Sensibilidades da sensibilização

Desde sempre conotada com a área da economia, a publicidade tornou-se refém da sua própria vitalidade neste campo. Contudo, o seu contributo no domínio das questões sociais e ambientais tem vindo a aumentar. E parece não existir, ainda, um espaço de reflexão e de legitimação. Apesar disso, a publicidade de carácter social tem-se desenvolvido na directa proporção de questões como o marketing social e a responsabilidade social das empresas, temas de crescente actualidade no espaço comunitário e mundial (Sara Teixeira Rego de Oliveira Balonas, A publicidade a favor de causas sociais. Evolução, caracterização e variantes do fenómeno em Portugal. Tese de Mestrado Ciências da Comunicação. Novembro, 2016).
A publicidade de carácter social, de sensibilização, conhece um franco crescimento. Nas duas vertentes: uma primeira que envolve a “responsabilidade social” das empresas, em que a marca se associa à causa social, e uma segunda que se cinge apenas às causas sociais propriamente ditas. Em ambas as modalidades, sobressai o recurso à fantasia (e.g. animação, ficção, objetos ou animais) ou à “idolatria” (e.g. estrelas do desporto, da comunicação social ou do espetáculo). Apostam na adesão estética, emocional e, em particular, não-lógica. Por ação não-logica, entende-se (Vilfredo Pareto, Tratado de Sociologia, 1916) a prática que consiste em recorrer a uma sumidade num dado domínio como referência noutro a que é alheio, por exemplo, um astro de futebol como conselheiro da bolsa. O princípio é simples: se uma pessoa é boa numa esfera espera-se que o seja nas demais. Na linguagem da literatura de fantasia, trata-se de uma transferência da aura do ídolo, por exemplo, do Cristiano Ronaldo, o máximo em tudo, para o produto, por exemplo, o Banco Espírito Santo (ver anúncio 1).
Os anúncios com figuras públicas comportam o risco de resultar mais notório o embaixador do que a embaixada, de a figura que dá a cara ofuscar tanto a campanha como o produto ou a entidade promotora. Atente-se na conclusão deste estudo realizado pela NOVADIR, em 2007:
“Segundo esta sondagem realizada pela Novadir, a campanha de sensibilização “O Cancro da Mama no Alvo da Moda” (promovida pela Associação Laço com o apoio da Roche e da Lanidor e envolvendo diversas figuras públicas) e a campanha “Sensibilização para Deixar de Fumar com Diogo Infante” (promovida pela Pfizer e Sociedade Portuguesa de Pneumologia), são claramente as mais recordadas, quer pela classe médica quer pela população.
A campanha “O Cancro da Mama no Alvo da Moda” é a mais recordada espontaneamente, obtendo um índice de recordação similar quer junto da população quer junto da classe médica (15%). Já a campanha “Sensibilização para Deixar de Fumar”, a 2ª campanha mais recordada, obtém um índice de recordação espontânea consideravelmente mais elevado junto da classe médica do que junto do público em geral (14% e 8%, respectivamente, recorda-se desta campanha).
A campanha “Passa a Palavra”, que visa sensibilizar a população em geral para o cancro do colo do útero (doença que vitima anualmente cerca de 15.000 mulheres na Europa e 378 mulheres em Portugal), também protagonizada por uma figura pública (Júlia Pinheiro) tem um nível de recordação espontânea de 8% junto dos médicos inquiridos, enquanto que este índice é de 4% para a população geral (…)
São várias as “figuras públicas” que no dia-a-dia “são a cara” de diversas campanhas de sensibilização social. De acordo com esta sondagem realizada junto da população, Júlia Pinheiro e Diogo Infante são as figuras públicas associadas a estas campanhas de maior notoriedade junto dos portugueses (17% e 16%, respectivamente). Já para a Classe Médica, são Diogo Infante e Rosa Mota as “figuras” mais recordadas.
Esta recordação das “figuras públicas” coexiste com uma “associação confusa” face às campanhas que protagonizam. Júlia Pinheiro, figura mais recordada pela população, obtém indices de “recordação confusa” muito elevados: 88% dos inquiridos que se recordam da participação da Júlia Pinheiro nestas campanhas associa, incorrectamente, a sua participação à campanha do “Cancro da mama no alvo da moda” e apenas 37% a associa correctamente à campanha que protagoniza – Passa a palavra (Cancro Cólo do útero).” (Marktest. O impacto das campanhas de sensibilização com figuras públicas: https://www.marktest.com/wap/a/n/id~f02.aspx).
Nas campanhas que convocam ídolos pode, portanto, ocorrer uma “confusão” entre a estrela e o estrelado, o embaixador e a embaixada. O público pode reter mais o Cristiano Ronaldo do que a marca Banco Espírito Santo; as bolachas que dançam o French Can Can do que a campanha This Job Can Break You If You Let It, da National Advertising Benevolent Society (NABS), do Canadá (anúncio 2).
Nem sempre a publicidade de carácter social envereda pela fantasia e pelo recurso a ídolos. Pode optar por se focar na realidade em causa: inundações em terra, plásticos no mar, crianças subnutridas, mulheres agredidas, náufragos no Mediterrâneo, vítimas da guerra, acidentes rodoviários, fumadores moribundos… A realidade substitui a fábula! Uma “realidade que nunca é “nua e crua”, mas sempre encenada, construída e trabalhada. Estamos perante um efeito de realidade!
Coloco quatro anúncios de sensibilização recentes. Nenhum vinculado à responsabilidade social das empresas. Apenas causas: os dois primeiros anúncios, de prevenção da saúde mental no trabalho (anúncio 2) e do açúcar disfarçado nos alimentos (anúncio 3), apostam no efeito fantasia; os últimos apostam no efeito de realidade alertando para as vítimas dos tiroteios nas escolas dos EUA (anúncio 4) e para a despistagem precoce do cancro da mama (anúncio 5).
Anjos no purgatório: os cuidadores

