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Carta de uma Criança ao Menino Jesus

Pinturicchio – Madonna with Writing Child. Ca. 1494-1498. Philadelphia Museum of Art. Detail

Receber é bom, oferecer ótimo. Habitualmente, ocorre reciprocidade. Ora a dádiva suscita contra dádiva (Marcel Mauss, Ensaio sobre a dádiva, 1925), ora entra numa cadeia que acaba por regressar ao início (Bronislaw Malinowski, Os argonautas da Pacífico Ocidental, 1922). De qualquer modo, o gesto tende a compensar.

A Academia Sénior de Braga é um espaço de generosidade. Em dezembro de 2025, os alunos foram convidados a colocar uma carta ao Menino Jesus na árvore de Natal instalada na Biblioteca. Partilhada por uma aluna, a carta escrita por uma criança de sete anos, por volta dos anos 1940′, é uma pérola rara; e a análise, da autoria da professora Maria da Graça Guimarães, coordenadora pedagógica da Academia, um diamante penetrante, detalhado e brilhante. Segue o respetivo pdf, cuja leitura recomendo.

VIAGENS PELOS NATAIS

Natividade e Crucificação. Mosteiro de Santa Catarina. Monte Sinai. Sec. XIII-XIV

Como é bom ser professor para aprender! Na última semana, os alunos de Sociologia da Arte e do Imaginário, da Academia Sénior de Braga, foram desafiados a dar a aula. De entrega em entrega, de surpresa em surpresa, fui acarinhado com uma diversidade de momentos inesquecíveis de sabedoria experiente.

A leitura expressiva do ensaio/conto “VIAGENS PELOS NATAIS” pela própria autora, Maria Ivone da Paz Soares, representou um desses momentos inesquecíveis. Precedo o respetivo texto com a versão em pdf para mais fácil partilha e maior fidelidade à formatação original. Obrigado e continuação de boas e belas caminhadas!

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VIAGENS PELOS NATAIS

As últimas pétalas do dia estavam a esvoaçar.

E ainda lhe faltava tanto para um não sei onde. Para um ali que os pés indicavam. Os pés? Sim, uns calcanhares bussolados pelas palpitações de um sentir, de um descobrir.

E os pensamentos vindos de gavetas aleatórias assomavam, desarticulando o passo.

Porquê Natal em dezembro? E a 24/25? Pouco se sabe sobre as razões desta escolha. Havia uma prática pagã neste período correspondente ao solstício de inverno, no hemisfério norte, o dia mais curto que era comemorado como a festa do nascimento do Sol Vitorioso (“natalis solis invicti”). A Igreja primitiva denominava Jesus, como o “Sol da Justiça”.

Os Celtas celebravam o retorno da vida (no solstício de inverno – Yule) com fogueiras e velas, decorações nas árvores, banquetes, danças, desejando simbolizar a renovação e a esperança nos tempos escuros.

Tropeçou numa pedrita. Tanta coincidência(?)!!!!

Mais um passo ao lembrar-se da origem do vocábulo Natal que vem do latim “nativitas” (nascimento, geração) e este do adjetivo “nativus” (o que nasce).

Como entender esta sintonia, esta sinergia entre várias práticas religiosas? – a pessoa parou e olhou para o céu pintado de cinza, com espreitadelas de raios luminosos.

E lembrou-se que a 8 de dezembro é a Festa da Iluminação para o Budismo, o despertar para a verdade, para o autoconhecimento, para a libertação, com a Árvore Bodhi com luzes (que simboliza caminhos para a sabedoria e para o fim do sofrimento). É um período que vários budistas que vivem no ocidente ajustam algumas práticas do Natal, valorizando ideais idênticos de amor e de compaixão.

Reduziu o ritmo. Sentou-se no banco do jardim por onde estava a passar. Nem tudo na Vida é complementar, coincidente.

Como todos sabem, o Judaísmo não reconhece o Messias, porém o Hanukkah comemora-se próximo do Natal e o ato do nascimento tem uma identificação espiritual, uma ligação entre o humano e o divino; assim como é um período de bondade e de generosidade e há a utilização das luzes (candelabros junto a uma janela) neste período, em ambas as religiões. Alguns judeus também dão presentes às crianças.

Estava sentada de pernas cruzadas, já com o telemóvel na mão, a vasculhar no Google. O quê? A comemoração do Natal só surgiu mais de trezentos anos após a data provável? Sim, tem lógica: não havia espaço para uma nova religião, apesar dos romanos serem abertos.

