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Jardinar a conjugalidade

Saiu há dias o anúncio Obey Your Hands, da Hornbach, uma rede alemã de lojas de bricolage que aposta numa publicidade cómica, desinibida e insólita. Obey Your Hands convoca um caso excessivo de alucinação cinestésica: a sensação de que um órgão corporal se está a mover, adquire vida própria.

O Tendências do Imaginário comporta uma dezena de anúncios desta marca. Deu-me vontade de explorar mais. Encontrei Garden, de 2001, uma delícia não tanto por ridicularizar a masculinidade mas pelo modo como “brinca com coisas sérias”, tais como a morte e o homicídio.

Marca: Hornbach. Título: Garden. Agência: Stemtag. Alemanha, 2001
Marca: Hornbach. Título: Obey Your Hands. Agência: HeimatTBWA Berlin. Direção: Steve Rogers. Alemanha, agosto 2024

Pulsões obscuras

Amanhã, sábado, vou esturricar a Melgaço para o cortejo histórico. Acabo de escrever alguns textos para a apresentação dos episódios. Entretanto, apetece-me descarrilar.

Conhece os Noir Désir? Únicos, talentosos e ousados, trouxeram uma lufada de ar fresco e turbulento ao rock francês dos anos noventa.

Os mercados e os circuitos em vigor desenham mapas mentais que deformam as geografias da cultura, da arte e da música. Este fenómeno não assenta apenas em efeitos do tipo “loura de Calais” ou “carneiro de Panurgo”. Bebe também na modorra que se acomoda à vulgaridade. Sair deste aconchego, expor-se ao estranho, não é fácil. Mas até os ídolos mais acondicionados correm o risco de empanturrar qualquer Pantagruel ou Sancho Pança.

Pois desviemo-nos das rotas batidas até perder o pé, como Alice. Partilhar as músicas dos Noir Désir não é pouca coisa.

Como diria um amigo, são muito conhecidos na sua terra. Não me acode nenhuma canção francesa que tenha sido tão retomada por outros intérpretes como “Le vent nous portera” (2001). A banda, criada em Bordéus no início dos anos oitenta, arrastou-se até 2010, tendo quase desaparecido de circulação a partir de 2003.

Para este artigo, pesquisei um pouco mais a história da banda. Fiquei desconcertado.

Bertrant Cantat, fundador, compositor, vocalista, guitarra e harmónica, é uma figura complicada: controversa, excessiva, temperamental e instável. Numa palavra, dionisíaca. Por abusar da voz, teve que ser operado às cordas vocais e suspendeu a atividade durante um ano. Pelo seu perfil, na vida e no palco, alguns jornalistas compararam-no a Jim Morrison.

Na noite de 26 para 27 de julho, no quarto do hotel em Vilnius, na Lituânia, agrediu de tal forma a sua companheira, Marie Trintignant, filha do célebre ator Jean-Louis Trintignant, que esta acabaria por falecer no primeiro de agosto. Bertrant Cantat é condenado a oito anos de prisão efetiva. Há quem sustente que este não foi o último caso de violência. Cumprida a sentença, prossegue uma carreira literária e musical interessante.

As portas voltaram a fechar-se, abrupta e tragicamente, a uma banda rock no seu auge. Como diria Vilfredo Pareto, pode ser-se bom músico, bom poeta, bom artista, bom cientista ou bom político e má pessoa ou má companhia.

Seguem cinco canções para ouvir na praia, na montanha ou noutro recanto qualquer, de preferência com auscultadores e sem curto-circuitos.

Noir Désir – A l’envers a l’endroit. Des visages des figures. 2001
Noir Désir – Des armes. Des visages des figures. 2001
Noir Désir – Le vent nous portera. Des visages des figures. 2001. Live, Evry 2002
Noir Désir – Tostaky. Tostaky. 1992. Live at Evry 2002
Noir Désir – Lazy. 666.667 Club. 1996. Live officiel Les Vieilles Charrues 2001

Registo Civil Vegetal e Limoeiro

Deforestation – Diário de Pernambuco (BRA) – Jarbas. World Press Cartoon exhibition at the Museum of Modern Art in Sintra, Portugal, 2008

O limoeiro é muito bonito e a flor do limão é doce
Mas o fruto do pobre limão é impossível de comer
(Peter, Paul & Mary, Lemon Tree, 1962)
A árvore torna-se forte com o vento (Séneca, 4 a.C. – 65 d.C.)