Oportuno, esperado e bem-vindo o anúncio One Crisis Has caused another, promovido pela britânica Frontline 19, com o selo de qualidade da agência Adam & Eve, de Londres. A pandemia do covid-19 exponenciou o protagonismo da figura do cuidador mas não a criou. O desafio do envelhecimento, dos idosos desprotegidos, não é menos grave e premente. É certo que a pandemia do covid-10 comporta uma dificuldade adicional: o desconhecimento e a imprevisibilidade. Agudizou, também, a consciência do problema.
Os cuidados, institucionais ou informais, dedicados à pandemia ou à velhice evidenciam-se sem comparação mais urgentes e exigentes do que os reivindicados por outras categorias, algumas parasitas, que ofuscam a comunicação social e colonizam o espaço público. Dispenso invocar exemplos.
A figura do cuidador existe desde que o homem é homem. Sem cuidadores, a sociedade esmigalha-se, colapsa. Mas resultam, paradoxalmente, votados a uma invisibilidade social e a um desamparo desconcertantes, num misto de letargia e vergonha coletivas. Abençoados os cerca de 1.4 milhões de portugueses (segundo inquérito da Associação Nacional de Cuidadores Informais, de 2020) que, informalmente, se esforçam e sacrificam pela qualidade de vida de familiares, amigos e vizinhos vulneráveis. Um gesto, uma palavra ou uma simples presença podem dar vida à vida. Cresce e perdura, lamentavelmente, o número de pessoas que sobrevivem e morrem desapoiadas, por vezes numa extrema solidão, entregues ao mal do século, a morte social. O cuidado dos enfermos e dos idosos, dos dependentes, oferece-se como uma medida da nossa insuficiência. Será tão mesquinha a nossa solidariedade e tão entorpecida a nossa preocupação? Oremos, senhor!
Dia da Terra

O ser humano é imprevisível. Logo programado. Há dias para tudo: Educação, Leguminosas, Rádio, Discriminação O, Vida Selvagem, Mulher, Felicidade, Meteorologia, Saúde, Voo Espacial, Jovens Mulheres nas TIC, Jazz, Atum, Abelha, Sem Tabaco, Pais, Bicicleta, Trabalho Infantil, Viúvas, Juventude…
A humanidade entrega-se a surtos intermitentes de sensibilização. Agora a Felicidade, ora as Leguminosas, ora a Abelha, ora a Bicicleta. Uma extensa agenda do espírito. No dia 22 de abril, comemora-se o dia da Terra. Seguem dois anúncios.
Chover no molhado

É tempo de mobilização para a vacina. No anúncio It’ up to you, da Ad Council, os “embaixadores” são presidentes. Os casais Clinton, Obama, Bush e Carter defendem o interesse da vacinação. Chover no molhado? Este é um assunto em que nunca choverá o suficiente.
Perguntas impertinentes:
Por que aparecem presidentes em vez de médicos, cientistas ou epidemiologistas? São mais competentes no que respeita a vacinas?
Por que aparecem quatro presidentes em vez de um? Dizem praticamente o mesmo. Repetir o mesmo argumento torna-o mais verdadeiro ou mais convincente?
Vilfredo Pareto aborda estas questões no Trattato di sociologia (1916).
Solidão e indiferença

O modo como as galinhas colocam a cabeça quando prestam atenção não engana. Revelam uma capacidade de concentração superior à de muitos humanos. Dedico-lhes este artigo.

