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Perversidades

Os anúncios “Storytime” e “Romance”, do Stockholm International Film Festival 2025, resultam perversos: “anormalizam” a meio do percurso, acabando por lembrar dois filmes (de terror) clássicos: O Exorcista (1973) e A Semente do Diabo (Rosemary’s Baby, 1968).

Stockholm International Film Festival 2025 – Storytime. Agência: Rocket-Time. Direção: Gustav Egerstedt. Suécia, novembro 2025
Stockholm International Film Festival 2025 – Romance. Agência: Rocket-Time. Direção: Gustav Egerstedt. Suécia, novembro 2025

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O Exorcista. 1973. Trailer oficial. Direção: William Friedkin. 2 Oscars mais 8 nomeações em 1974.
Rosemary’s Baby. 1968. Trailer oficial. Direção: Roman Polanski. 1 Oscar mais 1 nomeação em 1969

Agonístico

Ocidentalização do oriente ou ocidente orientalizado? Ou um oriente, animada e delirantemente, bel(ic)o?
A canção “Let’s just crash” (2nd Opening Theme of TV Anime GACHIAKUTA), de Mori Calliope estreou ontem, dia 3 de novembro de 2025.
Um mimo filial, espécie de vacina contra a fossilização do espírito.

LET’S JUST CRASH – Mori Calliope (2nd Opening Theme of TV Anime GACHIAKUTA). Director : Yohei Kameyama, 03.11.2025

Restolho dos Serões dos Medos

Serões dos Medos. Casa da Cultura, Melgaço, 24.10.2025. Fotografia de Marco Gonçalves

A quarta edição dos Serões dos Medos (sexta, 24 de outubro) quase encheu o auditório da Casa da Cultura de Melgaço (com capacidade para 195 pessoas). De ano para ano, cada vez mais jovens e forasteiros. Uma iniciativa original, imaginativa e ousada, a assumir a população, simultaneamente, como protagonista e público. Em suma, um enxerto que pegou no programa mais alargado da Noite dos Medos.

Serões dos Medos. Vídeo de apresentação. Município de Melgaço, 24 de outubro de 2025

Mal começo a falar, após a exibição do vídeo de apresentação, um frisson de assombro e espanto apodera-se da audiência: uma “alma do outro mundo”, uma noiva penada translúcida, hasteada à minha esquerda, de tamanho natural, põe-se a estremecer teimosa e ostensivamente…

Não tive outro remédio, senão prosseguir o discurso, como se nada fosse.

Imagem: Noiva Penada. Noite dos Medos. Melgaço

Estive demasiado tagarela. Ainda mais do que de costume. Talvez por causa 1) da cafeína da coca-cola que os meus tios me ofereceram, b) de eventuais fluídos de papagaio provenientes da mediunidade da Mariana, sentada, eloquente e bem-disposta, ao meu lado, ou c) da intenção de aliviar a carga sobrenatural com disparates do tipo:

“há uns tempos, não me largavam os pesadelos com entes falecidos. Antes de deitar, bebia café com leite acompanhado com pão e queijo. Por obra e graça de um sexto sentido, antecipei a refeição uma hora. Desapareceram os pesadelos e as visitações do Além”.

Como nas edições anteriores, sem tempos mortos entre as 21 horas e perto das doze badaladas, confesso que acabei por sentir o espírito maligno do tabaco a chamar por mim. No fim, felicitei o Abel Marques pela organização, com destaque para o vídeo de abertura e o efeito da “boneca animada”. Disse-me que não foi de propósito. Pois, pois… acode-me o testemunho contado durante a sessão por um primo:

“O meu avô residia no lugar da Lavandeira e namorava no lugar dos Bouços, ambos da freguesia de Prado, a uma distância de perto de dois km, por carreiros estreitos, num tempo em que não havia eletricidade. Numa noite de luar, quando regressava a casa, a meio do caminho, no lugar da Barronda, sente-se agarrado pelo ombro, faz força para se soltar e vê no chão a sombra de algo que pairava no ar. Desata a correr, sem se atrever a olhar para trás. No dia seguinte, volta ao mesmo local: a boina baloiçava numa silva”.

Até para o ano, se os astros assim o entenderem! Entretanto, na próxima sexta, 31 de outubro, será a vez da Noite dos Medos.

“Medos” voltam a “assombrar” Melgaço

Sexta, 24 de outubro, pelas 21 horas, haverá mais uma edição dos Serões dos Medos, dedicada ao “sexto sentido”, na Casa da Cultura, em Melgaço. Na semana seguinte, 31 de outubro, será a vez da Noite dos Medos. Entretanto, pode visitar, até ao dia 16 de novembro, na Casa da Cultura, a Exposição Entre Mundos e Segredos.

Para aceder ao respetivo programa, bem como a quatro galerias com imagens e fotografias, carregar aqui ou na imagem seguinte.

Fantasmas do Mês dos Medos

O anúncio mexicano “Todo por Cheetos”, da Pepsico, inaugura brilhantemente e com sentido de oportunidade o mês dos medos. Associado à série Merlina, da Netflix, foi supervisionado por Tim Burton.

