Jogar às cartas com o Diabo 2. Chove no inferno
No dia 3 de agosto de 2021, após três semanas de internamento, tive, enfim, alta. Pouco são, mas salvo [aguardava-me cerca de um ano de cadeira de rodas e ainda não dispenso a bengala]. Espreitava, porém, a esperança. A tendência desenhava-se auspiciosa: de mal para melhor. Chegado a casa, logo acudi ao Tendências do Imaginário. Era o reencontro com uma componente pessoal de que sentia saudades.

Os primeiros artigos suspiravam alívio. Recomeçava o alfabeto [Vangelis- Alpha]. “Sobrevivente do desespero (…) estava de volta” (Regresso, 03.08.2025); escapara graças a um fenómeno contranatura: “choveu no inferno” (Alívio, 04.08.2025). A terra ainda ressumava um cheiro abençoado a fumo molhado.
Seguem os artigos Regresso (03.08.2021) e Alívio (04.08.2021)
Regresso
Uma coisa é escrever sobre a morte, outra privar com ela. Durante um ano, fui vítima de intoxicação severa não diagnosticada. Uma degradação galopante interminável. Para fumar, tinham que me segurar no cigarro. Sobrevivente do desespero. Acabei internado, uma semana nos cuidados intensivos. Cruzei-me com a morte e não dei por ela. Nem sombra de memória. Espero estar de volta. Obrigado!
Alívio
Chove no inferno!
Remédio santo. Anúncio tailandês incrível

Entrei nos cinquenta e treze preguiçoso. Satisfaço-me com escutar música, ler, ver documentários e, principalmente, conviver, arte que estava em vias de esquecer. Que prazer ter o vício de escrever e não o fazer! Segue o anúncio tailandês The Wisdom of the East que conquistou um Leão de Ouro no festival de publicidade de Cannes. Sem comentários.
Alívio
Chove no inferno!
Coisa ruim
O anúncio Blood normal, da Libresse/Bodyform, é uma pedra no charco da publicidade de consciencialização. Contra o tabu da menstruação, com uma rara qualidade de orquestração simbólica, sensual e sentimental (vídeo 1). Remeto o comentário do anúncio para o artigo Não, a menstruação não é um líquido azul, de Paula Cosme Pinto no Expresso de 20/10/2017. Um manifesto a partir de outro manifesto.
Se o sangue é vermelho, por que o pintam de verde e azul? Por que se oculta com tanto empenho o sangue menstrual?
A nossa sociedade sofre de hemofobia. Século após século, passou-se do espectáculo do sangue, nos coliseus e nas praças de execução pública, ao desmaio à simples vista de uma gota. Para uma marca, mostrar sangue comporta riscos. Pode afastar clientes em vez de os cativar. Opta-se pelo eufemismo, pela alegoria, pela metáfora ou, simplesmente, pela omissão. Mas o anúncio Blood normal não aborda apenas o sangue, incide sobre um tipo específico, o sangue menstrual, uma realidade natural que, desde as primeiras sociedades, provoca transtorno e receio, senão pavor, mormente no homem. O fluxo menstrual é associado à poluição, à magia negra e ao sobrenatural. Noutros termos, a “coisa ruim”.
Quase todas as excreções, secreções e outras exportações corporais são vergonhosas e resguardadas dos sentidos: a mucosidade, a saliva, o suor, o vómito, a urina e os excrementos. Saem do corpo e ao corpo não regressam.
Salvaguardadas as devidas distâncias, vislumbra-se, ao nível da publicidade, uma certa homologia entre o sangue menstrual e as necessidades do bebé. O xixi e o cocó são como o Godot da peça de Samuel Beckett, nunca aparecem! Quando se alude ao xixi, ou este se escondeu (vídeo 2) ou foi absorvido pela fralda. À semelhança do fluxo menstrual, o xixi veste-se de verde ou azul. Nunca cor de xixi! A presença do cocó ou do xixi é indiciada por pistas indirectas: o cheiro, os trejeitos faciais, os sinais de desconforto… A censura dos excrementos e das excreções na publicidade tende a ser bífida: verbaliza sem visualizar.
Associar os anúncios a tampões e pensos higiénicos aos anúncios a fraldas é promíscuo e deselegante. Admito-o! Não obstante, o pensamento não é um desfile de cerimónia.
Hoje, permito-me abusar da incorporação de vídeos. Quatro! Para além do Blood Normal, da Libresse, Onde está o xixi?, da Dodot, uma versão da busca do xixi fantasma, bem como Baby faces (ready when you’re not), da Aldi, e Pampers wipes pooface, da Pampers, duas “versões” do mesmo tema: a expressão facial do “alívio” pueril.
Marca: Libresse. Título: Blood Normal. Agência: AMV BBDO. Direcção: Daniel Wolfe. Internacional, Outubro 2017.
Marca: Dodot. Título: Onde está o xixi?, Agência: Y&R MAD. Portugal / Espanha, Junho 2017.
Marca: Aldi. Título: Baby faces (ready when you’re not). Agência: BMF (sydney). Direcção: Scott Pickett. Austrália, 2012.
Marca: Pampers. Título: Pampers wipes pooface. Agência: Saatchi & Saatchi (London). Reino Unido, 2015.