O primeiro Natal foi comemorado em 25 de dezembro de 336, em Roma, pouco antes do Cristianismo ser oficializado no Império (e em 345 estabeleceu-se o 25 de dezembro como data de nascimento de Jesus Cristo. Até ao século V foi celebrado em Constantinopla (a capital do Império romano) o nascimento e batismo de Jesus, a 6 de janeiro (em Roma esta data ficou para lembrar a chegada a Belém dos Reis Magos, com os seus presentes) que também é festejada em algumas regiões no dia de hoje.

Trocou as pernas. Afinal esta comemoração foi escolhida para absorver e ressignificar os costumes pagãos. Ressaltam os conceitos que se interligam: celebrações litúrgicas, centro na família, ceias, presentes, conceito da generosidade e personagem adicional (São Nicolau e Pai Natal).

Também recebeu influência da tradição latina Saturnália, uma tradição festiva e com troca de presentes, a 17 de dezembro. E na Pérsia, o Deus da Luz, Mitra, era celebrado a 25 de dezembro. A Igreja primitiva absorvia e dava nova leitura aos rituais pagãos, denominado sincretismo, em vez de proibi-los ou persegui-los para angariar novos seguidores.

O espanto ficou no Egito, uma das mais antigas civilizações, marcadamente muçulmana: o Natal é celebrado a 7 de janeiro, por todos, opte pela religião que quiser, misturando o antigo e o novo, conciliando a tradição com a inovação, envoltos pelas “carols” (canções de Natal tradicionais), sob uma prova cultural enriquecedora. Claro que as decorações são luminosas, com delícias culinárias, sons e mercadorias festivos.

Quando reparou, já estava a andar. Há tanto a unir! E então, quais as razões das desuniões? Suspirou e continuou. A cadência dos passos acompanhava o que os olhos apanhavam nas linhas que eram perseguidas.

Os romanos ornamentavam os seus lares com luzes e folhas de plantas e também davam presentes às crianças e aos pobres, tendo sido esta prática absorvida nas festividades. Assim como os ritos germânicos e os costumes celtas com fogueiras, muita comida e bebida, além das luzes e de árvores decoradas.

Tradições gregas, romanas, com rituais celtas, germânicos e liturgias orientais, durante o primeiro milénio foram criando os conteúdos da festa natalícia que, nos dias de hoje, está imbuída de consumismo que enegrece a quadra, salvaguardando o ato positivo de presentear alguém e o da espiritualidade de alguns.

Até ia tropeçando… O andar com o TLM na mão pode dar estas situações…

Chegou a casa. Organizou tudo, enquanto o Santo Nicolau bailava no cérebro. E por outras culturas e continentes… Quando se fosse deitar, iria pesquisar: tinha a certeza que ia ter novas surpresas…

Já aconchegada na cama e com a almofada ao alto, continuou a mergulhar neste espírito natalício tão elaborado pelos homens e ajustado aos seus objetivos.

Estava quase a chegar. O céu estrelava! Os pés doíam e estava com sede. Quando perguntava, apontavam-lhe para aquele edifício lá ao fundo e já fora das luzes intensas da cidade. Era uma estalagem? Era um estábulo? Estava um Menino envolto numa manta com um olhar tão luminoso! E a manjedoura/berço ficou circundada(o) de uma intensa Luz.

– Pai José, necessita de alguma coisa?

– Mãe Maria, posso pegar o Menino ao colo?

As mãos da Criança elevaram-se e aconcheguei-A num abraço: era tão leve, tão sorridente, tão transparentemente sublime!

A pouco e pouco, a Criança foi crescendo e irradiava um brilho envolvente.

A pouco e pouco, a pessoa que a pegava ia ficando mais pequena, mais enlaçada nos fortes, cordiais e afetuosos braços do Menino Homem. Ao olhar-se, viu-se enroscada, enovelada no colo embalador cintilante do Menino.

Estremeceu! Acordou. Sorriu. GRATA!

Maria Ivone da Paz Soares, em Dez/25, num NATAL sem dia

Natal na Idade Média

Os 50 minutos da “aula de Natal” não chegaram para projetar o vídeo “Como era celebrado o Natal na Idade Média” (portal Segredos da Humanidade), uma apresentação do ambiente e das tradições de Natal na Idade Média.

Duas observações:

O que é convencionado designar-se como Idade Média corresponde a cerca de mil anos (dos séculos V ao XV). A descrição do vídeo aplica-se, sobretudo, à Baixa Idade Média e à Idade Média Tardia, isto é, a partir do século XI.

