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MDOC – Festival Internacional de Documentário de Melgaço

Esta reportagem da SIC anuncia o MDOC (Festival Internacional de Documentário de Melgaço) deste ano. Destaca uma das apostas distintivas: a interação com a comunidade local, graças a projetos como o Plano Frontal e o Quem somos os que aqui estamos.

O MDOC acabou. Bem houve! Até para o ano.

Repouso

Virgem com o Menino. Fresco. Catacumba de Priscila. Roma. Fim do séc. II ou início do séc. III. Consta ser a imagem mais antiga com a Virgem.

Se não encontrar uma oração que lhe convenha, invente-a (Santo Agostinho, 354-430).

Demoremos-nos, suspensos no colo divino, com o olhar perdido nas mãos desertas. A música proporciona-se como uma forma de comunhão. Algumas composições de Yann Tiersen prestam-se especialmente para esse efeito. Seguem Tempelhof, Erc’h e Pell, do álbum All (2019).

Yann Tiersen – Templehof. All, 2019. Recorded at The Eskal.
Yann Tiersen – Erc’h. All, 2019
Yann Tiersen – Pell. All, 2019

Anedotário: Pelos Cabelos

Nada como ser careca para não perder cabelos

Ontem, fui cortar o cabelo só, com os meus tamanquinhos, não acompanhado.  A primeira vez em anos. Um pequeno passo para a autonomia, a passagem do cabo Bojador rumo ao da Boa Esperança. Fui só porque não consegui arranjar companhia. Há necessidades que vêm por bem.

No dia, 22 de setembro de 1922, assinalei o regresso ao meu barbeiro. Desta vez, uma reconquista.

“Costuma dizer-se que o homem a ser fiel a alguém, então é ao barbeiro. Volvidos três anos, consegui regressar ao meu jardineiro de cabelos preferido. E sinto-me outro. Nem arquivo, nem sabedoria; nem restaurado, nem novo. Apenas com a minha calvície a parecer a clareira de uma floresta bem cuidada.” (O jardineiro de cabelos: https://tendimag.com/2022/09/16/o-jardineiro-de-cabelos/).

Durante décadas, dispus-me a ir de Braga a Melgaço para cortar o cabelo! Creio não ser um caso isolado de fidelidade ao “jardineiro de cabelos”. No que respeita a este tipo de desvario, não sou um caso isolado.

Deu-me para perder tempo a escrever trenguices. Ainda bem que tenho tempo para perder e prazer em fazê-lo. Apenas arrisco abusar do vosso. Neste aspeto, também não sou o único a olhar para o céu.

Não, não sou o único
Não sou o único a olhar o céu

E quando as nuvens partirem
O céu azul ficará
E quando as trevas abrirem
Vais ver, o sol brilhará
Vais ver, o sol brilhará

Enfim, ao desperdiçar gozosamente tempo a esculpir nuvens, receio resultar algo inoportuno em relação aos meus ex-colegas que se encontram, como dizem, acelerados na reta final. Antigamente, eramos supostos ser corredores de fundo, agora parecem ser quase todos sprinters.

Xutos & Pontapés – Não Sou O Único. Circo de Feras. 1987. Ao vivo nos International Portuguese Music Awards 2022, em Providence, Rhode Island, Estados Unidos.

Extravagâncias surrealistas da idade avançada

Ao Moisés

“É preciso chegar a velho de boa hora para permanecer velho mais tempo” (atribuído a Catão, o Velho, 234 – 149 a.C.; provérbio milenar bastante atual)

André Masson. Don Quixote and the Chariot of Death. 1935. The Cleveland Museum of Art

