Música para o Paraíso

Os anjos tocam e cantam no Paraíso. Nos momentos felizes, ouvem-se na Terra. Nos momentos abençoados, a voz e a música humanas também poderão alcançar o Céu.
O Pecado. Michelangelo

Estou a abordar a vida e a obra de Michelangelo na Universidade Sénior de Braga e a concluir uma conversa sobre as imagens da Virgem da Piedade e da Humildade nos séculos XIV e XV.
Uma hora é um colete muito apertado. Não dá para quase nada. Informações relevantes não podem ser contempladas. Passo a colocar artigos com conteúdos que compensem essa falha. Uma espécie de complementos.
Começo com o filme russo-italiano “Il peccato – Il furore di Michelangelo”, realizado por Andrei Konchalovsky e estreado em outubro de 2019. Não se demora nas obras, concentrando-se na personalidade do artista e no ambiente da época. Tem a particularidade de relevar a importância da escolha do bloco de mármore a esculpir. Boa parte do filme passa-se nas carreiras de Carrara e acompanha o transporte do “monstro”. Segue o filme falado em italiano e legendado em espanhol.
Pietà colorida

Hoje, adquiri uma Pietà. Andava à procura de uma boa versão colorida há muito tempo.
Aliás, também estou a preparar há anos uma “aula poética” sobre as esculturas da Pietà desde inícios do século XIV até finais do seculo XV. O título principal será “Com o Filho no Colo”.
Acontecerá lá para outubro ou novembro, se entretanto não me estimar demasiado ignorante.
Os leilões online são um dos meus passatempos preferidos. Normalmente, sei o que pretendo e não descanso até encontrar a bom preço.

A proprietária teve a gentileza de me trazer a escultura a casa.
De pedra, com 40 cm de altura, é deveras pesada.
Conduzi a senhora, sempre com a escultura no seu colo, até à sala onde já estava um lugar vago reservado na lareira, um dos santuários domésticos.
Pedi-lhe para ser ela a colocá-la. Apaguei-me enquanto permaneceu um bom momento a contemplá-la como quem se despede:
“Sabe, já a tenho comigo há mais de 20 anos. Mas fica bem entregue!”
Do pintassilgo ao pio-pardo
Entre as ideias congeladas, perdidas pelo caminho, consta um dos meus trechos preferidos do Vivaldi: o largo do concerto para alaúde em ré maior, RV 93. Estranhei não o encontrar no Tendências do Imaginário. Provavelmente, represesnta mais uma intenção que des-esperou. Enquanto procurava, parecia andar à caça de um pio-pardo. Aceite como garantido, adquiriu uma presença fantasma. Não está, mas ocupa lugar. Arrisco, portanto, uma “repetição” que lhe dê corpo.
A reincidência do grotesco

A publicidade parece desinibir-se, revisitando uma vocação excêntrica algo esmorecida. Seguem 4 anúncios exemplares: uma metamorfose (Bing your saturday to live), uma disformidade (Chocolate Like Nobody’s Watching), uma paródia (Beers To Come True) e uma alegoria (Care You Can Count On).

NOSTALROCK & NOSENSERAP

Ávidos de certezas num mundo problemático. A busca de um univocidade extemporânea. No que me respeita, procuro variar, senão contrapor. Após uma série de músicas sensatas e melífluas, apetece-me convocar um par de compositores e cantores excecionais e contrastantes. Um, desenvolto e divertido, dispõe bem, o outro, nem por isso. Ambos resultam marcantes e portentosos.
Começo com o Adriano Celentano, o “homem com molas”, como lhe chamam no seu país, a Itália, pelo seu modo frenético de dançar. Compositor, cantor, artista e realizador, iniciou a carreira em 1957, alcançando o planalto nos anos sessenta a oitenta. Mediático, com um humor apurado e energia em palco, não deixa ninguém indiferente. Quem nasceu no milénio passado, provavelmente há muito que não ouve falar dele, mas não o esqueceu. Como memória em vez de arquivo, segue uma mão cheia de canções.
Um amor. Coincidências desfasadas
“La musica ci insegna la cosa più importante che esista: ascoltare” / A música ensina-nos o que há de mais importante: escutar. (Ezio Bosso)
“Sono un uomo con una disabilità evidente in mezzo a tanti uomini con disabilità che non si vedono” / Sou um homem com uma deficiência evidente no meio de tantos homens com deficiências que não se vêm”. (Ezio Bosso)
No final da conversa do dia 3 de março sobre “a importância do carnaval na cosmovisão ocidental”, uma participante assumiu o Dino Buzzati como escritor favorito. Há muitos anos, “noutra vida”, entrei com uma amiga italiana numa livraria. Ofereceu-me Il gattopardo (O leopardo,1958) do Giuseppe Tomasi di Lampedusa, que Luchino Visconti transpôs para o cinema em 1963. Retribui com Un amore (1963) do Dino Buzzati, fonte, também, de um filme homónimo realizado por Gianni Venuccio em 1965. Décadas depois, em 1999, estreia um filme com o mesmo título, mas com conteúdo distinto, realizado por Gianluca Maria Tavarelli. A música foi composta e orquestrada por Ezio Bosso, que, além de pianista, também era, como se comprova, contrabaixista. Nessa altura, tinha 28 anos e ainda não se declarara a doença que o incapacitaria e vitimaria (ver Quando a alma fecha a porta e Degenerescência).


















