Multiplicam-se os anúncios relativos à vacinação. Alguns são esdrúxulos, outros singelos. O anúncio Parce qu’on rêve tous de se retrouver, do Ministère des Solidarités et de la Santé, de França, é bem concebido. Dispõe-se em três tempos: visita – reencontro – sonho. Cumpre à vacina tornar o sonho realidade. A canção Je reviens te chercher (1967), de Gilbert Bécaud, acompanha o anúncio. Uma bela canção. Mas prefiro, do mesmo cantor, L’Indifférence (1977). As vacinas podem combater a solidão, mas de pouco servem face à indiferença.
Humor a sério
O anúncio britânico Audition, do NHS (National Health Service), revela inteligência, humor e, pressupõe-se, eficácia. Está em causa a mobilização para a vacina contra a Covid-19. O anúncio recorre a dois embaixadores, sir Elton John e sir Michael Caine, ambos com sentido de autocrítica.
Elton John participou no filme Tommy (1975), dos The Who, realizado por Ken Russell. Juntam-se duas extravagâncias: Elton John e Ken Russell. Segue um excerto do filme.
As estrelas do confinamento

Proliferam os peritos de nada e os sábios de tudo. Um deslumbramento. O carnaval da ignorância certificada. A medida de tudo e a relevância de nada, os novos candelabros da razão. Tudo merece uma martelada da notícia. Sem hesitação. Abundam os convidados, os entrevistados e os comunicadores nos estúdios ou à distância. São centenas os génios e milhares as asneiras. Repetidas, cada uma se oferece mais certeira que a outra. Tanta gente sábia e experiente. Sabem tudo, sabem tudo e não deixam nada. Sabem, de qualquer modo, mais do que os responsáveis, os idiotas dos bastidores. Como diria Goscinny, parecem aspirantes a vizires no lugar do vizir. Ver televisão ultrapassa as expectativas do público. Emerge uma nova geração de jornalistas. Perguntam imediatamente ao entrevistada quais são os problemas de uma dada iniciativa. Os objetivos, os recursos, as estratégias e os resultados são dispensáveis. A reflexividade jornalística também se tem adaptado. Numa entrevista, o jornalista faz as perguntas e dá as respostas, o entrevistado resume-se a uma mera mediação ou pretexto. Zelo profissional? Assim como não me oponho à figura do sociólogo engajado, também não me oponho à figura do jornalista que toma posição. Dispenso, no entanto, a exposição ao espetáculo mediático.
A televisão apresenta-se como um templo da modernidade. Temos direito à reivindicação e ao protesto. A televisão assume-se como uma plataforma ou uma alavanca de desejos e vontades. Sem eufemismos! Um cidadão ou uma categoria social, presumivelmente injustiçados, recorrem à televisão. Parte substantiva da programação inclui este peditório com laivos de egoísmo. Existe um plano de vacinação? Melhor não existisse. Nós devíamos ser os primeiros. Nós somos os prioritários. O egoísmo anda à solta. Não chegam os dedos das mãos para contar as categorias socias que defenderam estas correções. Lembram as corporações renascentistas!
Perdi, nos últimos meses, alguma mobilidade. Vejo bastante televisão. Com alguma estranheza. O jornalismo sempre teve a tentação de contar as notícias. Esta propensão exacerbou-se com a pandemia. As telenovelas representam uma fatia importante da oferta televisiva. A própria informação também está a adotar o formato da telenovela.
Nestes dias de confinamento, quase sempre que vejo televisão, o assunto é a pandemia: hospitais, médicos, enfermeiros, ambulâncias, doentes, mortos, vacina, estatísticas, previsões, entrevistas, testemunhos… Um canal de televisão quase monopolizado pela epidemia revela-se um excesso. É muito ecrã pandémico para uma população confinada e fustigada pela epidemia. Pois a televisão quase só mostra pandemia. É muita pandemia! Sei que existem teóricos que sustentam que a melhor forma de tratar a fobia de uma pessoa é submete-la sistematicamente a condições dessa fobia. Não creio que seja o caso do novo coronavírus nem da epidemia em palavras e imagens.
O mais avisado é ouvir música. O Tendências do Imaginário não contempla nenhuma obra de Tchaikovsky. Seguem dois excertos: do Piano Concerto No 1 e do Lago dos Cisnes.
Confinamento desconfinado

Confinamento desconfinado. Uma peneira esburacada. Estas palavras turvam-me o pensamento. Há dias publiquei um gráfico que comparava o número de infetados por 100 000 habitantes nos países da Europa. Portugal estava numa posição delicada. Volvidos poucos dias, a situação piorou: Portugal é o país com mais casos por milhão de habitantes a nível mundial. Avoluma-se o número de infetados, de hospitalizados e de mortos. Que incómodos rivalizam com o internamento nos cuidados intensivos ou a agonia nas instituições de idosos? Que efeitos colaterais rivalizam com a doença? Com as filas de ambulâncias às portas das urgências? Os mortos não sofrem traumas pedagógicos, assimétricos ou identitários. A morte não é reversível. Para os mortos, não há futuro perdido. Não admira que num confinamento desconfinado, o essencial pareça depender de cada um e de todos nós. Decretos coletivos com responsabilidade individual. A avaliação das consequências é uma arte, a arte de decidir.