“65 anos de estar vivo”! Que quereis que vos diga? Está-me a saber bem a velhice! Mais do que as quatro décadas de atividade profissional e a meia dúzia de anos tóxicos que a antecedeu. Enquanto for possível, houver “saúde, dinheiro e amor” suficientes, entregar-me-ei ao que quero e não ao que os outros requerem. A velhice, além dos netos, tem proveitos e potencialidades apreciáveis. Mais árvore que ruína, encaro-a como um tempo, uma oportunidade, de libertação e esperança. Quem diria?! Efeitos do sol de Moledo, provavelmente…

Afeiçoo-me à velhice tal como adotei a morte como interlocutora (ando a adiar desde 2017 a edição do livro A morte na arte, porventura, para não terminar o namoro). Assim, escutar músicas dedicadas ao envelhecimento releva menos do exorcismo ou da lamentação e mais do encanto ou da celebração. Obtuso? Talvez se assevere um sentimento mais partilhado do que se pressupõe.

Octavio Ocampo. Visions of Quixote. 1989

De qualquer modo, esta espécie de “proclamação” traduz um estado de alma prenhe de visões quixotescas acalentadas por um aniversariante mimado… Não sendo a vida constante, outros seguirão. Tão certo como, agora, estas cinco velhas e belas canções castelhanas.

Violeta Parra – Volver a los 17. De 1962. Las últimas composiciones, 1966
Fagner (c/ Mercedes Sosa)  – Años. Traduzir-se. 1981
Piero – Mi Viejo. Mi Viejo, 1969
 Inés Cuello y Quinteto Leopoldo Federico – Volver (de Carlos Gardel). Segundo Festival Internacional de Tango del Teatro Colsubsidio (Bogotá), 2024
María Cristina Plata – Caballo viejo (de Simón Díaz). ANCIENNE POSTE des Planches, Montreux, setembro 2018

Antes cego que mal iluminado

Já agora, aproveitando o balanço, uma das interpretações preferidas de I’d Rather Go Blind.

Beth & Joe – I’d Rather Go Blind – Live in Amsterdam. Vídeo extraído do DVD “Beth Hart & Joe Bonamassa – Live In Amsterdam”, editado em 2014

Fotografias minimalistas

Gosto que as pessoas partilhem comigo aquilo que fazem ou gostam. Resulta, no entanto, raro. Afortunadamente, verifica-se um franco crescimento. Nos últimos tempos, o número triplicou: passou de 2 para 6.

Fotografia de Almerinda Van Der Giezen

Esta fotografia de Almerinda Van Der Giezen conquistou o prémio de Premier Photo no grupo  Photographic Minimalism. Felicito-a! Aproveito para acrescentar três fotografia da sua autoria.

Versão publicitária do teorema de Thomas

William I. Thomas (1863-1947), sociólogo norte-americano pioneiro do estudo das migrações, do “método biográfico” e da célebre Escola de Chicago, é um dos clássicos a quem devoto particular estima. Com Dorothy S. Thomas, que viria a ser sua esposa, publicou, em 1928, The child in America: Behavior problems and programs, onde se avança uma interpretação que se tornaria, doravante, conhecida como “Teorema de Thomas”.

Imagem: William I. Thomas

Sustentando a importância objetiva e subjetiva da “definição das situações”, os autores propõem a seguinte fórmula: “If men define situations as real, they are real in their consequences” New York: Alfred A. Knopf, p. 572). Em termos simples: se os professores estão convencidos que determinado aluno é bom, há sérias probabilidades que, embora não o sendo à partida, ele se torne efetivamente um bom aluno. Noções como “profecia autorrealizadora”, “predição criadora” ou “efeito Pigmaleão” estão, de algum modo, associadas a este teorema. Em livro precedente, The Unadjusted Girl, With Cases and Standpoint for Behavior Analysis, publicado em 1923 (Boston: Little, Brown, and Company, Thomas sustentava já que o modo como as pessoas encaram e se comportam com outras contribui para forjar as respetivas personalidades, podendo estas acabar por as assumir. Estava assim traçado o esboço de uma teoria que viria a ser cunhada como teoria da “rotulagem” (e.g. Howard S. Becker, Outsiders, New York: Free Press, 1963), abordagem particularmente influente na área da criminologia. Este princípio desdobra-se no seguinte corolário: o crime e o criminoso são, pelo menos em parte, definidos e fabricados pela sociedade envolvente.

