A Sociedade da Prevenção
Macabro, mas não tanto! (30 de Agosto de 2011)
Este anúncio (Death), produzido pela agência Fitzroy, de Amesterdão, foi recusado pela Hyundai que o considerou demasiado chocante para a marca. A Hyundai não se opôs, porém, à circulação viral. Trata-se de um anúncio proibido na televisão mas tolerado na internet.
Marca: Hyundai Veloster. Título: Death. Agência: Fitzroy, Amsterdam. Direcção: Tom Rijpert. Holanda, Agosto 2011.
“Macabro, mas não tanto” é o título do primeiro artigo do Tendências do Imaginário. Uma entrada pelo tema da morte no imaginário contemporâneo.
Georges Balandier e Michel Maffesoli sublinham a importância da noção de projecto como mote de uma modernidade disposta sacrificar o presente em nome de uma promessa.
Um dos principais motes da sociedade actual é a prevenção, postura pouco pós-moderna. Multiplicaram-se, em poucas décadas, os dispositivos votados à prevenção. Na saúde, nos mercados, na educação, na comunicação, nas novas tecnologias, no crime, na violência, nos corpos… A prevenção (i)mobiliza-nos. E acena com a morte. Se não fores previdente, corres o risco de morrer! Os espantalhos e os fantasmas da morte assombram as campanhas contra o tabaco, o alcoolismo, a toxicodependência, a sida, a obesidade ou o sedentarismo. Impressiona o prenúncio de morte repetido nos maços de tabaco. A morte ergue-se como o grande argumento de salvação.
Marca: Heineken. Título: When You Drive, Never Drink. Agência: Publicis (Itália). Itália, Setembro 2016.
Regressemos ao anúncio Death, um anúncio de sensiblização da Hyundai, para ilustrar a segurança do automóvel. A morte é protagonista. Nesta semana, visualizei sete anúncios novos associados à prevenção rodoviária. Cinco convocam a morte: três jovens atropelados em passadeiras; duas vítimas mortais em choque de viaturas. Acresce um despiste de uma mota em que o condutor não morre mas fica paraplégico. Estes anúncios foram produzidos por entidades oficiais. Todos acenam com a figura, terrível, da morte e, eventualmente, da incapacitação. A presença da morte é incontornável? Nem por isso. Lançado este Setembro, o anúncio da Heineken, When you drive never drink, com Jackie Stewart, conjuga a promoção da marca com a prevenção rodoviária, sem qualquer alusão à morte. Não é caso único.
Desenha-se uma nova tendência: contemplar o lastro da morte, uma vez que a morte de uma pessoa afeta familiares, amigos e próximos. No anúncio Dernière Classe, da Sécurité Routière, dirigido por Bruno Aveillan, a morte aflige os vivos. Faz sentido: “A morte é um problema dos vivos. Os mortos não têm problemas” (Norbert Elias, La Soledad de los Moribundos, México, Fondo de Cultura Económica, 1989, p. 10).
Anunciante: Sécurité Rodoviaire. Título: La Dernière Classe. Agência: La Chose. Direcção: Bruno Aveillan. França, Agosto 2016.
Nas sociedades modernas, a morte é afastada da vida corrente. Atente-se na localização, no entorno e no desenho dos cemitérios ou na crescente “solidão dos moribundos”. O testemunho do ato de morrer é cada vez mais burocratizado e filtrado. A experiência da morte atrofia-se ou eufemiza-se (Louis-Vincent Thomas, Civilisation et divagations. Mort, fantasmes, science-fiction, Payot, 1979). Nos últimos séculos, cavou-se a “separação entre o mundo dos mortos e o mundo dos vivos” (Philippe Ariès, Essais sur l’histoire de la mort en Occident, Paris, Seuil, 1975). Esta tendência acentua-se a partir do século XIX. Não deixa de intrigar que esta tendência ao isolamento discreto da morte coabite, hoje, com uma profusão de imagens da morte na arte, no cinema, nos vídeos musicais, nos videojogos, na publicidade, na banda desenhada, nas tatuagens… Uma dança macabra. Dos muros dos cemitérios e das igrejas medievais para os ecrãs da nossa disponibilidade mental. A morte alcança uma visibilidade simbólica desmedida. Às vezes, faz lembrar um comboio fantasma.
