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Ser bom e estar bem

Ao João

Geater work comes from great place to work (Saatchi & Saatchi, Notre Manifesto, 2024)

Numa recente autopromoção, “Notre manifesto”, a Saatchi & Saatchi destaca dois atributos incontornáveis numa boa agência de publicidade: não brincar (troçar) com o humor e convencer-se que “para ser bom no trabalho é preciso estar bem no trabalho” (vídeo 1).

A KFC e a agência Mother (London) parecem adotar e expressar estes dois princípios no anúncio “Believe in chicken”: um apelo coletivo, uma dança galinácea e uma concentração devota em torno de um frango (vídeo 2). Humor a sério e boa disposição não faltam!

Marca: Saatchi & Saatchi. Título: Notre Manifesto. Agência: Saatchi & Saatchi. Direção: Stéphane Barbato. França, junho 2024
Marca: KFC. Título: Believe in Chieken. Agência: Mother (London). Direção: Vedran Rupic. Reino Unido, junho 2024

Tentação revolucionária

Para apresentar o novo ë-C3 100% Elétrico como uma tentação finalmente acessível, a Citröen recorre a um anúncio 100% neobarroco (Omar Calabrese, L’età neobarocca, 1987) com recheio grotesco (Mikhail Bakhtin, Cultura Popular na Idade Média, 1ª ed. 1941). Com um jeito, ao mesmo tempo ligeiro e superlativo.

Marca: Citroën ë-C3. Título: The Revolution has begun / Eat the rich. Agência: BETC Paris. Direção: Fredrik Bond. França, maio 2024

Brutal

Tenho um amigo que perante uma realidade invulgarmente impactante costuma classificá-la como “brutal”. Este anúncio de consciencialização da Change The Ref é deveras impressionante. O desfecho, criativo, é surpreendente.

Fundamentado em dados dos Centros de Controle de Doenças (CDC) que revelam que as armas de fogo são a principal causa de morte de crianças e adolescentes, o anúncio de sensibilização “American Cancer Story” confronta a violência armada e o câncer pediátrico a partir da experiência de uma jovem que tendo sobrevivido a um cancro se depara com um tiroteio no seu regresso à escola.

Anunciante: Change The Ref. Título: American Cancer Story. Agência: Klick Health. Direção: José Padilha. USA, abril 2024

Melancolia grotesca

Sinto-me sem inspiração. Nem tal me apetece. Tudo me cansa, menos o que desejaria. Preciso preservar-me. Talvez um seguro tailandês ajude.

Marca: Roojai Online Insurance. Título: Triangle of Accident. Agência: BBDO Bangkok. Direção: Wuthisak Anarnkaporn. Tailândia, junho 2024
Marca: Roojai Online Insurance. Título: Save your ears. Agência: BBDO Bangkok. Direção: Wuthisak Anarnkaporn. Tailândia, setembro 2022
Marca: Roojai Online Insurance. Título: Save your emotions. Agência: BBDO Bangkok. Direção: Wuthisak Anarnkaporn. Tailândia, setembro 2022

Muros e Marés

Acabei de escrever um artigo sobre o processo de democratização após o 25 de Abril. Uma oportunidade para recordar uma das primeiras medidas do MFA: a abolição da censura prévia, rebatizada como “exame prévio” por Marcello Caetano.

O controlo e a filtragem estão de vento em popa. Sempre, agora como dantes, para proteger eventualmente alguém de preferência com um elevado sentido de missão.

Em algumas universidades, os projetos de investigação começaram a ser submetidos numa fase inicial, antes de prosseguir, à aprovação, ou validação, por órgãos próprios, designados “comissões de ética”.

Seguem dois anúncios que, contra muros e marés, apostam na esperança: o primeiro, The Journey, da 84 Lumber, foi censurado no Super Bowl 2017 pela Fox; o segundo, Make Love Not Walls, da Diesel, quer-se um hino ao amor.

Marca: 84 Lumber. Título: The Journey (completo). Agência: Brunner, Pittsburgh. Direção: Cole Webley. Estados-Unidos, fevereiro de 2017
Marca: Diesel. Título: Make Love Not Walls. Direção: David LaChapelle. Estados-Unidos, 2017

Sentimentalismo moralista

“La charité n’est que le prolongement d’un égoïsme bien compris.” (Monique Brossard-Le Grand, Chienne de vie, je t’aime, 1981)

A publicidade tailandesa habituou-nos a anúncios longos que se extremam entre, por um lado, a insensatez e o absurdo e, por outro, o sentimentalismo e o moralismo. Comprovam-no os sessenta anúncios tailandeses colocados no Tendências do Imaginário. “Unsung Hero”, da Thai Life Insurance, é um bom exemplo da segunda opção, comovente. Um caso raro de sucesso com mais de cem milhões de visualizações. Em suma e em verso: quem dá sem segunda intenção / esvazia os bolsos mas enche o coração.