A Festa dos Loucos (Festum Fatuorum), onde os “papéis sociais eram invertidos de forma cômica”, ocorria, efetivamente, durante o ciclo natalício, mais precisamente no final de dezembro e início de janeiro. Algo aparentadas, pertenciam ainda a este ciclo a Festa dos Meninos (Festum Puerorum) e a Festa ou Missa do Burro (Missa Asinorum), que abordámos nas aulas.

Acresce um pequeno reparo:

O tema e a narrativa talvez justificassem outro tipo de acompanhamento visual: menos “conteúdos significativamente editados ou gerados digitalmente” e mais imagens da época, por sinal abundantes e fascinantes. Ou talvez não… é provável que as imagens utilizadas, embora artificiais, atraiam mais visualizações e subscritores, objetivo assumido pelos streamers.

Seguem: o vídeo “Como era celebrado o Natal na Idade Média?”; uma pequena galeria de imagens da Natividade através dos tempos; e um cântico de Natal da segunda metade do século XIII.

Como era celebrado o Natal na Idade Média? Portal Segredos da Humanidade. Colocado em 23/12/2024
Cantigas de Santa Maria N° 424: Pois que dos Reis Nostro Sennor. Alla Francesca. Cantigas de Santa Maria. 2000

Mondar barreiras, jardinar laços

A boneca é uma lembrança recuperada por uma aluna da Academia Sénior de Braga

La liberté c’est pouvoir choisir ses chaînes / A liberdade é poder escolher as suas correntes (AG)

Ultrapassar barreiras é um dos atributos do espírito do Natal, desígnio cada vez mais difícil de alcançar. No anúncio “The Cell”, a Lidl imaginou uma ceia partilhada pelo carcereiro e pelo prisioneiro.

Os alunos da Academia Sénior deram-me uma aula extraordinária: contos, crenças, lembranças, testemunhos, cânticos, poemas e ensaios sobre rituais coletivos homólogos do Natal (de comunhão, iluminação e esperança) através dos tempos e das religiões.

Chegado a esta idade, faltava-me uma experiência: participar num grupo, cuja motivação principal, senão única, consiste em aprender, estar e fazer em conjunto. Uma novidade e um gosto.

Anunciante: LIDL. Título: The Cell. Agência: Folk Finland. Direção: Misko Iho. Finlândia, 15.12.2018

Com o coração leve como uma borboleta numa folha de outono

Acabei de dar uma aula de Sociologia da Arte e do Imaginário centrada em pormenores minúsculos da Pietà Vaticana do Michelangelo. Propus uma análise pessoal. Gosto de ensinar, da relação com os alunos, sobretudo quando a comunhão se insinua. Senti o coração, cheio e leve, a dançar como a chama de uma vela acesa numa carvalheira. Apeteceu-me ouvir música, desta vez, clássica, de preferência barroca: Johann Pachelbel, Johann Sebastian Bach e Tomaso Giovanni Albinoni. Bem interpretada pela Academy of St Martin in the Fields, sob a condução de Sir Neville Marriner.

Johann Pachelbel – Canon in D Major. Orchestra: Academy of St Martin in the Fields. Conductor: Sir Neville Marriner. 1974 Parlophone Records Limited. Remastered 1988
J.S. Bach – Orchestral Suite No. 3 in D Major, BWV 1068: II. Air. Orchestra: Academy of St Martin in the Fields. Conductor: Sir Neville Marriner. 1971 Decca Music Group Limited
Giazotto / Albinoni – Adagio in G minor. Academy of Saint Martin in the Fields, Sir Neville Marriner, Iona Brown

O tempo que falta

Je l’aime tant, le temps qui reste… (Serge Reggiani, Le temps qui reste, 2002)

Je n’ ai pas peur de la route / Faudra voir, faut qu’on y goûte (Noir Désir, Le vent nous portera, des Visages, des Figures, 2001)

Quarenta alunos da Academia Sénior de Braga deslocaram-se a Melgaço a semana passada. Visitaram o Espaço Memória e Fronteira, o Solar do Alvarinho, as Termas, a Torre de Menagem e o Museu do Cinema. Tive o prazer de fazer de guia. Foi um bom momento. Como se diz, um momento bem passado. Sobra ainda o tempo que falta. Para viver, naturalmente!

Serge Reggiani. Le temps qui reste. Autour de Serge Reggiani, 2002
Mea Culpa Jazz. Le vent nous portera (cover de Noir Désir). 2017