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Felicidades. Condições e Momentos

A pretexto do Dia Internacional da Felicidade, 20 de março, a turma de Sociologia da Arte e do Imaginário, da Academia Sénior do Município de Braga, produziu o vídeo Felicidades: Condições e Momentos, uma compilação de textos, fotografias, curtas metragens, videoclips e anúncios produzidos ou escolhidos pelos alunos. Ao integrar a generalidade das propostas, resulta uma obra heterogénea. Não é de ninguém em particular, antes uma soma de iniciativas. Coube-me a coordenação e a montagem. Com a participação a ultrapassar as expetativas, o vídeo dura 1 hora e 4 minutos. É um gosto partilhá-lo.

Para visualizar o vídeo no YouTube, carregar na imagem seguinte ou aceder ao endereço https://www.youtube.com/watch?v=AVNGu2bk-ns

Felicidades Condições e momentos. Pela turma de Sociologia da Arte e do Imaginário, da Academia Sénior do Município de Braga, 20.03.2026

Moinhos do Coração. Regresso à Felicidade

Para o vídeo sobre a felicidade que a turma de Sociologia da Arte e do Imaginário está empenhada em produzir, a Margarida Gomes propôs o videoclip, excelente, da canção “What Are You Doing the Rest of Your Life?”, de Michel Legrand, interpretada por Anne Sofie Von Otter e Brad Mehldau. Para acompanhar, sugere a frase “Felicidade são os momentos vividos e retidos”.

O vídeo recorre às técnicas frozen action e bullet time para ilustrar o modo como os acontecimentos marcantes podem ficar recordados. Na verdade, os momentos da vida não ficam congelados na memória. Esta, viva, não cessa de os alterar e ressignificar.

Anne Sofie Von Otter & Brad Mehldau – What Are You Doing the Rest of Your Life (Michel Legrand, Happy Ending, 1969). Colocado em 19.02.2016.

Michel Legrand, falecido em 2019, com 86 anos, é um dos grandes compositores e pianistas franceses. Entre muitos prémios, recebeu o Oscar de melhor banda sonora pelos filmes Summer of ’42 e Yentl. Acresce o Oscar de melhor canção original por “The Windmills of Your Mind” do filme The Thomas Crown Affair.

Não deixo passar a oportunidade para colocar três músicas do Michel Legrand: “The Windmills Of Your Mind” (1969; “Les Moulins de Mon Coeur”, original 1955), interpretada por Sinne Eeg; “Je ne pourrai vivre sans toi”, com Maurane; e “Summer of ’42”.

Sinne Eeg – The Windmills Of Your Mind. Michel Legrand, 1969; Les moulins de mon coeur, Presenting Michel Legrand, 1955. Interpretação em Orange, França 2012
Maurane e Michel Legrand – Je ne pourrai vivre sans toi / Les parapluies de Cherbourg, 1965. Ao vivo no concerto “Michel Legrand and the cinema” – 2009
Michel Legrand – Summer of ’42. 1971. 1971. Colocado no ART KOSEKOMA Website, em 12.09.2013

Destruição criativa

“Destruição criativa” ou “criatividade destrutiva”, o fogo dos anos 60/70, queimou precocemente algumas das suas promessas mais brilhantes, reveladas ou não: Jimi Hendrix e Janis Joplin, em 1970, e Jim Morrison, em 1971, aos 27 anos de idade. Ao contrário do “Clube dos 27”, Nick Drake, falecido em 1974 aos 26 anos, não era exímio ao vivo nem obteve sombra de sucesso em vida. De fracasso em fracasso, de depressão em depressão, até ao desfecho final. Também por overdose ou suicídio.

Imagem: Nick Drake em 1969

Mas deixou um legado ímpar. Precisamente por ser ímpar, e a quadra do Natal ser propícia à iluminação, acendo excecionalmente, por ordem cronológica de edição, onze velas.

Nick Drake – Time Has Told To Me. Five Leaves Left, 1969
Nick Drake – River Man. Five Leaves Left, 1969. Vídeo
Nick Drake – When The Day Is Done. Five Leaves Left, 1969
Nick Drake – Cello Song. Five Leaves Left, 1969
Nick Drake – Hazey Jane I. Bryter Layter, 1971
Nick Drake – Fly. Bryter Layter, 1971
Nick Drake – Northern Sky. Bryter Layter, 1971
Nick Drake – Pink Moon. Pink Moon, 1972. Vídeo
Nick Drake – Place To Be. Pink Moon, 1972. Vídeo
Nick Drake – Things Behind The Sun. Pink Moon, 1972
Nick Drake – Parasite. Pink Moon, 1972

Mondar barreiras, jardinar laços

A boneca é uma lembrança recuperada por uma aluna da Academia Sénior de Braga

La liberté c’est pouvoir choisir ses chaînes / A liberdade é poder escolher as suas correntes (AG)

Ultrapassar barreiras é um dos atributos do espírito do Natal, desígnio cada vez mais difícil de alcançar. No anúncio “The Cell”, a Lidl imaginou uma ceia partilhada pelo carcereiro e pelo prisioneiro.

