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As virtudes do funil

01. Unknown, Inuentio sanctae Crucis, Illumination from the Passionary of Weissenau (Weißenauer Passionale) (1170-1200), Codex Bodmer 127, fol. 53v

01. Unknown, Inuentio sanctae Crucis, Illumination from the Passionary of Weissenau (Weißenauer Passionale) (1170-1200), Codex Bodmer 127, fol. 53v.

Com menos anos do que dedos nas mãos, pasmava na feira a ver o vendedor de banha da cobra. Numas bancas, alguns recipientes de vidro com uma espécie de massa longa (mafaldine) a que chamava “bicha solitária”. O seu vozeirão dava exemplos dos pavores que estes parasitas provocavam nos intestinos. Para alimentar o monstro, as vítimas sentiam fome e definhavam a olhos vistos. Para grandes males, pequenos remédios. Bastam dois frascos com uma poção milagrosa para matar o bicho e a fome. Duas pessoas apressam-se a comprar, secundadas por parte da assistência. Naquele tempo, eram mais as pessoas com fome do que com fastio. Talvez fosse da bicha solitária. Este é um dos esquemas básicos da publicidade. Criar necessidades, pelo imaginário mas com fio de terra. Como diria Karl Marx, a oferta produz a procura. Não digo que os anúncios actuais são herdeiros dos charlatões das feiras, mas também não desdigo.

Marca: SodaScream. Título: It’s time for a change. Estados Unidos, Novembro 2018.

Afirmam que existe uma nova ilha composta por lixo. Os oceanos e os rios estão atafulhados de lixo, os lugares onde as pessoas residem, também. Como combater a catástrofe? O anúncio It’s time for a change, da SodaStream, sugere deixar de beber água engarrafada em embalagens de plástico e passar a beber soda. Com mais de 6 milhões de visualizações no site da marca, o anúncio está a alcançar um enorme sucesso.

02. Las tentaciones de San Antonio. obra de Joos Van Craesbeeck, fue realizada en el año 1650

02. Las tentaciones de San Antonio. Obra de Joos Van Craesbeeck, fue realizada en el año 1650.

Como vamos beber a soda? Com palhinhas ou copos de plástico? São o problema. Com copos de madeira ou de papel? São desflorestadores. Com copos de vidro? São de reciclagem rápida, mas requerem detergentes. Tecnologicamente avançada, a nossa sociedade tem a poção mágica para quase tudo. Se existe, digitaliza-se! Por que não beber soda em copos virtuais! A digitalização é amiga do ambiente, apenas polui os neurónios.

03. David Teniers the Younger.The Temptation of Saint Anthony (detail) (c 1650)

03. David Teniers the Younger.The Temptation of Saint Anthony (detail) (c 1650).

Restam duas soluções. A primeira consiste em beber soda diretamente da fonte. Sem copo, nem palhinha. Na aldeia, para beber às escondidas, sorvia-se o vinho da torneira da pipa. Outra solução: não beber nem água engarrafada nem soda. Beber água da chuva, graças a um funil. Aos primeiros pingos, funil à boca e ergue-se a face. Regressado o sol, o funil, assente na cabeça, serve, agora, de chapéu. Esta solução já foi patenteada há, pelo menos, oito séculos (Figura 01).

Os funis de Hieronymus Bosch

 

 

O Dia dos Mortos e o combate aos mosquitos

Esqueletos enamorados, Nong Khai. Nordeste da Tailândia. O amor para além da morte

Esqueletos enamorados, Buddha Park, Nong Khai. Nordeste da Tailândia.

« Puisque je doute, je pense, puisque je pense, j’existe » (René Descartes, Discours de la méthode, 1637).

O pensamento por associação em cadeia é contundente. A conjunção logo é um golpe de misericórdia da razão. O que liga o México à marca de repelentes Off?

México, logo Dia de los Muertos, logo gente festiva “que reaviva os mortos”, logo cemitério, logo flores, logo floreiras, logo água estagnada, logo reprodução de mosquitos, logo enfermidades, logo o interesse de plantas que afastam os mosquitos, logo os produtos da Off, marca de repelentes da S.C. Johnson.

Anúncio interessante e criativo, com um colorido humano fantástico em tempo de festa com fundo fúnebre.

