A fada madrinha e o gato borralheiro

Existem anúncios que embalam o coração com música, imagens e narrativas singelas. Conseguem encantar,sonhar a realidade. É o caso de “Midnight Opus”, da Amazon. Abusa do dourado, que, pelo menos desde o início da cristandade, da arte bizantina, significa divindade. O algodão não engana, está aberta a época para este tipo de publicidade assente no reconhecimento, na partilha e na elevação.

Lembra-me um texto da Fátima Marinho que anexo. Com algumas pequenas diferenças: neste último, com a música das palavras, dança-se, não se canta; num parque de estacionamento e não numa sala de espetáculos; e, sobretudo, sem o efeito Gata Borralheira, que a Amazon convoca.

Marca: Amazon. Título: Midnight Opus – Holiday 2024. Agência: Amazon. Produção: Hungry Man. Direção: Wayne McClammy. USA, 04 novembro 2024

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Fátima Marinho – Que coisa fundamental nos escaçou?. TERRAS de BASTO. 31 de outubro 2024. TERRAS de BASTO, 31 de outubro 2024 (pdf)

Inspiração Ardente (IA)

Marc Chagall (1887) – Moses with the Burning Bush, c. 1963

A inteligência artificial define-se como o contrário da estupidez natural (atribuído a Woody Allen)

O Tendências do Imaginário sempre almejou estar atento à mudança e à inovação. Nada se ganha em virar-lhes as costas, a não ser vulnerabilidade e ilusão anestésica. As redes neuronais e a inteligência artificial são crianças com barba crescida.

Segue o videoclip com a canção “Have a Cigar”, dos Pink Floyd, realizado recentemente com recurso à Inteligência artificial. As sequências de imagens, impressionantes, sugerem que fumar é aspirar fogo, com um final gélido, embora mais irisado do que cinzento.

A inteligência artificial pode não ser moral, o que não a impede de resultar moralista. Enfim, presta-se a IA ao psicadélico?

Imagem: Ruínas de Pompeia

Pink Floyd – Have a Cigar (2024 AI Visuals). Wish You Were Here. 1975. Vídeo realizado por Hueman Instrumentality com recurso à Inteligência Artificial (Gen-3 AI Video Tool), colocado em 04.09.2024

Distância social. A cerca

Muros e barreiras representam um tema que afeta particularmente a memória de alguns povos. Carregar na imagem seguinte para aceder ao vídeo do anúncio Der Zaun.

Marca: Kaufland. Título: Der Zaun. Agência: Kaufland In House. Direção: Thomas Garber. Alemanha, dezembro 2022

Barreiras e erupções

Je prends mes désirs pour des réalités car je crois à la réalité de mes désirs / Tomo os meus desejos por realidade porque acredito na realidade dos meus desejos (slogan de Maio 68)

Marca: Deutsch Telekom. Título: Bubbles. Agência: MUW Saatchi & Saatchi (Bratislava). Direção: Alex Feil. Alemanha, novembro 2024

A Cabra e o Carneiro

Eduardo Pires de Oliveira. André Soares. União de Freguesias de São Lázaro e São João de Souto. Braga. 2024

Quinta, 7 de novembro, assisti à apresentação do livro André Soares, da autoria de Eduardo Pires de Oliveira. Um momento feliz! As crianças encheram o auditório da Escola André Soares e participaram com entusiasmo. Importa ir ao encontro de “novos públicos”, porventura menos académicos, mas, nem por isso, menos motivados e interessantes. Não me parece ser esta uma vocação prioritária das universidades, demasiado autocentradas e subordinadas a métricas alienantes. Salvo em termos financeiros, não se lhes apresenta como um investimento particularmente rentável.

Apresentação do livro André Soares. 07.11.2024. Fotografia de Alberto Gonçalves

Promovida pela União de Freguesias de São Lázaro e São João do Souto, esta obra dedicada a André Soares afirma-se como pioneira, a primeira de uma coleção infantojuvenil dedicada a figuras históricas da cidade de Braga. Aprecio iniciativas seminais, que abrem portas. Prefiro a cabra que se aventura por escarpas agrestes ao carneiro que sabe de cor o caminho do pasto.

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Max Ernst. The Beautiful Thing. 1925

Por falar em cabra, aproveito para colocar o videoclip “La puta de la cabra”, de Los Legionarios. O carro, um “carocha”, é igualzinho, incluindo a cor, ao primeiro que tive. Para contrabalançar, acrescento uma animação da canção “Sheep”, dos Pink Floyd, criada por Trippy Vortex com recurso à Inteligência Artificial.