Os alunos da Academia Sénior deram-me uma aula extraordinária: contos, crenças, lembranças, testemunhos, cânticos, poemas e ensaios sobre rituais coletivos homólogos do Natal (de comunhão, iluminação e esperança) através dos tempos e das religiões.

Chegado a esta idade, faltava-me uma experiência: participar num grupo, cuja motivação principal, senão única, consiste em aprender, estar e fazer em conjunto. Uma novidade e um gosto.

Anunciante: LIDL. Título: The Cell. Agência: Folk Finland. Direção: Misko Iho. Finlândia, 15.12.2018

Jornada. Por e contra D. Quixote

Na conferência Com o Filho no Colo 1. 28.11.2025. Fotografia: Alfredo Machado

Há mais de meia dúzia de anos que não falava duas horas em pé e com expressão gestual desenvolta. O Alfredo Machado captou o momento. Este reparo peca provavelmente por vaidade, mas vaidade humilde e, pesem as voltas da vida, agradecida.
Um pouco de quixotismo pode ajudar a sonhar, tentar e perseverar (desde que com a companhia do Sancho Pança). Jacques Brel sublinha-o na canção “La Quête”. Já Manuel Freire grita, a contramão da “Pedra Filosofal, “Abaixo D. Quixote”.

[Carregar nas imagens para as aumentar e aceder às respetivas legendas].

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Jacques Brel – La Quête. 15 ans d’amour, 1968
Manuel Freire – Abaixo D. Quixote. Pedra Filosofal, 1993. Original: EP de 1973. Poema de José Gomes Ferreira
Manuel Freire – “Pedra Filosofal” (primeira versão) do disco single ZipZip. 1970. Poema de António Gedeão

A Busca
La quête

(Jacques Brel)

Sonhar um sonho impossível
Rêver un impossible rêve

Carregar a tristeza das partidas
Porter le chagrin des départs

Queimar com uma febre possível
Brûler d’une possible fièvre

Ir aonde ninguém vai
Partir où personne ne part

Amar até o dilaceramento
Aimer jusqu’à la déchirure

Amar, até demais, até mal
Aimer, même trop, même mal

Tentar, sem força e sem armadura
Tenter, sans force et sans armure

Alcançar a inacessível estrela
D’atteindre l’inaccessible étoile

Esta é a minha busca
Telle est ma quête

Seguir a estrela
Suivre l’étoile

Pouco me importa a minha sorte
Peu m’importent ma chance

Pouco me importa o tempo
Peu m’importe le temps

Ou minha desesperança
Ou ma désespérance

E, depois, lutar sempre
Et puis lutter toujours

Sem perguntas, nem descanso
Sans questions ni repos

Danar-se
Se damner

Pelo ouro de uma palavra de amor
Pour l’or d’un mot d’amour

Não sei se serei esse herói
Je ne sais si je serai ce héros

Mas, meu coração estaria tranquilo
Mais mon coeur serait tranquille

E as cidades se salpicariam de azul
Et les villes s’éclabousseraient de bleu

Porque um infeliz
Parce qu’un malheureux

Ainda arde, apesar de ter queimado tudo
Brûle encore, bien qu’ayant tout brûlé

Ainda arde, até demais, até mal
Brûle encore, même trop, même mal

Para alcançar até se esquartejar
Pour atteindre à s’en écarteler

Para alcançar a inacessível estrela
Pour atteindre l’inaccessible étoile

Um (v)eu entre vazios

Antonio Corradini. Busto de Mulher Velada (Puritas). 1717-1725. Museo del Settecento Veneziano, Ca’ Rezzonico, Veneza

Nous ne croyons plus que la vérité demeure vérité si on lui enlève son voile ; nous avons assez vécu pour écrire cela [Já não acreditamos que a verdade permaneça verdade se lhe retiramos o seu véu; temos vivido o suficiente para escrever isso] (Friedrich Nietzsche, Le Gai Savoir, 1882)

Com 91 anos, Charles Aznavour canta “Hier Encore” em Yerevan, capital do seu país natal, a Arménia. Nunca é tarde para demandar o ninho, com ou sem penas.

