Anúncios de arrepiar
Brinquemos aos disparates!
Se existem profissionais cuja capacidade de aprendizagem admiro são os médicos. Mas, até entre os mais dotados e afoitos, a aprendizagem pode enredar-se num qualquer nó. Talvez seja o caso do “sistema” [informático], mais mecânico do que orgânico. Por trágica ironia, quando se começa a dominar o “sistema”, logo o dito cujo cuida de mudar.

Por seu turno, os sociólogos comprazem-se a desatar nós. Desconstroem-nos, “reformando ilusões”. No conhecimento sociológico proliferam, portanto, as pontas soltas. Entre enlaces e desenlaces, o diálogo entre médicos e sociólogos pode ser edificante. Mesmo quando é questão do senso comum sábio acerca dos malefícios mais que evidentes do tabaco.
Imagem: Kamal Gurung, Lalitkala Fine Art Campus. Kathmandu, Nepal
Tenho sugerido que a publicidade de consciencialização varia geograficamente. O Ocidente tende a apostar no sério realista assustador, o Oriente, no humor delirante persuasivo.
O anúncio português “Heavy Silence”, sobre o risco de afogamento, segue a regra; já o anúncio tailandês “Park”, sobre os perigos do cigarro eletrónico, afasta-se da tendência oriental. A fantasia e o riso congelam dando lugar ao drama. Pelos vistos, a adesão dos jovens ao cigarro eletrónico assevera-se particularmente alarmante.
Boca seca em lago salgado
A canção “Little Bird” (Passenger, 2011), do anúncio Les yeux d’un enfant do artigo precedente, é interpretada por Lisa Hannigan, que (ou)vi pela primeira vez no videoclip 9 Crimes, do Damien Rice (2006). Acrescento duas canções que evocam, já não uma explosão aérea, mas um mergulho sem retorno e uma ressaca submersa: We The Drowned e Undertow.
O naufrágio da modernidade

Nada como uma boa ideia, de preferência simples e com impacto. Muito impacto. Mesmo que seja num ventre mole. Muito mole. A iniciativa Bihar, uma escultura hiper-realista de uma menina a afundar-se na ria de Bilbao, promovida pela instituição financeira BBK (Bilbao Bizkaia Kutxa), conseguiu uma gigantesca notoriedade gratuita no horário nobre da comunicação social ao nível planetário. Antecipando o futuro, em particular a ameaça das alterações climáticas, a campanha nos media, Leão de Prata em Cannes, desdobra-se num anúncio (2:15) e numa curta-metragem (17:01).
Deflorestação
Este blogue anda meio macabro. Não é de estranhar. Participo numa equipa de investigação sobre a morte nos media e estou a dedicar-lhe a escrita de um livro. A própria sociedade também anda obcecada com a morte. Tropecei com anúncio argentino Sin bosques nos ahogamos todos, da Greenpeace. O título é sugestivo: nos ahogamos todos. Mas o vídeo reforça: um homem, fechado num recipiente transparente, fica sem ar, à medida que as florestas são destruídas, até ao afogamento. Um “espectáculo” de morte.
Anunciante: Greenpeace. Título: Sin bosques nos ahogamos todos. Agência: Wofbpp. Argentina, Agosto 2016.
Para contrariar esta onda funesta, pesquisei as entradas felicidade, alegria e vitalidade nas bases de anúncios. Saiu este Moved by Magic, da rádio Magic FM. Estimulante.
Marca: Magic FM. Título: Moved by Magic. Agência: Mother. Direcção: Daniel Kleinman. UK, 2003.
Águas mortais

Mais dois anúncios de sensibilização. Para não variar, chocantes. Educação pelo medo: diabolizar e exorcizar. Educação pelo exemplo: para determinados erros, a condenação é assustadora. Assim se pregou na Idade Media, na Contra-Reforma e noutras épocas a caminho do risco zero. Nestes anúncios, o medo é a pedra de toque, e o choque, a arma. “A educação pelo medo deforma a alma”. Não discordo de Coelho Neto (1864-1934), mas dá vontade de o retocar: A educação pelo medo é obra de almas deformadas.
Marca: RNLI. Título: The breathe test. Agência: Leo Burnett Change. Direcção: Tomas Mankovski. UK, Julho 2015.
Marca: RNLI. Título: Dangerously Unpredictable. Agência: Leo Burnett Change. Direcção: Tomas Mankovski. UK, Julho 2015.