Los Legionarios / The Farmlopez – La puta de la cabra / La Kabra. Popular, anos 90
Pink Floyd – Sheep. Animals, 1977. Animação criada por Trippy Vortex. AI Music Video. 2023

Conduzir pode matar!

Hoje fui à Universidade assistir à homenagem a quatro ex-colegas: Jean-Martin Rabot, José Neves, Carlos Veiga e Ivo Domingues. Em conversa de bar, o Joaquim Costa admitiu que a sua principal preocupação ao conduzir era adormecer. Estava encontrado o tema do artigo do dia.

Existem campanhas de prevenção rodoviária bastante semelhantes às antitabaco. Homólogas, recorrem aos mesmos princípios e visam os mesmos efeitos: suscitar receio, emoções e sentimentos; responsabilizar e culpabilizar. Os anúncios que seguem lembram, nesta óptica, as fotografias legendadas dos maços de cigarros.

Em “Enterrement”, do Institut Belge pour la Sécurité Routière, várias pessoas são “convidadas” a assistir à cerimónia do seu próprio funeral após um acidente rodoviário evitável. O discurso de despedida é proferido pelos próprios familiares que aceitaram aderir à encenação.

Anunciante: ISBR (Institut Belge pour la Sécurité Routière). Título: Enterrement Sécurité Routière. Agência: 20something. Bélgica, abril 2014

Em “La Dernière Classe”, da Sécurité Routière francesa, um condutor, distraído pelo telemóvel, mata uma jovem que atravessa uma passadeira. É (ir)responsável e culpado.

Anunciante: Sécurité Routière. Título: La Dernière Classe. Agência: La Chose. França, 2016

Em “Perte de Controle”, também da Securité Routière francesa, a imprudência, ou o excesso de confiança, de um jovem motociclista provoca a sua desgraça e de toda a família.

Anunciante: Sécurité Routière. Título: Perte de Controle. Produção: Quad. Direção: Bruno Aveillan. França, 2016

Anúncios desta índole abundam. Acrescento apenas um português apostado em ilustrar as consequências do adormecimento ao volante.

Anunciante: Associação Portuguesa do Sono. Título: Conduzir com sono pode matar. Agência: : Fischer+bus (Lisboa). Portugal, 2011

Oásis

Salvador Dalí. Oásis.1946

Ousei queixar-me do vento que, teimoso, levava os meus artigos para o deserto. Nem sombra de reação! Valeu a pena perseverar uma dezena de anos. Surgiram, entretanto, alguns oásis. Na verdade, algum feedback consola.

Por inércia própria, ou alheia, continuo isolado. As saídas resumem-se a afazeres mais ou menos exigentes. A geografia biográfica resulta acanhada: frente ao computador, descubro, crio e escrevo; na varanda, fumo e francisco com a natureza; na cozinha, restauro-me, engulo comprimidos e insisto em fumar, junto ao exaustor; no quarto, escuto música e vejo documentários. Na sala, tento ler, mas à segunda página bocejo e à quinta sonho. Se jardinasse e não pecasse a fumar, não estaria longe da regra de S. Bento. Não sei o que aconteceu, mas o social e o semelhante motivam-me pouco. Neste quadro, a amizade das mensagens eletróncias amigas manifesta-se bem-vinda!

A Lígia Fernandes enviou-me, a semana passada, o anúncio “The Desk Break”, da ASICS. Já o tinha publicado no Tendências do Imaginário logo a seguir à estreia, no primeiro de outubro (ver Movimento e Poder) . Mas, como diria McLuhan, mais do que o conteúdo, o que conta é o gesto. Tanto assim que recoloco o anúncio. Já somos dois a apreciá-lo! Acresce que, graças à iniciativa da Lígia, acabei por resgatar o anúncio “Aidez-nous à sauver des vies!”, da Croix-Rouge Française, esquecido, como muitos outros, na lista de marcadores.

Marca: Asics, Título: Desk Break. Agência: Golin London. Direção: Peter Banks. 23 de setembro 2024. Tem legendas em português.
Anunciante: Croix-Rouge française (Indre et Loire). Título: Aidez-nous à sauver des vies / Journées Nationales 2019. França, 2017 / 2019

Apesar de comercial, considero “The Desk Break” um anúncio de consciencialização; “Aidez-nous à sauver des vies”, de sensibilização. Consciencialização / sensibilização, quem é capaz de enxergar a diferença?