Distracção fatal
A publicidade anda necrófila. Volta e meia, repete o mote: “Se insistir, morre!” Atente-se no anúncio suíço “Anastase: The Magic Trick”, da Polícia de Lausanne. Escrever mensagens e ouvir música num smartphone na rua é fatal. Como ilustração, um jovem é atropelado por um carro. “Abracadabra! Se tu também queres realizar este truque incrível [a morte], basta um telefone móvel, alguns excertos de música, uma aplicação sms e, sobretudo, um pouco de inatenção”. Com humor negro, ficamos elucidados: o abuso do smartphone mata. Como o álcool, a droga, a obesidade, o tabaco…
Desconversemos.
O uso indevido do smartphone mata. E o resto não mata, nem morre? Eis uma pitada de absurdo lógico.
A política, o desporto, o amor, o sexo, o sol, os medicamentos e os hospitais não matam? Até o ridículo.
A OMS, que se presta a estes alertas, bem podia discriminar uma lista exaustiva com tudo quanto mata. Morreríamos mais felizes, para sempre!

O meu rapaz, que detesta absurdos lógicos, corrige: sustentar que o uso indevido do smartphone mata não significa que a ligação seja linear nem geral. Basta meia dúzia de vítimas para se poder afirmar que o “smartphone” mata. Assim, relativizada, a sentença de que o smartphone mata esvazia-se. O que incha desincha e passa. O uso do smartphone na rua não mata, pode matar. Matar, sem mais nem menos, é um concentrado devotado à propaganda.
Segundo a Polícia de Lausanne, na Suíça, em 2013, “1100 pessoas foram gravemente feridas ou faleceram devido à distracção. Entre os peões, 66% reconhecem que telefonam ou ouvem música durante as suas deslocações a pé”. Algumas informações têm o condão de desinformar ou subinformar: das 1100 pessoas, quantas morreram? Para além do smartphone, que outras fontes de distracção estão contempladas? Os números prestam-se a diversas embalagens.
Anunciante: Police de Lausanne. Título: Anastase: the magic trick. Direcção: Raphael Sibilla & Jerôme Piguet. Suíça, Maio 2015.
O lugar do morto
Há anúncios que lembram o realismo mágico. O anúncio Lorsque l’amour sera mort é extenso. Uma espera de cinco minutos coroada por uma emoção desprevenida. O início parece uma denúncia das desigualdades de género. No supermercado, ela ocupa-se de tudo, ele fala sem parar. Mas, na verdade, ele não pode ajudar, limita-se a contar os últimos momentos de vida antes do acidente fatal. Sobram memórias nas pontes da ausência. A sequência final contém a chave: no automóvel, ela não se habitua ao lugar do condutor, o lugar do morto, que, em travessia, não está cá, nem lá. Este anúncio, uma curta-metragem sem exibição de acidentes nem de vítimas, não choca, nem pontifica. Aposta na emoção. Fala ao coração.
Anunciante: Sécurité Routière. Título: Lorsque l’amour sera mort. Agência: Publicis Consultants. Direcção: Erick Zonca. França, Maio 2015.
Sem sombra de defeito
Fazem tudo para nos fazer sentir mal. Que talento! E ainda regozijam. Não fossemos moles e até chateava. Mas não! Nem sequer nos fazemos rogados: vemos e partilhamos. Acima de um milhão de visualizações na Internet em poucos dias. Um belo anúncio. Valha-nos o humor e a criatividade. Resta-nos compreender e aceitar! É para a nossa salvação. Desculpem! É pela nossa saúde! A salvação do lado do corpo. Toca a prevenir vícios e defeitos… UnitedHealthCare. Registou? Tal como sopram os ventos, não tarda, bastará um pequeno defeito para sermos reciclados. Vade retro! Respire fundo. Há tanta gente a preocupar-se connosco, os anormais.
Anunciante: UnitedHealthCare. Título: Our song. Agência: Leo Burnett. USA, Março 2015.
Queda e ascensão
Este anúncio da agência brasileira Africa é impressionante. Centra-se no processo de “ressurreição” de Anderson Silva, o Spider, lutador célebre de artes marciais mistas, que, com uma perna partida no último combate, esteve afastado do “octógono”. O vídeo retrata, e glorifica, o “regresso do herói”. Inicia com o momento do acidente, culminado com uma chuva simbólica de ecrãs que o soterram no fundo de um poço. O essencial do vídeo é dedicado ao ressurgimento, ao esforço, extremo, para escalar o poço. Trata-se de um épico, bem concebido e bem realizado. As imagens são de uma escuridão lancinante.