Anunciante: Thai Life Insurance. Título: Unsung Hero. Agência: Ogilvy Thailand, Bangkok. Tailândia, 2014

Atribulações climáticas

O ambiente e as alterações climáticas estão na ordem do dia. Até rendem simbolicamente como alegoria ou disparate. Por exemplo, na publicidade, como alegoria no anúncio The Tempest, do Grupo Boticário, e disparate, no anúncio The Big Jump, da Gaz Réseau Distribution France (GRDF).

Anunciante: O Boticário. Título: Tempest. Agência: ALMAP/BBDO (Sao Paulo). Direção: Kid Burro. Brasil, maio 2024
Anunciante: GRDF. Título: The Big Jump. Agência: Rosa Paris. Direção: Traktor. França, abril 2024

Simpatia

Etimologicamente, a palavra simpatia provém “do Latim simpathia, “comunhão de sentimentos”, do Grego sympatheia, “capacidade de sentir o mesmo que outrem, de ser afetado pelos sentimentos alheios (positivos ou negativos)”, formada por syn-, “junto”, mais pathos, “sentimento” (https://origemdapalavra.com.br/palavras/simpatia/).

Pois sinto simpatia pelo anúncio Bus da Fondation France Sclérose en Plaques. Como tudo me lembra algo, acudiu-me a canção “Sympathy” (1970) dos Rare Bird. Tomei conhecimento deste grupo em 1977 na ilha de Hvar (Croácia), “o lugar mais ensolarado da Europa”. Foi-me recomendado por um jovem casal alemão. Regressado a Paris, apressei-me um vinil numa discoteca do Boulevard Saint-Germain. Como a capa tinha um ínfimo defeito, saiu praticamente de graça. Ainda o guardo.

Anunciante: Fondation France Sclérose en Plaques. Título: Bus. Agência: Publicis Conseil. Direção: Jeremi Durand. França, 2024
Rare Bird. Sympathy. Sympathy. 1970

Loura e pura

A cerveja, como o tabaco, pode ser um vício de estimação. Uma loura, o outro moreno. Surpreendentemente, ambos podem ser “puros”. Se não é alérgico ao prazer, à beleza, à fantasia e ao disparate, convido-o a saborear estes três anúncios da marca Pure Blonde. Divirta-se! Hoje, domingo, é dia de oração mas também de recreação.

Marca: Pure Blonde. Título: Brewtopia. Agência: Clemenger BBDO (Melbourne). Direção: Paul Middleditch. Nova Zelândia, 2007
Marca: Pure Blonde. Título: Pardon. Agência: Clemenger BBDO (Melbourne). Direção: Paul Middleditch. Nova Zelândia, 2010
Marca: Pure Blonde. Título: From A Place Purer Than Yours. Agência: The Monkeys, part of Accenture Song. Direção: Freddy Mandy. Austrália, abril 2024

Animação

Tenho em casa um nipófilo adepto dos animes. Costuma prendar-me com novidades e curiosidades. No passado mês de abril, estreou a série Kaiju. No. 8. O genérico de abertura é deslumbrante. Ao contrário da generalidade dos animes, quase dispensa o figurativo. Formas, movimentos, sons e cores insinuam-se, esboçam-se e atropelam-se a um ritmo estonteante, para antecipar sensações e emoções em vez de conteúdos, narrativas e significados. Uma aposta original e arriscada que tudo indica ter resultado.

Genérico de abertura do anime Kaiju. No. 8. Abril de 2024. Música: Abyss, dos YUNGBLUD

As caraterísticas do genérico de abertura de Kaiju. No. 8 lembram-me um vídeo com anúncios a automóveis que produzi há décadas (Dobras e Fragmentos – A turbulência dos sentidos na publicidade de automóveis, 2007). Resultou uma colheira “bem apanhada”. Destaco, especialmente, o anúncio See How It Feels, da BMW (2007). Tempos em que bibia a beleza do mundo!

Seguem o anúncio See How It Feels, da BMW; o vídeo Dobras e Fragmentos – A turbulência dos sentidos na publicidade; e o texto homónimo correspondente ligeiramente ligeirament diferente do publicado no livro Vertigens (mais imagens e a cores).

BMW (See How it Feels, WCRS, Londres, 2007
Dobras e Fragmentos. A turbulência dos sentidos na publicidade de automóveis. Por Albertino Gonçalves. 2007.