Marca: Off. Título: Ramo repelente. Agência: BBDO Argentina. México, Novembro 2018.

 

Mergulho e ascensão da mulher. Coreografia subaquática

julie gautier

AMA. Julie Gautier. 2018.

Ama é uma palavra japonesa que significa “mulher do mar”. Nesta curta-metragem, realizada e interpretada por Julie Gautier, uma mulher, fustigada pela chuva, vê-se mergulhada na piscina mais profunda do planeta. Sujeita à gravidade da água, protagoniza uma coreografia sofrida que culmina numa suspensão, num equilíbrio, que precede a ascensão libertadora.

The rain falls like so many tears on a young woman in a little black dress. We dive into her eyes as we dive into her soul drowned in sorrow. The woman is lying on the bottom of the water. She gets up slowly and begins to dance. Her movements are graceful, but her feet are heavy on the bottom. Despite gravity reveal the weight on her shoulders. The music gets faster, the dancer rises faster, breaks free of gravity until she flies off. She falls as exhausted by this fight against herself before finally ascending to the surface. Her face shines, she releases a bubble of air, the pain is gone, life can resume its place (https://www.y-40.com/en/events-program-/1292-ama-international-women-s-day-.html).

A performance de Julie Gautier é fantástica. Convém realçar que o marido, Guillaume Néry, é campeão mundial de mergulho livre (freediving). A curta-metragem AMA foi concebida para o Dia Internacional da Mulher.

This film speaks a lot to women, because it was written by and for women but it is not exclusive to women. I do not want to make it a militant film, nor feminist. For me, it’s just an open door for the heart of a woman (Julie Gautier: https://www.y-40.com/en/events-program-/1292-ama-international-women-s-day-.html).

AMA oferece-se como uma curta-metragem minuciosamente concebida e realizada. A coreografia subaquática é, ao mesmo tempo, surpreendente e encantadora. A estética deu ares de sua graça e foi a banhos.

Título: AMA. Realização e interpretação: Julie Gautier. Coreógrafa: Ophélie Longuet. Produção: Spark Seeker/Les Films Engloutis. França, Março 2018.

Como lavar as mãos sem água

Garnier

Começaram as aulas. Tocam os sinos nas caixas cranianas. Aleluia! Mais uma peregrinação ao Evereste. Para sentir “um pouco de céu”, como canta a Mafalda Veiga (https://www.youtube.com/watch?v=zQ6LuAHQzEE)! Voam e caem as palavras, como anjos brancos e negros. O ensino é uma missão bíblica. Abrir todos os dias o mar Vermelho. Nas aulas ecoa, porém, a mesma nota discordante: a aprendizagem a tender para zero e a evasão para o infinito.

O anúncio Tutorial, da UNICEF, é um caso à parte. Como é apanágio do diretor, Bruno Aveillan, as imagens são de um apuro estético supremo. Mas o conteúdo não desmerece, é um assombro de comunicação. As crianças esfregam e esfregam as mãos, mas as mãos continuam sujas. Como a nossa consciência.

Vem este devaneio a propósito da UNICEF. A pedagoga da humanidade. Acaba de sair o anúncio da Goodwill: Get it. Uma encenação barroca. Contrasta com o despojamento trágico do anúncio Tutorial da UNICEF. Na vida, como nas aulas, a teoria não basta.

Marca: Goodwill. Título: Get it. Agência: Digitas. Estados Unidos, Setembro 2018.

Marca: UNICEF & Garnier. Título: Tutorial. Agência: Buzzman. Direcção: Bruno Aveillan. França, Abril 2017.

 

Tecnofilia surrealista

Samsung Galaxy

Por que tantas crianças, do ventre à puberdade? As crianças são o futuro; e o futuro é uma criança. “O mundo pula e avança, como uma bola colorida, nas mãos de uma criança” (António Gedeão). E tanta água? Para quê tanta água. A água é o berço da vida, o alfa da estética e a fonte do prazer. Mergulhar! Não há melhor imersão, de preferência, virtual. Consegue distinguir real e irreal? O irreal é “mais real do que o real” e o real desrealiza-se. O futuro começa agora, o impossível, esse, começa com a Samsung!

