. Cismamos que o que realmente importa se alinha pelo alfabeto. Neste texto, o protagonismo cabe às iluminuras medievais: imagens da morte, durante e após a morte. Relativamente raras, estas imagens constituem uma chave de acesso ao imaginário do cristianismo, ao nosso imaginário.

01. Diabo leva a alma de um amante. Matfre Ermengaud. Breviari d’Amor. França. Início do séc. XIV

01. Diabo leva a alma de um amante. Matfre Ermengaud. Breviari d’Amor. França. Início do séc. XIV

Omar Calabrese chama a atenção para a “irrepresentabilidade da morte”, a impossibilidade de “representar precisamente a passagem entre a vida e a morte” (Calabrese, Omar, Como se lê uma obra de arte, 1997, Lisboa, Edições 70, p. 88). A Idade Média concentra-se no suspiro da morte, na exalação da alma que se despede do corpo. Não direi última viagem porque as pessoas acreditam no regresso do além (ver Exorcismos: https://tendimag.com/2017/08/15/exorcismos/).

02. Diabo recebe a alma de um rei. França, c. 1475-1525

02. Diabo recebe a alma de um rei. França, c. 1475-1525

Muitas almas não têm salvação. Condenadas, sem indulgência, são esperadas pelos demónios que as transportam para a boca do inferno (figuras 1 a 2).

Há, porém, almas cuja salvação ainda não está decidida. São motivo de disputa entre anjos e demónios (figuras 3 a 5). Um reparo: se os anjos e os demónios lutam, durante ou após a morte, pelas almas, então a salvação não depende exclusivamente do comportamento neste mundo, da vida terrena. Há margem para resgate no outro mundo. São almas polémicas, talhadas para o recém-inventado purgatório, o terceiro lugar do além (Goff, Jacques Le, 1981, La Naissance du Purgatoire, Paris, Gallimard).

 

As almas são representadas sob a forma de crianças ou, em alguns casos, como miniaturas do morto. Há almas benditas, conduzidas por anjos, num tecido branco, para o céu. Nestes casos, o morto, lendário ou real, pode manter-se apostrofado, identificado, ser alguém até no outro mundo. Na figura 5, o morto é Rolando, pretenso sobrinho do Imperador Carlos Magno, herói do romance La Chanson de Roland. Numa versão do século XII (Pseudo-Turpin), o arcebispo Turpin tem uma visão: o rei Marsiliun é transportado por demónios e a alma de Rolando por anjos (Merwin, W. S., 2001, Song of Roland, New York / Toronto, Modern Library Paperback Edition, p. XIV).

06. A alma de Rolando transportada por anjos. BNF Fr 10135, fol. 144r Grandes Chroniques de France . Séc. XIV.

06. A alma de Rolando transportada por anjos. BNF Fr 10135, fol. 144r Grandes Chroniques de France . Séc. XIV.

No rolo mortuário da figura 7, a pessoa morta é Lucy, fundadora e primeira prioresa do convento beneditino de Castle Hedingham, em Essex. Na imagem central, Lucy é elevada por dois anjos. Na parte superior, aparecem Cristo e Nossa Senhora com o Menino. O rolo mortuário, mandado fazer pela sucessora, foi enviado a 122 entidades religiosas. A intenção e a mensagem são inequívocas. Há poucos santos na terra, mas também há poucos santos no Céu.

06. Rolo mortuário de Lucy, fundadora e primeira priora do convento benditino de Castle Hedingham. Essex. C 1225-1230.

07. Rolo mortuário de Lucy, fundadora e primeira prioresa do convento beneditino de Castle Hedingham. Essex. C 1225-1230.

Estas representações da passagem para o outro mundo persistem nos séculos seguintes. No Mosteiro de Tibães, em Braga, existe um azulejo com a morte de São Bento. Vê-se o santo morto, de pé, e a ascensão da alma numa espécie de “tapete voador” rodeado por anjos. O tapete é um pormenor que intriga, mas convenha-se que, para subir ao céu, a diferença entre um “lençol” e um “tapete” não é intransponível.

07. Miracles de Notre Dame, Anjo devolve a alma ao monge de Saint-Pierre de Cologne, Besançon, BM, ms. 0551, f. 047v. Séc. XIII.

08. Miracles de Notre Dame, Anjo devolve a alma ao monge de Saint-Pierre de Cologne, Besançon, BM, ms. 0551, f. 047v. Séc. XIII.

A iluminura da figura 8, com um monge, é surpreendente. O anjo não está a levar a alma, uma réplica do morto, para o céu. Está a restituir a alma ao monge Saint-Pierre de Cologne, de Besançon (França), está a devolver a vida a um “não morto” (Omar Calabrese). Que a “passagem entre a vida e a morte” é reversível sempre o soube a Igreja. A alma do monge Saint-Pierre não vai para o céu, nem para o inferno, nem para o purgatório. Nem sequer vai, vem! Transita em sentido inverso.

São histórias de outras eras. O inferno, entretanto, mudou; outrora, confinava-se ao outro mundo, agora faz parte deste. O inferno está no meio de nós. Quanto aos não mortos e ao trânsito inverso, encontraram guarida nos novas arenas do imaginário: nos filmes, na televisão, nos videojogos e nas redes sociais. O desamparo face à morte, e face à vida para além da morte, não desapareceu.

Quando as letras correm à solta, importa fazer um balanço. Nas imagens da morte, os demónios mostram-se sôfregos e irrequietos. É plausível que a maioria das almas se destine ao inferno. Mas o diabo é insaciável. Os demónios não param: de disputar almas, de as transportar e de as infernizar. Andam atarefados numa azáfama interminável. As imagens do inferno são condizentes: uma turbulência tórrida em que as almas sofrem e os demónios trabalham. Os infernos de Herrad von Landsberg (1180) e do Missal de Raoul du Fou (1479-1511) propiciam um bom exemplo: os diabos torturam, carregam, empurram, grelham, fritam, cozem e comem as almas danadas.

 

As representações do Juízo final encenam o paraíso, o purgatório e o inferno. Por exemplo, Juízo Final de Giotto (1306), de Jan Van Eick (c. 1430–1440) e da Catedral Vank (séc. XVII) evidenciam o que sabemos desde a catequese. O céu, em cima, o inferno, em baixo; o purgatório à direita de Cristo, o inferno à esquerda; o céu com cores claras, o inferno com cores carregadas com predomínio do vermelho… E, sobretudo, no inferno, um movimento vertiginoso; no céu, ordem, repetição, placidez. Ao inferno, coube-lhe o mesmo que a Adão e Eva, o trabalho; ao paraíso, “o descanso eterno”! Se existe pecado mortal que os demónios não cometem é o da preguiça.

 

O inferno assemelha-se a um formigueiro aquecido e acelerado.

Taymouth Hours é um livro de horas datado de 1325-40. Retenho algumas iluminuras alusivas às actividades dos demónios . Não existissem autênticas bandas desenhadas no século IX, nomeadamente com episódios da Bíblia, diria que o Taymouth Hours antecipa o género. Dedicados e despachados, os demónios carregam os condenados (figuras 15 a 17) para a boca do inferno (figura 18). No interior, o ambiente é febril (figuras 19 a 21). As tarefas nunca acabam. Acumulam-se. Uma vez terminados, os suplicios têm que ser recomeçados. A never ending pain!