Mano a mano, pasito a pasito, a publicidade leva o Tendências do Imaginário um pouco por todo o mundo. Inclino-me, contudo, a contornar as geografias que tresandam a ódio (por todos os contentores e conteúdos, incluindo as vacinas) e a excesso de higienização (com overdoses de salvadores e detergentes). Não me cativam as misérias alheias sublimadas em emblemas pessoais de trazer ao peito.

Prefiro dirigir o olhar, cansado e limitado, para os centros e eixos passíveis de decidir o (meu) futuro, com ou sem candidatos a prémios da paz. Pelo caminho, sobram paladinos genuínos da generosidade, cujas maçãs caem menos vítimas de ventos adversos e mais por apodrecimento interno. “Hoje é domingo, ai que preguiça! Hoje é domingo, não vou à missa!”

Anunciante: Pepsico. Produto: Cheetos. Título: Todo Por Cheetos. Agência: Isla Ciudad de México. Canção: “La Llorona”, interpretada por Chavela Vargas. México, outubro 2025

A Banheira Fantasma

O mal espalha-se no espírito do tempo como a água por baixo da porta. No início, quase nada. Um pouco de humidade. Quando a inundação começa, é tarde demais (Christian Bobin, La Plus Que Vive, 1996).

O anúncio “DIY Odyssey”, da Hornbach, releva da arte. Alucinante, propõe, antes de mais, um coro e uma coreografia impressionantes. Aprecio os anúncios da Hornbach. Costumam ser criativos e divertidos. O Tendências do Imaginário contempla cerca de uma dezena.

Marca: Hornbach. Título: DIY Odyssey / The Square Meter. Agência: HeimatTBWA, Berlin. Direção: Lope Serrano. Alemanha, agosto 2025

Anúncios de arrepiar

Brinquemos aos disparates!

Se existem profissionais cuja capacidade de aprendizagem admiro são os médicos. Mas, até entre os mais dotados e afoitos, a aprendizagem pode enredar-se num qualquer nó. Talvez seja o caso do “sistema” [informático], mais mecânico do que orgânico. Por trágica ironia, quando se começa a dominar o “sistema”, logo o dito cujo cuida de mudar.

Por seu turno, os sociólogos comprazem-se a desatar nós. Desconstroem-nos, “reformando ilusões”. No conhecimento sociológico proliferam, portanto, as pontas soltas. Entre enlaces e desenlaces, o diálogo entre médicos e sociólogos pode ser edificante. Mesmo quando é questão do senso comum sábio acerca dos malefícios mais que evidentes do tabaco.

Imagem: Kamal Gurung, Lalitkala Fine Art Campus. Kathmandu, Nepal

Tenho sugerido que a publicidade de consciencialização varia geograficamente. O Ocidente tende a apostar no sério realista assustador, o Oriente, no humor delirante persuasivo.

O anúncio português “Heavy Silence”, sobre o risco de afogamento, segue a regra; já o anúncio tailandês “Park”, sobre os perigos do cigarro eletrónico, afasta-se da tendência oriental. A fantasia e o riso congelam dando lugar ao drama. Pelos vistos, a adesão dos jovens ao cigarro eletrónico assevera-se particularmente alarmante.

Anunciante: APSI (associação para a promoção da segurança infantil). Título: Heavy Silence. Agência: Havas Worldwide Portugal. Portugal, julho 2022
Anunciante: Thai Health Promotion Foundation. Título: Park. Agência: Grey Thailand. Direção: Suthon Petchsuwan. Tailândia, agosto 2025

Martirografia

Nikola Saric. Les Martyrs de Libye, 2018. Aguarela (100 x 70 cm). Original no Petit Palais, em Paris

Impressionou-me a aguarela “Os mártires da Líbia” (2018), da autoria de Nikola Saric, artista sérvio residente na Alemanha (ver Interview With Nikola Sarić). Foi concebida em memória dos 21 operários coptas assassinados pelo Daesh, na Líbia, em 15 de fevereiro de 2015. À primeira vez, pensei estar perante uma imagem medieval. Ocorreu-me, então, a palavra “martirografia” para aludir à análise das imagens respeitantes a mártires e martírios.

Não encontrei a palavra “martirografia” nos dicionários de língua portuguesa que consultei. Mas, como de costume, acabo por “inventar a pólvora”. Um vício entranhado que me dá um certo gozo.

Outros já tiveram a mesma inspiração, muito embora em italiano. Por exemplo, Roberta Denaro no subtítulo da obra Dal martire allo sahid: Fonti, problemi e confronti per una martirografia islamica, publicada em 2007.

“Os mártires da Líbia”, de Nikola Saric, foi recentemente incluída na coleção do Petit Palais, de Paris. Esta aquisição justifica uma notícia circunstanciada pela Aleteia, redigida por Caroline Becker, que entendo colocar. Para aceder ao artigo correspondente, carregar no seguinte endereço: https://fr.aleteia.org/2019/09/27/une-icone-sur-le-martyre-des-21-coptes-accrochee-au-petit-palais/. Acrescento a tradução simultânea do texto.