Uma ideia genial preside ao anúncio “Árvore”, da rádio e TV brasileira Jovem Pan, qualidade que compensa a fraca resolução do vídeo. Um caso ímpar de minimalismo perspicaz e eloquente, Leão do Festival de Cannes de 1998. As versões inglesa e portuguesa são acompanhadas por dois cartoons deveras sugestivos e pela canção Lemon Tree.

Cartoon: Alireza Karimi Moghaddam, iraniano

Anunciante: Jovem Pan FM. Título: Tree. Agência: AlmapBBDO. Direcção: Sérgio Amon. Brasil, 1998
Anunciante: Jovem Pan FM. Título: Árvore. Agência: AlmapBBDO. Direcção: Sérgio Amon. Brasil, 1998.
Peter, Paul and Mary – Lemon Tree. Peter, Paul and Mary. 1962

Já faltou mais!

Má sorte a daqueles que lhes censuram o nome! Velhos não são os trapos, velhos somos nós! Como as crianças são crianças, os jovens, jovens e os adultos, adultos. Cada qual com a sua dignidade e distinção. De eufemismo em eufemismo, a sociedade disfarça realidades e coteja fantasmas.

Rembrandt, Bust of an Old Bearded Man, Looking Down,1631

Segue uma mão, aprazivelmente enrugada, de canções vintage francesas ainda não contempladas no Tendências do Imaginário.Todas com letras notáveis. Cantar a velhice faz bem aos pulmões, ao coração e à cabeça. Uma maneira, como qualquer outra, de partilhar e agradecer. Obrigado!

Herbert-Félix Thiéfaine – La ruelle des morts. Suppléments de mensonge. 2011
Bénabar – La Coquette. Les risque du métier. 2003
Zas – Si je perds. Recto verso. 2013
George Brassens – Marquise. Les Trompettes de la renommée. 1962. No programa “Cinq colonnes à la une”, da RTF, do7 de dezembro de 1962.
Georges Moustaki – La vieillesse. Ballades en Ballade: Racines et Errances. 1975

Crise da reflexividade crítica e autodestruição

A quem nunca tem dúvidas e raramente se engana

Francisco de Goya. Episódio na guerra da independência espanhola, ca. 1810

El sueño de la razón produce monstruos (Francisco de Goya)

Preocupam algumas dinâmicas e tendências atuais. Em particular, a crescente mobilização em termos raciais, étnicos, religiosos, nacionalistas… com pretensas estirpes naturais, “antropológicas” e “biológicas”. Por exemplo, vários maniqueísmos tais como filias e fobias sionistas e islamistas.

“Hegel observa em algum lugar que todos os grandes fatos e pessoas da história mundial acontecem, por assim dizer, duas vezes. Ele esqueceu de acrescentar: uma vez como tragédia, a outra como farsa” (Karl Marx, O 18 Brumário de Luís Bonaparte, 1ª ed. 1852). Nada impede, porém, que se repitam como tragédias, eventualmente maiores.

Imagem: Francisco de Goya. Visión fantasmal, ca.1801

Parece estar em curso um eclipse do propriamente político e do espírito (auto) crítico. O regresso à identificação e ao pensamento automáticos e estereotipados. Convém recordar o mundo e, especialmente, a Europa antes da primeira e da segunda guerras mundiais.

Imagem: Francisco Goya (atribuído a). O colosso. Após 1808

Para complicar, a história também revela que a mera razão não é suficiente para enfrentar o delírio simbólico. Sem o sustento e o fermento do imaginário e do emocional pouco consegue. O racional carece de uma centelha irracional para se manter aceso, para motivar e mover os seres humanos.

Existem anúncios de consciencialização que se propõem, e podem, ajudar. É o caso do anúncio “The 100th Edition”, do jornal alemão Frankfurter Allgemeine Zeitung. Foi galardoado com vários prémios, entre os quais o Grande Prémio, na categoria “impresso”, no âmbito dos 2024 New York Festivals Advertising Awards.

Imagem: Francisco de Goya. Pátio de um manicómio. 1794

Hegel e Marx podem estar certos. É plausível que a história se repita de um modo cíclico ou em espiral. Mas existe uma realidade que não obedece a este retorno. Não só não recua como não para de avançar: a capacidade humana de autodestruição.

Anunciante: Frankfurter Allgemeine Zeitung. Título: The 100th Edition. Direção:  Scholz & Friends. Alemanha, junho 2024

Brutal

Tenho um amigo que perante uma realidade invulgarmente impactante costuma classificá-la como “brutal”. Este anúncio de consciencialização da Change The Ref é deveras impressionante. O desfecho, criativo, é surpreendente.

