A bênção dos momentos inéditos

Existem álbuns que sabem esperar décadas por uma atenção acabrunhada. É o caso de No One Built This Moment (2009), dos Bliss, grupo inglês fundado em 1986. Seguem as três primeiras faixas: Peoples Among Us; Calling; e Trust In Your Love. Acrescento um vídeo notável com Wish You Were Here, do álbum Afterlife (2001).
As músicas dos Bliss ora me lembram os alemães Tangerine Dream, ora o norueguês Nils Petter Molvaer, ora os franceses Air.
Inteligência Artificial, Machine Learning e composição musical

Pedro Costa, doutorado em Sociologia, investigador do CECS – Centro de Estudos Comunicação e Sociedade, acaba de publicar o artigo A Inteligência Artificial e Seus Herdeiros no blogue Margens (https://tendimag.com/?p=55533). Um ensaio sobre a Inteligência Artificial, o Machine Learning e o futuro da criatividade, designadamente no que respeita à música. Pertinente, oportuno, bem escrito, fundamentado e criteriosamente ilustrado, trata-se de um texto raro, subtil e ousado. Aproveito para acrescentar quatro vídeos excelentes relativos a outras tantas músicas emblemáticas da relação entre o homem, a máquina e as emoções: The Robots (1978), dos Kraftwerk; Wellcome To The Machine (1975), dos Pink Floyd; All Is Full Of Love (1997), da Bjork; e How Does It Make You Feel (2001), dos Air.
Urna meio vazia

A música do duo Air é boa receita para a espera dos resultados de umas eleições decididas pela política e pela pandemia. Durante a campanha, destacaram-se os moralismos e os atos de fé. Nada se ganha em confundir política e moral. São domínios distintos. Nenhum grande vulto político da história da humanidade ficou conhecido pela moral ou pela transparência. Pense-se, por exemplo, em Alexandre, Dario, Ramsés, Augusto, Carlos Magno, Isabel I de Espanha, Napoleão, Lincoln, Bismarck ou Churchill, para não convocar outros demasiado óbvios. Desconfio de moralismos políticos e de políticas moralistas. Os políticos entenderam por bem inverter a ordem das coisas, subordinando as eleições à governabilidade em vez de subordinar a governabilidade aos resultados eleitorais. Em consonância, diagnósticos e projetos programáticos resultaram ofuscados por declarações de virtudes e boas intenções. E comentários, muitos comentários, sobre as insignificâncias do dia. De todas as campanhas que presenciei, no País e no estrangeiro, esta é aquela em que menos me reconheci. Lamento, porque sou apreciador de campanhas eleitorais. Neste contexto, nem alguns minutos após o fecho das urnas, ouso prever os resultados. É melhor continuar a ouvir música, de preferência temas pouco votados a moralismos transparentes, tais com Alpha Beta Gaga, Sexy Boy ou Talisman.
Óculos de sol
Quando te sentires luminoso, tapa-te com um abat-jour, não vão os outros colocar óculos de sol.
O blogue Tendências do Imaginário ultrapassou as 600 000 visualizações. Em seis anos. É pouco: há páginas que colhem mais visualizações num único minuto. Mas, para um blogue individual, sem suporte institucional e sem publicidade, podia ser pior.
A distribuição das visualizações por países não engana: trata-se de um blogue lusófono. Três quartos das visualizações provêm do Brasil (49%) e de Portugal (28%).
Um blogue requer a atenção de todos os dias. Por vocação, tudo o que se constrói acaba por se destruir. Como a criatura do vídeo musical dos Air.
Air. How does it make you feel. 10 000Hz Legend. 2001.
A passo de tartaruga
Tendências do Imaginário ultrapassou as 400 000 visualizações. Nunca mais chega ao meio milhão! O número de visitantes ascende a 81 470. A distribuição por países pouco se altera, ressalvando o aumento episódico da Espanha (ver http://tendimag.com/2015/05/04/350-000-visualizacoes/). “Clicar” no gráfico para melhor visualização.
O mundo não se esgota em números. Também tem pautas e notas. Saiu há dias um cd do Jean-Michel Jarre: Electronica 1: The Time Machine. A faixa 3, Close your eyes, é uma parceria com os Air. Gosto dos Air. Gostei, a seu tempo, nos anos setenta, do Jean-Michel Jarre. Em 1979, assisti a um concerto na Place de la Concorde, em Paris. Não o vi e mal o ouvi. Saí a meio.
Música para museu
Novo álbum dos Air! Apenas em vinil. O que não impede a circulação digital. Trata-se de uma encomenda do Palais des Beaux Arts, de Lille, em França, para uma experiência audio+visual. Audível em todo o espaço do museu, a música faz parte da mostra que envolve quatro artistas (Linda Bujoli, fotógrafa; Mathias Kiss, designer; Xavier Veilhan, escultor, fotógrafo…; Yi Zhou, arte multimedia).
Não posso afirmar que este Music for Museum corresponde aos Air que me habituei a apreciar (a minha subjectividade não lhe retira valor). A maior parte das faixas lembram Tangerine Dream e Klaus Shulze, mais de cinquenta anos atrás. Por sua vez, o baixo da faixa Octogum não destoa do baixo de One of These Days, dos Pink Floyd. Não obstante, que saiba, nem os Pink Floyd, nem os Tangerine Dream, nem Klaus Shulze, nenhum deles compôs uma trilha sonora para um museu.
Air. Octogum. Music for Museum. 2014.
Pink Floyd. One of These Days. DVD Pink Floyd Live @ Pompeii (The Director’s Cut). 1972.
Margens em trânsito
O processo criativo é um rizoma que se furta ao escalpelo da razão. Em que caravela navega a realidade? Onde pára o cais do sonho? Em que momento a criatura se apodera do criador? Os elementos e os mundos, o sólido e o líquido, a terra e o mar, são margens de contrabando, como em A Pequena Sereia, de Anderson, A Menina e o Mar, de Sophia de Mello Breyner, ou a Silka, de Ilse Losa. A agitação das águas é prenúncio de mergulho, e o mergulho, de “renascer das águas”. Nesta ondulação de estranha luminosidade, vagueiam silhuetas indecisas, ao sabor do orientalismo barroco da música electrónica dos Air. Este vídeo musical, Painted Love, foi produzido exclusivamente para a campanha “How Far Would You Go For Love”, da Cartier.
Cartier / Air. Painted Love by Air. Marcel (Publicis). Waverly. França, 2011.