Marca: Budweiser. Título: Be Spider. Agência: Africa. Direcção: Pedro Becker. Brasil, Dezembro 2014.
A descer todos os santos ajudam
A descer, sem direcção, sempre a descer…
Marca: Centraal Beheer. Título: Picnic. Agência: Czar (Amsterdam). Direcção: Bart Timmer. Holanda, 2010.
Desejo letal
Brutesco, ou seja, brutal e grotesco, em altas doses, este anúncio lituano. Está na agenda a orgia do macabro, o Halloween, um bom exemplo de globalização tipo mancha de óleo a partir de um galheteiro hegemónico. Sexo, violência e besteira, num ecrã perto de si.
Marca: Vytautas Mineral Water. Título: Bounce Back! Agência: Superior. Direção: Tadas Vidmantas. Lituânia, Outubro 2014.
Com cinco letras apenas
Com cinco letras apenas se escreve a palavra ponte, que de todas as palavras pequenas é aquela que mais mundos aproxima. As palavras, mesmo parcas, podem funcionar como pontes. São capazes de unir até o que o diabo separou! Por exemplo, a Guerra de Secessão americana, do século XIX, e a condução de um automóvel no século XXI: Don’t risk your life for a trivial message.
Anunciante: SAAQ – Société de l’Assurance Automobile du Quebec. Título: Message. Agência: Lg2. Direção: Nicolas Monette. Canadá, Setembro 2014.
Por falar em mensagem, Bob Dylan editou em 1970 um dos ábuns menos bem sucedidos da sua carreira: Self Portrait. Entre outros motivos porque o álbum incluía muitos covers. Um deles foi este Take a Message to Mary, dos The Everly Brothers.
Bob Dylan. Take a message to Mary. Self Portrait. 1970.
O Soldadinho de Chumbo
Totentdanz, Sturm und Drang, Deutschen Expressionismus… Humor alemão secular? Talvez… Certo é que muitos anúncios alemães bebem nas águas de um humor potente, cínico, sinistro e corrosivo. Absurdo e criativo, como que a revelar “o outro lado de Deus”. No anúncio Chewing-gum, da Hdi Insurance, enlaçam-se três pontos de vista: condutor / drama; espectador / humor; e seguradora / resgate. O espectador ri da desproporção das consequências; ri porque acredita tratar-se de um drama e não de uma tragédia (o problema, a anomalia, acabará por se resolver). Esta confiança é, porém, abalada pela suspensão final. A um passo do vazio, o riso gela. A confiança do espectador dá lugar à fatalidade da companhia de seguros, a única âncora passível de salvar objectos, corpos e, porventura, almas. Em caso de morte, convém aviar-se em vida! Uma última palavra sobre o condutor: resume-se, ao jeito do imaginário alemão, a um “soldadinho de chumbo” num pequeno barco de papel a boiar numa tremenda tempestade enfeitiçada (ler o conto de Hans Christian Anderson: http://pt.wikisource.org/wiki/O_valente_soldado_de_chumbo). Para prova de que não se trata de um esquema de humor ocasional, acrescento dois anúncios da mesma marca: Thermos Flask e Dog.
Marca: HDI Insurance. Título: Chewing-Gum. Agência: KNSK Werbeagentur, Hamburg. Alemanha, 2005.
Marca: HDI Insurance. Título: Thermos Flask. Agência: KNSK Werbeagentur, Hamburg. Alemanha, 2006.
Marca: HDI Insurance. Título: Dog. Agência: KNSK Werbeagentur, Hamburg. Alemanha, 2004.
Nódoas assustadoras
Nunca vi um anúncio a detergentes tão disparatado. Estamos habituados a acidentes com sujidade garantida, mas tamanha série de catástrofes é inédita. Alguns episódios, como o do gato, são espantosos. Este anúncio israelita comporta duas características próprias do grotesco: o exagero e a listagem, estudada por Umberto Eco.
Marca: RB / Colon. Título: Colon 101- Removes 101 stains. Agência: Inbar Merhav Nissan. Direção: Adam Sanderson. Israel, Maio 2014.







