Abstinência social. Contos de solidão e mal viver

Das 417 visualizações que o Tendências teve ontem, 15 de novembro, 7 incidiram sobre o artigo “Contos de solidão e mal viver”. O título despertou-me a curiosidade e fui espreitar. Não engana: o assunto é mesmo a abstinência social, o isolamento e a fata de convívio, principalmente dos mais velhos. Na altura, sentia-me só. Aliás, ainda me sinto, embora menos. Instalada a solidão, a morte social, resulta difícil livrar-se dela. Entre nós e os outros ergue-se como que um véu deveras complicado de rasgar. Recoloco o artigo.
Podem repetir os sábios que não existem velhos, que velhos são os trapos. Mas o envelhecimento persiste. Até os trapos envelhecem. Sinto-me a envelhecer: as pernas pesam, os olhos turvam-se e a memória esquece-se. A rede de relações encolhe, como um polvo na panela, rumo à solidão. E nós insistimos que não há velhos, que velhos são os trapos. Recorremos à esconjuração retórica, como se o envelhecimento fosse uma figura de estilo ou um descuido da perfeição. Como se não rezássemos todos no templo do abraço perdido…
Quem me mergulhou neste estado de desentendimento lamentável foi o Nick Cave. Dos três anúncios que seguem, o último é o mais confrangedor: os netos “visitam” o avô mas para assistir a uma emissão de futebol facultada aos idosos por um canal televisão.
Com o Filho no Colo – Convite

O Luís Pinto, do Centro de Estudos de Comunicação e Sociedade (CECS), acaba de produzir o convite para a conversa Com o Filho no Colo: As Esculturas da Humildade e da Piedade, que preparo há quase três anos, desde a conferência dedicada ao “Cristo Estrábico” (29/11/2022), no mesmo local, o auditório do Museu de Arqueologia Dom Diogo de Sousa. Está previsto abrir com um momento musical pela Escola Arquidiocesana de Música Litúrgica – São Frutuoso; no fim, em jeito de compensação, um Alvarinho de Honra (da adega Quintas de Melgaço).
O Pecado. Michelangelo

Estou a abordar a vida e a obra de Michelangelo na Universidade Sénior de Braga e a concluir uma conversa sobre as imagens da Virgem da Piedade e da Humildade nos séculos XIV e XV.
Uma hora é um colete muito apertado. Não dá para quase nada. Informações relevantes não podem ser contempladas. Passo a colocar artigos com conteúdos que compensem essa falha. Uma espécie de complementos.
Começo com o filme russo-italiano “Il peccato – Il furore di Michelangelo”, realizado por Andrei Konchalovsky e estreado em outubro de 2019. Não se demora nas obras, concentrando-se na personalidade do artista e no ambiente da época. Tem a particularidade de relevar a importância da escolha do bloco de mármore a esculpir. Boa parte do filme passa-se nas carreiras de Carrara e acompanha o transporte do “monstro”. Segue o filme falado em italiano e legendado em espanhol.
Impressão 3D da Pietà


O Fernando acaba de me oferecer uma pequena Pietà que imprimiu em 3D; por sinal, muito mais fiel ao original do que as cópias que possuo. Em jeito de gratidão, retomo um cântico à Virgem que se destaca entre os meus preferidos: “Polorum Regina”, compilado no Llibre Vermell de Monserrat, escrito cerca de 1399 (ver o artigo Deserdados do futuro, colocado no Tendências em 30.11.2019).
Acrescento outro (en)canto ainda mais antigo e jubiloso: “Santa Maria, Strela do Dia”, das Cantigas de Santa Maria, compilação em galaico-português datada do século XIII.
Fantasmas do Mês dos Medos
O anúncio mexicano “Todo por Cheetos”, da Pepsico, inaugura brilhantemente e com sentido de oportunidade o mês dos medos. Associado à série Merlina, da Netflix, foi supervisionado por Tim Burton.