Um belo anúncio, complexo, mas consistente. Um rodopio de imagens, sem pontas soltas. Afinal, “o essencial [não] é invisível aos olhos” (Principezinho). Prepare-se para uma mão-cheia de prazeres. Samsunganize-se! Faça o que não pode! Seja normal!

Marca: Samsung. Título: The new normal. Agência: Leo Burnett. Direcção: Mark Zibert. Estados Unidos, Abril 2017.

Nos videojogos, o futuro já começou. O impossível tornou-se banal. Segue um trailer, notável, do Starcraft, Resmastered – We are under Attack (2017). O anúncio da Samsung é eufórico, o do Starcraft, disfórico. Desta vez, é a sério: os extraterrestres invadem o planeta. Prepare-se para uma chuva de emoções fortes. As emoções decorrem cada vez menos das relações entre humanos e cada vez mais das relações com as máquinas. Starcrafte-se!

Starcraft. Remastered- We are under Attck. 2017.

Vitalismo

Vulnerável e vital! Como um animal ou uma planta. Como um ser humano.

Oh LauraO anúncio Release Me, da Saab, é, ao mesmo tempo, um eco da vulnerabilidade oprimida e uma ode à libertação. Teve o mérito de lançar a banda sueca Oh Laura, de que acrescento duas músicas: Release Me, do anúncio da Saab, e Raining in New York, ambas do álbum A Song Inside My Head (2007).

Vulnerável e vital, como uma gota de água. A curta-metragem Voyage dans l’arbre, do parque de plantas Terra Botanica (Angers, França), é um exímio trabalho a que nos habituou a agência Mac Guff Paris.

Anunciante: Saab. Título: Release Me. Agência: Lowe Brindfors, Sweden. Suécia, Junho 2007. Música: Oh Laura.

Oh Laura. Release Me. A song Inside My Head, a Demon in My Bed. 2007.

Oh Laura. Raining in New York. A Song Inside My Head, A Demon in My Bed. 2007.

Terra Botanica. Produção: Tvcible. Agência: TBWA Paris. Directores: Thomas Szabo e Helene Guiraud. Pós-produção: Mac Guff. França, 2010.

Uma gota de água

bavariaUma gota de água é um das expressões mais belas das línguas latinas. E é versátil. Como uma gota de água no oceano, um infinitamente nada. A gota de água que faz transbordar o copo, um ocasionalmente tudo. Vem este devaneio a propósito do anúncio The Drop, da Bavaria (2009). Original, turbulento, airoso e jovial, com estética e humor a preceito. Um ramalhete de qualidades raramente próximas. Com uma gota de cerveja…

Marca: Bavaria. Título: The Drop. Agência: Selmore. Direcção: Matthijs Van Heijningen. Holanda, 2009.

Deflorestação

Quino. Pensamiento

Quino. Pensamento

Este blogue anda meio macabro. Não é de estranhar. Participo numa equipa de investigação sobre a morte nos media e estou a dedicar-lhe a escrita de um livro. A própria sociedade também anda obcecada com a morte. Tropecei com anúncio argentino Sin bosques nos ahogamos todos, da Greenpeace. O título é sugestivo: nos ahogamos todos. Mas o vídeo reforça: um homem, fechado num recipiente transparente, fica sem ar, à medida que as florestas são destruídas, até ao afogamento. Um “espectáculo” de morte.

Anunciante: Greenpeace. Título: Sin bosques nos ahogamos todos. Agência: Wofbpp. Argentina, Agosto 2016.

Para contrariar esta onda funesta, pesquisei as entradas felicidade, alegria e vitalidade nas bases de anúncios. Saiu este Moved by Magic, da rádio Magic FM. Estimulante.

Marca: Magic FM. Título: Moved by Magic. Agência: Mother. Direcção: Daniel Kleinman. UK, 2003.

 

Sociologia sem palavras 23. Rituais.

William_Blake. The Night of Enitharmon's Joy, 1795. Blake's.

William Blake. The Night of Eritharmon’s Joy. 1795.