Fundamentado em dados dos Centros de Controle de Doenças (CDC) que revelam que as armas de fogo são a principal causa de morte de crianças e adolescentes, o anúncio de sensibilização “American Cancer Story” confronta a violência armada e o câncer pediátrico a partir da experiência de uma jovem que tendo sobrevivido a um cancro se depara com um tiroteio no seu regresso à escola.

Anunciante: Change The Ref. Título: American Cancer Story. Agência: Klick Health. Direção: José Padilha. USA, abril 2024

Sem Meio Termo: Poesia da Vida e da Morte e Canções de Não Sobrevivência

António Joaquim Costa. Poesia da Vida e da Morte. Companhia das Ilhas. 2024

“Conheço as tuas obras, que nem és frio nem quente; quem dera foras frio ou quente!
Assim, porque és morno, e não és frio nem quente, vomitar-te-ei da minha boca.” (Apocalipse 3:15, 16)

Tenho uma costela de colecionador. Foram selos, minerais e outras preciosidades; agora, imagens, músicas e desenganos. Também medicamentos. Nove difeentes, alguns várias vezes ao dia. Comecei ontem mais um. Para a tensão. Anda alta (tanto que declinei o convite para participar hoje, 25 de Abril, num painel de 2 horas mum canal de televisão).

Nove medicamentos; outras tantas maleitas. Estou a aproximar-me de uma espécie de “transumano”. Como “parar é morrer”, não paro. E quem anda à chuva… Cismo, mesmo assim, que uma décima da tensão se deve à leitura de alguns poemas pouco ou nada apaziguadores.

Muitos sociólogos, à semelhança, por exemplo, dos médicos, namoram as artes e as letras. É o caso do Joaquim Costa que, inspirado, se dedica à poesia. Versos de uma lucidez crua e incisiva que desarmam e desconcertam. Tudo menos escrita morna. Qualidades raras! Percorri de fio a pavio o livro Poesia da Vida e da Morte (Companhia das Ilhas, 2024) e retive, para partilha, uma dúzia e meia de poemas, ciente de que numa segunda leitura, outra seria a escolha. E assim sucessivamente. Segue uma pequena compilação.

Os versos do Joaquim lembraram-me algumas canções, mais de morte do que de vida, de não sobrevivência, todas pouco ou nada relaxantes.

Atendendo ao momento [na rua entoa a Grândola Vila Morena], logo acudiram: Menina dos olhos tristes, de Adriano Correia de Oliveira (1969); Canta camarada (1969) e Cantar alentejano (1971), de José Afonso; e Manolo Mio, da Brigada Victor Jara (1977). De chorar por mais.

Adriano Correia de Oliveira – Menina dos olhos tristes. EP Fado de Coimbra. 1964
José Afonso – Canta camarada. Single. 1969
José Afonso – Cantar alentejano. Cantigas de Maio. 1971. Ao vivo com Rui Pato, no Teatro Avenida em Coimbra.
Brigada Victor Jara – Manolo Mio. Eito Fora. 1977

O Cavalo da Morte

Salvador Dalí. Le cheval de la mort. 1972. Litografia edição do autor assinada à mão

Gosto muito do Le cheval de la mort do Salvador Dalí. Há dias esteve em leilão uma litografia de 1972, edição do autor assinada à mão pelo próprio Dalí. Licitei e licitei até que, frustrado, considerei o valor exagerado. Quando deixei de acompanhar o leilão, já ofereciam 1 500 euros. Por uma litografia! Até mesmo do Dalí…

Não tive outro remédio senão contentar-me com a canção El Jinete [de la muerte] interpretada, à mexicana, por Tania Libertad.

Tania Libertad – El jinete. José Alfredo y Yo. 2017.

Caminhei, caminhei. Hino do povo Rom

“Djelem Djelem” (Caminhei Caminhei) é o hino do povo Rom (cigano), desde 1971. Uma belíssima canção, interpretada neste vídeo, com brio, pelos Barcelona Gipsy Klezmer Orchestra, banda criada em 2012. Nem sombra de inglês.

Max Theodor Gotz. Death Comes To The Fortune-Telling Gypsy. After the dance of death in Erfur. 1750

Barcelona Gipsy Klezmer Orchestra – Djelem Djelem. Imbarca. 2013

A importância dos notários

Sans blague! (Sem brincadeiras)!

Anunciante: Chambre des notaires de la Gironde. Título: Le bricoleur. Agência: Le Vestiaire. Direção: Antoine Lasssort. França, novembro 2023
Anunciante: Chambre des notaires de la Gironde. Título: Le buisson. Agência: Le Vestiaire. Direção: Antoine Lasssort. França, novembro 2023