Mano a mano, pasito a pasito, a publicidade leva o Tendências do Imaginário um pouco por todo o mundo. Inclino-me, contudo, a contornar as geografias que tresandam a ódio (por todos os contentores e conteúdos, incluindo as vacinas) e a excesso de higienização (com overdoses de salvadores e detergentes). Não me cativam as misérias alheias sublimadas em emblemas pessoais de trazer ao peito.
Prefiro dirigir o olhar, cansado e limitado, para os centros e eixos passíveis de decidir o (meu) futuro, com ou sem candidatos a prémios da paz. Pelo caminho, sobram paladinos genuínos da generosidade, cujas maçãs caem menos vítimas de ventos adversos e mais por apodrecimento interno. “Hoje é domingo, ai que preguiça! Hoje é domingo, não vou à missa!”
Anunciação do Outono

Quando repouso os olhos na fotografia “Anunciação do Outono”, de Almerinda Van Der Giezen, ressoa a poesia do subestimado Paul Verlaine (1844-1896). Principalmente, os poemas “Chanson d’Automne” e “Il pleure dans mon coeur”. Verlaine foi um expoente na valorização da sonoridade na composição. As palavras de “Chanson d’Automne” expressam montonia, languidão e melancolia; em “Il pleure dans mon coeur”, convocam e ritmam a queda da chuva.

A primeira estrofe de “Chanson d’Automne” foi escolhida como código para avisar, por rádio, a Resistência Francesa do desembarque dos Aliados na Normandia no final da Segunda Grande Guerra (6 de junho de 1944).
No Jardin du Luxembourg, em Paris, pontifica, num recanto discreto, um busto de Paul Verlaine. Sonho voltar a fazer-lhe companhia, sentado num banco de madeira protegido por sebes de arbustos.
Imagem: Paul Verlaine
Seguem os dois poemas cantados. Para a transcrição em francês e em português, consultar 8 poemas de Paul Verlaine, em 3 tradutores. Acrescento a canção “Je suis venu te dire que je m’en vais”, single de 1973, do Serge Gainsbourg, que estimo como um dos melhores tributos a Paul Verlaine.
Más Notícias: Boas Notícias

Quero cada vez mais a aprender a ver como belo tudo aquilo que é necessário nas coisas: – Assim me tornarei um daqueles que fazem belas as coisas: Amor fati [amor ao destino] (Nietzsche, A Gaia Ciência, Companhia das Letras, 2009, p. 187)
A minha fórmula para a grandeza do homem é amor fati: nada pretender ter de diferente, nada para a frente, nada para trás, nada por toda a eternidade. O necessário não é apenas para se suportar, menos ainda para se ocultar (…) mas para o amar (Nietzsche, Ecce Homo, Universidade da Beira Interior, Covilhã, 2008, p. 42).
Existem momentos em que me acode Nietzche. O 2º movimento, largo, da Sinfonia do Novo Mundo, do Dvorak, recordou-me o seu princípio de afirmação da existência, que consiste em abraçar o destino, dizer sim à vida, mesmo na doença, no sofrimento e na solidão. Fazer da própria fragilidade e dos obstáculos força e vontade, parte desafiante do caminho. Destarte, a dor e o lamento tornam-se serenidade e entrega.
Sequela do Pilates: Deep Purple
Chegado do Pilates, faltava apetite para retomar a investigação sobre as “virgens abrideiras”. Recostei-me e pedi ao YouTube para me dar música. Num piscar-de-olho, propôs uma sequência de canções, todas dos Deep Purple e dos tempos do Sá de Miranda e do D. Diogo. Aconcheguei-me como um velho ao mesmo tempo revitalizado e nostálgico. As máquinas e a Inteligência Artificial conhecem-nos e (con)vencem-nos, talvez mais e melhor do que os amigos. Em muitos casos, também interagimos mais com elas do que com eles.
Seguem as canções: “Child in Time” (1970), uma crítica que permanece atual; “Hush”, do álbum de estreia (1968); “Lazy” (1972), uma perdição instrumental; e “Mistreated”, problema particularmente sensível.
À quarta, desliguei e dormitei. Bastava!
Entroncamento auspicioso

Um dia, faz 43 anos, no Carrefour (encruzilhada), o preço e a qualidade encontraram-se, encetando uma história de amor feliz sem fim à vista, a não ser que, por capricho do mercado, o ponto de encontro, o Carrefour, feche as portas, como aconteceu em Braga, deixando saudades, pelo menos, aos francófilos.













