A que propósito vem esta resenha académica intragável?

Resulta inspirada pelo anúncio recente “Assume that I can”, da organização italiana sem fins lucrativos CoorDown para o World Down Syndrome Day 2024. Trata-se de uma inequívoca concretização das teorias de Thomas e da rotulagem.

Anunciante: CoorDown / World Down Syndrome Day 2024. Título: Assume that I can. Agência: SMALL New York. USA, março 2024

Abraça e dança

Com o sol de janeiro, apetece abraçar e dançar! Quando coloquei três covers interpretados pela italiana Margherita Pirri (tendimag.com/2024/01/13/o-mar-a-lua-o-vento-e-a-musica/), prometi acrescentar canções originais, com música e letra da própria cantora. Por agora, seguem Danse e Your Arms Around Me, ambas do álbum Daydream, de 2011.

Margherita Pirri – Danse. Daydream. 2011
Margherita Pirri – Your Arms Around Me. Daydream. 2011

Mio Violino Caro: Hilary Hahn

Gosto que me chamem a atenção. Além de ser melhor que nada, lembram, complementam ou corrigem aspetos inadvertidos mas relevantes e oportunos. Aliás, quem chama a atenção concedeu-a primeiro. Confrontado com a série Mio Violino Caro, o meu rapaz mais novo não se inibiu: “Sabes, entre os grandes violinistas também há jovens e mulheres”.

Por exemplo, Hilary Hahn. “Hilary Hahn (born November 27, 1979) is an American violinist. A three-time Grammy Award winner,[4] she has performed throughout the world as a soloist with leading orchestras and conductors, and as a recitalist. She is an avid supporter of contemporary classical music, and several composers have written works for her, including concerti by Edgar Meyer and Jennifer Higdon, partitas by Antón García Abril, two serenades for violin and orchestra by Einojuhani Rautavaara, and a violin and piano sonata by Lera Auerbach” (Wikipedia).

Felix Mendelssohn. Concerto para violino em mi menor, op. 64 (1844). Intérprete: Hilary Hahn
J.S. Bach. Partita para violino nº 1 em Si menor BWV 1002 (1720). Intérprete: Hilary Hahn.

Mio Violino Caro: Itzhak Perlman

Americano, nascido em Telavive em 1945, maestro, professor e cantor, Itzhak Perlman é uma referência incontornável do violino dos séculos XX e XXI. Destaca-se, entre outros aspetos, pelos lugares onde atuou e pelos prémios e galardões que conquistou. Ouvimo-lo em filmes tais como A Lista de Schindler, Fantasia 2000, África Minha ou Memórias de uma Gueixa. Uma poliomielite aos quatro anos deixou-lhe sequelas ao nível da motricidade. Toca habitualmente sentado.

Selecionei as músicas seguintes não tanto pela qualidade intrínseca da interpretação mas, no caso da primeira, pelo compositor, Camille Saint-Saëns, e das duas últimas pelos parceiros que o acompanham: Yo-Yo Ma e Daniel Barenboim, virtuosos do violoncelo e do piano.

Saint-Saëns. Introduction et Rondo Capriccioso, Op. 28. Violino: Itzhak Perlman. Ao vivo no Ed Sullivan Show, Abril d1964
Antonín Dvořák. Humoresque nº 7, Op. 101. Violino: Itzhak Perlman; violoncelo: Yo-Yo Ma. Dvořák in Prague: A Celebration, dezembro 1993
Beethoven: Triple Concerto in C Major, Op.56: II.Largo. Violino: Itzhak Perlman; violoncelo: Yo-Yo Ma; piano: Daniel Barenboim. Acompanhamento: Berliner Philharmonike.