Como de costume

Herman Brood. Arena. 1985

Uma vez é um erro; duas vezes é um mau costume (Provérbio do Quebec).

A Almerinda Van Der Giezen teve a generosidade de me enviar a versão de My Way interpretada por Herman Brood, canção que nos habituámos a associar a Frank Sinatra. Herman Brood, ator e poeta, mas sobretudo músico e pintor, com um percurso singular, multifacetado e controverso, tornou-se uma figura emblemática da Holanda, bastante consolidada após o seu suicídio em 2001, com 54 anos. My Way é uma das suas interpretações mais bem-sucedidas.

Herman Brood, , His Wild Romance – My Way. Cover. My Way – The Hits, 2001

O que poucos conhecerão, creio, é que a canção original que está na base de My Way é francesa: Comme D’Habitude, de Claude François, estreada em 1967 e contemplada na abertura dos jogos olímpicos de Paris. Creio, também, que poucos conhecem porque poucos o assumem. Acontece algo semelhante com a canção Autumn Leaves, cujo original, Les Feuilles Mortes, também é francês, com música de Joseph Kosma e letra de Jacques Prévert.

Claude François – Comme D’Habitude. Single, 1967

Em ambos os casos, a Inteligência Artificial não se engana:

A canção “My Way”, imortalizada por Frank Sinatra, é uma adaptação da música francesa “Comme d’habitude”, composta em 1967 por Claude François e Jacques Revaux, com letra de François e Gilles Thibaut. A versão original conta a história de um casal cuja rotina diária se torna monótona e sem paixão.
Paul Anka, cantor e compositor canadense, adquiriu os direitos da música em francês e escreveu uma nova letra em inglês, transformando-a em “My Way”. A nova versão foi feita sob medida para Frank Sinatra e se tornou uma das músicas mais emblemáticas da sua carreira. Apesar de ter mantido a melodia da versão original, a letra em inglês é completamente diferente e fala sobre uma reflexão de vida e realizações pessoais (ChatGPT, 05.11.2024).

A canção “Autumn Leaves” é originalmente francesa. Ela foi composta por Joseph Kosma, com a letra original em francês escrita pelo poeta Jacques Prévert. A canção se chamava “Les Feuilles Mortes” e foi lançada em 1945. Tornou-se popular através de performances de cantores franceses como Yves Montand.
Mais tarde, a canção foi traduzida para o inglês por Johnny Mercer e recebeu o título “Autumn Leaves”. A versão em inglês ganhou popularidade em todo o mundo e foi interpretada por diversos artistas famosos, incluindo Nat King Cole, Frank Sinatra e Édith Piaf. A melodia melancólica e as letras poéticas em ambas as línguas tornaram “Autumn Leaves” um clássico atemporal no repertório de jazz e música popular (ChatGPT, 05.11.2024).

Com o Filho no Colo

Relevo da Virgem com o Menino. Florença, ca. 1420. Christie’s

Alguém se lembra da conversa “O olhar de Deus na cruz. O Cristo Estrábico”? Foi há quase dois anos, no dia 29 de novembro de 2022, no Auditório do Museu de Arqueologia D. Diogo de Sousa. Convido-os, hoje, a observar os olhos da Virgem e do Menino neste relevo do primeiro quartel do século XV. A próxima conversa incidirá, precisamente, sobre Maria. O título será aproximadamente o seguinte: “Com o Filho no Colo. Naturalismo e Simbolismo nas Esculturas da Pietà”. Até breve!

Relevo da Virgem com o Menino. Florença, ca. 1420. .Christie’s. Detalhe.

Novo livro sobre André Soares para público infantojuvenil

Na próxima quinta ocorre o lançamento do novo livro de Eduardo Pires de Oliveira. Nada de extraordinário. O Eduardo não para de escrever e publicar textos. Mas, desta vez, resulta diferente. Dedicado à vida e à obra de André Soares e destinado a um público infantojuvenil, o autor assume o o desafio de propiciar uma leitura acessível, “amigável”. Admito aguardar com bastante curiosidade a apresentação para descobrir a solução adotada. Tenho, portanto, encontro marcado às 11 horas do dia 7 de novembro no Auditório Braga Simões da Escola André Soares.