Os rituais são fenómenos sociais de extrema importância. Objectiva e subjectivamente (cf., por exemplo, James George Frazer, The Golden Bough, 1911-1915: Marcel Mauss, Oeuvres, 1968-1969; Mary Douglas, Pure and Danger, 1966; Victor Turner, The Forest of Symbols, 1967; ou Jean Cazeneuve, Sociologie du Rite, 1971). Uma mão cheia de referências, sem valor acrescentado… Lamentavelmente, no que respeita às referências, quantas mais, menos! Esqueci Van Gennep, Evans-Pritchard, Malinowski, Ruth Benedict, Margareth Mead, Gregory Bateson, Edward T. Hall, Georges Condominas, Erving Goffman, Pierre Bourdieu… Esqueci, no mínimo, dezenas de bibliotecas. Paradoxalmente, quantas menos refiro, menos esqueço. Como é belo e tentador não referir. A “vertigem das listas” bibliográficas é um risco. Confessionário e penitências à parte, quem não quero esquecer é o tão esquecido Claude Lévi-Strauss.

Ritos e Mitos. A opinião de Claude Lévi-Stauss. Terre Humaine. RTBF. 07.03.1969. Excerto.

A parte final do filme Nostalgia (1983), de Andrei Tarkovski, alonga-se sobre um ritual. Promessa sacrificial, incerteza e purificação. A travessia de uma piscina vazia com uma vela acesa na mão. Apagada a vela, recomeça o percurso, solitário, de devoção e purificação. A missão, a fé e a entrega não são meramente individuais. A prova está carregada de símbolos. O simbólico religa. O ritual está ancorado no colectivo, mobiliza o colectivo e destina-se ao colectivo. A purificação e a redenção relevam da comunhão, eventualmente uma solidão comunitária (ver https://wordpress.com/stats/day/tendimag.com). Cada passo na piscina é uma incógnita. Tanto pode aproximar do fim como do início. Cada passo representa um nada necessário ao todo. A vela é uma chama, um chamamento. Sem chama, não há destino, nem caminho. Como diria Lucien Goldmann (Dieu Caché, 1955), os deuses permanecem mudos. Não falam, e nós não os sabemos ouvir. Uma tragédia em sentido duplo.

nostalghia

Andrei Tarkovski. Nostalgia. 1983.

O protagonista do filme avança com uma vela acesa numa piscina vazia. Pisa charcos de água. A piscina vazia forma um recipiente, uma cavidade. Quanto à água, sobressai como um dos principais símbolos da humanidade. Apenas um apontamento alheio: “As significações simbólicas da água podem reduzir-se a três temas dominantes: fonte de vida, meio de purificação, centro de regenerescência. Estes três temas encontram-se nas tradições mais antigas e formam as combinações mais variadas, ao mesmo tempo que as mais coerentes” (Chevalier, Jean & Gheerbrant, Alain, Dictionnaire des Symboles, 1969). Em termos simbólicos, a vela e a água interligam-se. A piscina forma uma cavidade. Três lugares e elementos de fecundidade e regeneração… Acode-me uma súbita e passageira alergia à semiótica. A vela, a água e a piscina ainda acabam por me levar para além da Índia, e não quero. Não querem tomar conta do leme e prosseguir a navegação? Alguns autores podem soprar nas velas: Gaston Bachelard, L’Eau et les Rêves, 1941; Gilbert Durand, Les Structures Anthropologiques de l’Imaginaire, 1960; e Georges Vigarello, Le Propre et le Sale, 1987. Os filmes de Tarkovski são autênticos “bancos de símbolos”. Mas, por hoje, basta de escavação semiótica.

Andrei Tarkovski. Nostalgia. 1983. Excerto. Versão original.

Chá dançante

Quando cismo com uma ideia, sou maçador. Será que o chá também pode inspirar anúncios marcados pela leveza e pela turbulência? Repare-se na máquina de chá Lipton, com a participação do Cirque du Soleil! E o chá Kusmi! Nada, porém, que a Água das Pedras ou a Expo 98 não tenham borbulhado…

Carregar nas imagens para aceder aos respectivos vídeos.

T.O Lipton

Marca: T.O Lipton. Título: Cirque du Soleil / Revolution des saveurs. Agência: Adam&Eve DDB London. Direcção: Saam Farahmand. Reino Unido, Novembro 2015.

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Marca: Kusmi Tea. Título: La Beauté des Mélanges. Agência : Quai des Orfèvres. Direcção: Robert Cohen. Janeiro 2014.

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Marca: Água das Pedras. Título: Mergulha. Agência: Euro RSCG. Direcção: Augusto Fraga. Portugal, 2012.