Charles Aznavour – Hier Encore. Hier Encore, 1964. Ao vivo em Yerevan, em 11.11.2025

Tempo de abraçar

O tempo já não é teu e meu. É alheio. Abraça, abraça, que o abraço, esse, este, ainda é nosso.
A canção “Le Temps” estreou em 1964, tinha Charles Aznavour 40 anos. Neste vídeo respeitante a uma interpretação de 1994, tinha 70 anos. Faleceu aos 94 anos no dia 1 outubro de 2018.

Charles Aznavour – Le Temps. Single, 1964. Ao vivo em 1994.

Le temps (Charles Aznavour)

Le temps qui va
Le temps qui sommeille
Le temps sans joie
Le temps des merveilles
Le temps d’un jour
Temps d’une seconde
Le temps qui court
Ou celui qui gronde

Le temps, le temps
Le temps et rien d’autre
Le tien, le mien
Celui qu’on veut nôtre
Le temps, le temps
Le temps et rien d’autre
Le tien, le mien
Celui qu’on veut nôtre

Le temps passé
Celui qui va naître
Le temps d’aimer
Et de disparaître
Le temps des pleurs
Le temps de la chance
Le temps qui meurt
Le temps des vacances

Le temps, le temps
Le temps et rien d’autre
Le tien, le mien
Celui qu’on veut nôtre
Le temps, le temps
Le temps et rien d’autre
Le tien, le mien
Celui qu’on veut nôtre

Le temps glorieux
Le temps d’avant-guerre
Le temps des jeux
Le temps des affaires
Le temps joyeux
Le temps des mensonges
Le temps frileux
Et le temps des songes

Le temps des crues
Le temps des folies
Le temps perdu
Le temps de la vie
Le temps qui vient
Jamais ne s’arrête
Et je sais bien
Que la vie est faite

Du temps des uns
Et du temps des autres
Le tien, le mien
Peut devenir nôtre
Le temps des uns
Et le temps des autres
Le tien, le mien
Peut devenir nôtre
Le temps

Le temps des uns
Et le temps des autres
Le tien, le mien
Peut devenir nôtre
Le temps des uns
Et le temps des autres
Le tien, le mien
Peut devenir nôtre
Le temps

Le temps, le temps, le temps

Noiva Lunar

Margaux Sauvé, fundadora, compositora e vocalista da banda franco-canadiana Ghostly Kisses, parece-me caracterizar-se como uma figura noturna. Pela aparência (sombria, sóbria, recatada e recolhida), pelo próprio nome da banda (inspirado num poema de  William Faulkner) e pelo conteúdo das suas canções (os álbuns de estúdio intitulam-se: Ghostly Kisses, 2019; Heaven, Wait, 2022; e Darkroom, 2024).

Não vou colocar, como costumo, uma amostra de canções, mas uma performance com duração de 20 minutos; a melhor seleção e a melhor interpretação que encontrei. Inicia com uma versão deliciosa da canção clássica francesa “J’ai demandé à la lune” e despede-se com uma admirável “Empty Note”. Pelo meio, “The city holds my heart”, “Don’t know why” e “Call my name”.

Ghostly Kissses – Live at Le Grand Salon, Quebec City, 2021

Bate Bate Coração

O peito do Tendências do Imaginário insiste em palpitar como uma centelha que “arde sem se ver”.

O primeiro transplante do coração com êxito em seres humanos foi realizado pelo cirurgião Christiaan Barnard em dezembro de 1967 na África do Sul. A notícia correu mundo e obteve um impacto impressionante. O seu livro Uma Vida (tradução de One Life, 1969), traduzido pela editora Livros do Brasil em 1970, foi uma das minhas primeiras leituras no domínio da ciência.

Imagem: Christiaan Barnard (1968)

No anúncio “Beats”, a fundação canadiana Heart & Stroke alerta para a importância decisiva da doação de órgãos, neste caso o coração.

Anunciante: Heart & Stroke Foundation. Título: Beats / Fund more breakthroughs. Agência: Sid Lee. Direção: Sam Cadman. Canadá, outubro 2025

O CORAÇÃO QUE BATE NESTE PEITO — Luiz Guimarães Júnior

O coração que bate neste peito
E que bate por ti unicamente,
O coração, outrora independente,
Hoje humilde, cativo e satisfeito;

Quando eu cair, enfim, morto e desfeito,
Quando a hora soar lugubremente
Do repouso final — tranquilo e crente
Irá sonhar no derradeiro leito.

E quando um dia fores comovida
— Branca visão que entre os sepulcros erra —
Visitar minha fúnebre guarida,

O coração, que toda em si te encerra,
Sentindo-te chegar, mulher querida,
Palpitará de amor dentro da terra.

(Luiz Guimarães Júnior, Sonetos e Rimas, Rio de Janeiro, 1880)