O Petit Palais acaba de fazer uma aquisição verdadeiramente emocionante. O museu parisiense adquiriu uma enorme aquarela contemporânea pintada em memória dos 21 trabalhadores coptas assassinados pelo Daesh na praia de Sirte, Líbia, em 15 de fevereiro de 2015. Uma tragédia que muitos não esqueceram, incluindo o pintor Nikola Saric, autor desta obra inspirada na iconografia bizantina.

Na parte superior, Cristo é cercado por uma suave luz rosa. Sua figura entronizada e hierática é contrabalançada pela bondade de seu rosto. Num gesto paternal, seus braços se estendem e abraçam seus filhos, os 21 mártires cristãos egípcios brutalmente assassinados pelo Daesh em 2015 em uma praia da Líbia. Um drama filmado, visto por milhões de internautas, que ninguém esqueceu.
Nikola Saric, o artista cristão sérvio por trás desta obra, também não se esqueceu. Ansioso por transcender esse martírio coletivo, ele escolheu a pintura como válvula de escape. O resultado é um ícone fortemente inspirado na iconografia tradicional bizantina. Composta a partir do vídeo da execução, a obra sintetiza os diferentes elementos da encenação: os 21 reféns, alinhados de joelhos, vestem macacões laranja. Os carrascos, atrás deles, formam outra fila e estão escondidos sob trajes pretos com capuz. Eles seguram os condenados no chão, com facas na mão.
O artista optou por incluir a figura de Cristo para recordar o sacrifício dos coptas que se recusaram a renunciar à sua fé. A sua presença realça, assim, que não se trata de uma simples execução, mas sim de um martírio. Cristo também está, simbolicamente, vestido com a mesma cor laranja. Uma iconografia que lembra o ícone dos Quarenta Mártires de Sebaste , um ícone do século XV que narra o martírio de 40 soldados cristãos durante o reinado do imperador romano Licínio, em 320. Outro martírio coletivo testemunhado por Cristo e do qual Nikola Saric se inspirou para criar o seu ícone. Com esta obra contemporânea, o artista sérvio coloca-se imediatamente na linhagem dos ícones hagiográficos.
Com esta aquisição, o museu parisiense completa sua já impressionante coleção de ícones. No entanto, esta é a primeira vez que adquire um ícone contemporâneo, marcando uma virada na história de suas coleções. Com esta obra original, a instituição testemunha eventos recentes da história e revela o nascimento do culto aos santos contemporâneos. Os 21 coptas já estão, de fato, listados no Synaxarium , o equivalente ao Martirológio Romano para a Igreja Copta, o que significa que já estão canonizados.”
(Caroline Becker, ” Um ícone do martírio dos 21 coptas pendurado no Petit Palais”. Aleteia, publicado em 27/09/2019)
40 Martyrs at Lake Sebaste – Greek Orthodox Archdiocese of America – Orthodox Church

Do belo Horrível

Segue um artigo oportuno e lúcido sobre algumas tendências atuais do “processo civilizacional” estudado por Norbert Elias. Se o Luís Bastos não se importar, subscrevo. [Pode também aceder ao artigo carregando na imagem precedente]

Riso e ridículo sem fronteiras

Digamos algumas palavras prévias acerca da natureza complexa do riso carnavalesco. É antes de mais um riso de festa. Não é, portanto, uma reação individual perante um qualquer fato “engraçado” isolado. O riso carnavalesco é, em primeiro lugar propriedade, do conjunto do povo (…) todo o mundo ri, é o riso “geral”; em segundo lugar, é universal, atinge tudo e toda a gente (incluindo aqueles que participam no Carnaval), o mundo inteiro manifesta-se cómico, é apercebido e conhecido sob o seu aspeto risível, na sua alegre relatividade; enfim, em terceiro lugar, o riso é ambivalente: é feliz, transbordante de alegria, mas ao mesmo tempo trocista, sarcástico, tanto nega como afirma, tanto enterra como ressuscita (Mikhail Bakhtin, L’Oeuvre de François Rabelais et la culture populaire au Moyen Âge et sous la Renaissance, Gallimard, 1970, p. 20).

Mas nem todo o riso é carnavalesco. Se tudo é risível, nem todos têm sentido de humor ou, por desventura, eventualmente nem sequer riem. Por seu turno, a publicidade oferece-se como uma espécie de Carnaval sem fronteiras e sem data marcada. Ontem como hoje, da França até à Austrália. Segue o disparatado anúncio Ecographie, da Eurosport (1999), mais o delicioso Four Legged Friends e o delirante Mirror Mirror, ambos da Telstra e acabados de sair (abril de 2025).

Eurosport – Écographie. Agência: Enjoy Scher Lafarge. Direção: Hervé Hiolle. França, 1999
Telstra – Silent Films – Four Legged Friend. Agência: Bear Meets Eagle On Fire / +61. Direção: Dougal Wilson. Austrália, abril 2025
Telstra – Silent Films – Mirror Mirror. Agência: Bear Meets Eagle On Fire / +61. Direção: Dougal Wilson. Austrália, abril 2025